Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘cartas à mãe’

 A bênção, mãe!

O inverno chegou com tudo a  São Paulo. Escureceu e não sei onde foi parar o azul que na semana passada coloria a cidade . Parece que alguém passou a borracha no quadro-negro apagando tudo; restou só a lousa. No começo eu tremia feito vara verde, mas Laurinha foi comigo até o centro e eu comprei um agasalho de sair e duas malhas de ficar em casa, sendo uma pra escrever e assistir televisão depois do banho, e a outra, a de macaquinhos coloridos, para a lida do dia.

Falar em banho não é fácil ficar embaixo do chuveiro nesse tempo. A água é quase tão quente quanto a que vó Bina ferve pra fazer o chá de cipó, e eu saio toda engilhada e me coçando inteira. O patrão explicou que deve ser alergia à água quente, mas com água fria não dá nem pra chegar perto do chuveiro, e assim vou levando, coçando um cadiquinho aqui, outro acolá, mas sempre em frente.

As duas coisas que mais gosto do frio são de fazer fumacinha com a boca e sentar no vaso sanitário gelado. Pense num vaso sanitário gelado, minha mãe! Eu duvido que a senhora consiga proceder numa situação dessas, mas é divertido por demais. A gente leva um tempão pra se agasalhar, só se mexendo de um lado pro outro até esquentar a tampa.

E lá fora o frio comendo solto. Parece que ligaram o ar refrigerado na cidade inteira, a senhora acredita?

Quando saio cedinho pra levar o Bulle passear, cruzo com as meninas, que vêm encorujadas, de cabeça baixa, andando ligeiro, fazendo fumacinha, enfiando as mãos com luva e tudo dentro das mangas do blusão. Raimundinha da Zezé falou que não se acostuma com isso não, sente falta do calor, mas eu acho é bom. Finjo que me vejo passar com o cachorro na neblina e parece que estou dentro de um filme em 3D, a senhora sabe? Quer dizer, em 3D a senhora não sabe o que é, mas ficar dentro do filme deve imaginar porque já lhe levei várias vezes ao cinema do compadre Espedito, e até lhe dei a mão na hora que o navio afundou aquela vez, lembra?

Vou fazendo amizade com a empregada dos vizinhos, mas ainda estou tomando chegada. Ela chama Sulamita e mora aqui há doze anos. Acho Sulamita um lindo nome, e se eu não fosse De Jesus gostava de ser Sulamita. Ela contou que na casa deles tem até lareira, mas daqui de casa eu não vejo a fumaça subir nem sinto cheiro de lenha queimar. Eu só escuto o silêncio.        

Pra senhora ter ideia do que é uma lareira pense numa fogueira de São João dentro de casa. Mas não se preocupe que ela fica lá no quadradinho dela e é muito bem treinada. Ela esquenta por dentro sem queimar o de fora, e o fogo é do mesmo laranja que o daí.

Ainda não morro de saudade, viu, mãe?

Abençoe essa filha que só aprecia o frio desse inverno porque trouxe muito calor no coração. E foi mesmo a senhora a lenha desse fogo, ô se foi! Não deixe de ver onde a Serena está pondo os ovos, ela às vezes dá de pôr do lado de lá do açude e pode se perder todo o ninho. Diga ao pai que, lá no centro, eu vi os homens com as placas de Vende-se Ouro no peito, que ele  acha tão bonito.

Com amor que nunca esfria,

Lindinalva de Jesus.    

Anúncios

Read Full Post »