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Posts Tagged ‘infância’

Cheguei anteontem de Belém, onde fiquei alguns dias em família. Chego sempre aos poucos porque embora não tenha dúvida que meu porto seja em São Paulo, é ali, naquela região, que está fincada minha âncora. Numa confluência imaginária entre o Rio Tocantins, o Rio Guamá e a parte do Atlântico que banha São Luis do Maranhão. Foi por ali que espiei pelas primeiras vezes este mundo vasto. Dali, daquele píer, saí para uma outra vida que me convocava desde muito cedo. Ancestrais navegadores.

Escrevi, certa vez:
‘Não é no mar, por mais que se ame o mar,
Não é no rio, por mais que se o ame,
É no riacho que se vai afundar
Só até a cintura,
Só até a moldura
E refrescar a vida inteira’

Parte de minha infância e adolescência foi passada em uma fazenda no interior de Goiás, hoje Tocantins, junto a meus pais e irmãos, e muitas vezes com tios, primos e uns poucos amigos. Lembro do silêncio, do ceu azul, da noite preta que se transmutava em prata na luz das estrelas. Do meu pai, descontraído e jovem, mandando selar os cavalos e abrir as porteiras; minha mãe às voltas com as plantas, os ovos de pata, o arroz de leite com carne de sol. Toalha branca na mesa.
Fragmentos desta infância povoada de duendes e fantasmas, a viagem dos carneirinhos que meu pai narrou durante anos, a mulher da lamparina que vagava nas noites sem lua, os banhos no riacho gelado, o vento zunindo nas frestas das janelas e a chuva da madrugada lavando telhas e medos, coloquei no papel e chamei ao conjunto destas memórias de  ‘O Rio Que Corre Estrelas’.  Tenho transcrito alguns destes fragmentos por aqui. São preciosos para mim.

Pois é de tudo isso que volto quando chego do convívio com ‘os meus’. É de uma vitória sobre o tempo. Porque nada é pretérito quando estamos juntos. Tudo se repete num milagre atemporal e inquebrantável. Está tudo ali disposto, ao alcance das mãos. Nesta moldura estamos todos ocupados e saudáveis. Ocupados como o são as crianças, e saudáveis como se sentem todos os que se percebem iluminados por um Sol.

Daqui a pouco eu acabo de chegar. Um abraço.

Na foto da Silvânia, eu e mamãe.

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