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sereia

Inquietação muita gente tem; transformar inquietação em ouro são outros foguetes. Você tem o canto da sereia, e esta é sua glória e miséria. Sem o canto não há festa; sucumbindo ao canto não há jogo. Sugiro que o faça vibrar, mas não se detenha para ouvir. Vá em frente, sempre em frente, até que se torne música suave e não o impeça de escutar sua própria palpitação; esta, sim, matriz das palavras fecundas.

manhã

Há pouco
abri os olhos
e me deslumbrei:
amanheci.

E tudo amanheceu junto comigo.

Às cinco da manhã do domingo já se pode antever o dia ensolarado e quente. A primavera explodiu o inverno, e ele não encontra dificuldade em se levantar da cama, apesar do conforto sob as cobertas. Lá fora os afazeres. Na cabeceira gibis reminiscentes do Fantasma, Bolinha e um Homem Aranha escalando as paredes metálicas do arranha-céu.

Levanta, e ainda de pijama, inicia os exercícios na penumbra do quarto. O corpo redondo responde mal às tentativas de alongar, portanto se esforça para manter a vertical. São exercícios breves, ele quer o dia lá fora.
Abre a janela de madeira no térreo do mosteiro e seus olhos ultrapassam as folhas carregadas de gotas transparentes, alcançando a calçada do lado de lá do jardim onde a cidade igualmente desperta.

Liga o rádio e entra no banheiro ao lado. Abre o chuveiro e enquanto espera a água aquecer olha-se no espelho, a cara amarfanhada e gorda, a barba desalinhada e rala, o sábado inteiro às voltas com oblações da paróquia, onde o encantamento?

Vem desde criança a atração pela santidade. Quando menino, palavras como mosteiro, genuflexório, turíbulo, espalhavam cinzas e aspergiam magia nas tardes obesas do interior. Então, cerzia sacos de estopa, vestia-os, amarrava a cintura com a corda da rede e saía à rua, assoprando papéis de seda, os pés descalços e a cabeça nas nuvens, lugar bom de ficar.

Lugar bom de ficar feito o colo do pai, onde, montando o cavalo, acompanhava seus dedos longos folheando o catecismo cheio de imagens, dividindo, ambos, o silêncio sagrado.

‘Santo?!’, zombou o primeiro a quem confiou o desejo de santidade. ‘Quanto maior a consciência do pecado, mais altas as pretensões em contrário’, completou o sacristão antigo, passando a caminho do confessionário, nos preparativos da Semana Santa. Ele não entendeu o comentário e apertou entre os dedos a pequena imagem do São Francisco, eterno inquilino do bolso qualquer fosse a calça, agora comprida.

A água demora a esquentar, o chão está frio, essa barriga não para de crescer, ele se coloca de perfil diante do espelho e desliza a mão pelo abdome como fazem as grávidas. Embaixo d´água abre as pernas para expor à água todas as junções, a assadura inevitável pelo entrechoque das coxas grossas e os pelos enrodilhados. Enxuga devagar coxas e virilha, agachando-se com dificuldade, formando com as pernas um losango flácido, são misérias de existir. Foi o dermatologista quem orientou na televisão manter secas as dobras da pele, criadouro de fungos e bactérias. Todos os gordos deveriam ser expurgados, as banhas incendiadas no fogo do inferno e um sonoro Angelus deveria abençoar o que é belo, longilíneo e são.

O novo sacristão é belo, longilíneo e são. E tem olhos de amêndoa por onde nadam peixes esguios em tons variados de azul – isso é Deus.

‘Uma fagulha do vosso amor pode abrasar a terra’, reflete, enquanto, nu pelo quarto, acompanha, do rádio, o ‘adagietto’ da quinta sinfonia de Mahler, e a lembrança de Morte em Veneza, o filme que não cansa de rever, o entusiasma. Ele exala dos poros alguma esperança antiga.

Veste o hábito sobre o corpo nu, gosta das sandálias gastas e da genitália livre. Penteia o cabelo molhado, cada dia mais ralo, tentando alinhar fios parcos. O resultado é patético, ele sabe, mas sabe também que o ridículo é inevitável quando se tem calvícies a disfarçar, e ele as têm pelo corpo todo. Tenta alinhar, igualmente, a sobrancelha grossa, onde os fios são membros divergentes de uma mesma Ordem.

Não desliga o som, de onde agora sai uma música suave e delicados acordes; necessário aprisionar esse deus de belezas. Sai, encostando com suavidade a porta de madeira.

Os corredores são largos como sonhava na cama dos oito anos, entretanto não é aroma de incenso o que respira, mas a fornada do pão doméstico na cozinha próxima, e não há um órgão plangente no meio do pátio vibrando a Ave Maria, apenas dois ou três passarinhos cantando à capela no jardim central.

Depois do café, onde tomou Nescau, prepara a igreja para a missa das sete. A mãe informou lá atrás que no convento das Capuchinhas as freiras oblatas é que se encarregavam da limpeza e do trabalho pesado, moças simples do interior. Ele é leitor de Santo Agostinho e Teresa D’Ávila, quando vai assumir a homilia de domingo? O Eclesiastes joga água na fervura: ‘Vaidade das vaidades, tudo são vaidades’. Aperta o crucifixo na cintura e prossegue.

Distribui a eucaristia, a igreja lotada apesar do horário, a disciplina vai salvar o mundo. O sacristão recém chegado sorri framboesa e seus dentes são puro cálcio. O outro tem unhas de marfim, é tão jovem – são deuses, são deuses.

Na saída, conversa guloseimas com os paroquianos. A menina de dona Rosário está praticamente uma moça, já tem peitinhos e suor no buço. O irmão aflorou os maneirismos anunciados na infância, um jogo de pernas, o pulso que não se firma e uma cabeça móvel demais sobre o pescoço.

O adro da igreja, os religiosos, o domingo e as crianças, tudo desliza e se movimenta devagar ocupando espaço numa moldura barroca.

Depois, a dispersão, e ele chega à calçada; tocaria na moldura, se estendesse o braço.

Sobe dois quarteirões banhados por um sol civilizado, sem suores. A banca de revista é mais vibrante que este sol de primavera, encharcada de cores e delícias. Recorda os santinhos de papel da infância, igualmente expressivos e cheios de cor. Sebastião amarrado no tronco, as chagas vermelhas, vermelho o pano atado à cintura e os lábios crispados, dourada a auréola, e ainda as flechas. A mulher hortifrúti na contracapa do jornal convida com a língua à degustação. Elas são tantas que daria para fazer uma salada sem repetir a fruta, onde foi parar a inocência?

‘Bom dia, seu Nestor! Recebeu a revista?’

‘Bom dia, padre! Vende mais do que pipoca, mas a sua está guardada lhe esperando’.

Seus olhos acendem e ele expressa finalmente um sorriso. Ela está ali, de volta, vestindo o mesmo vestido vermelho, agora motorista do táxi de madeira. Abençoada ideia de relançar a Luluzinha, ele balança o gibi feito flâmula.

Desce a rua com a concentração de quem carrega o Menino – tem nove anos e volta do armazém onde o Alemão vendia os gibis distribuídos pelos cestos de verduras e legumes; encontrá-los era como descobrir ovos muito brancos aninhados no milharal.

Avista o pai no portão do convento empunhando um guarda-chuva desnecessário, e esbarra. Aperta a revista na mão. A poucos passos, o sacristão recém-chegado o chama com o monossílabo da intimidade e ele se volta, ventania.

A revista escapa de sua mão e dá luz à outra revistinha menor que vai descendo pela calçada na direção do pai, escorregando, virando cambalhotas até esbarrar na mureta do meio-fio. Vibrantes cores, closes, pentelhos e genitálias arreganhadas.

Quando cavalgava no colo dele, o pai chamava essas revistinhas de catecismo.

Rosa Flor, a burrinha do Zé Maria, finalmente morreu, tão doente esteve.
Ele ficou triste, mas conformado. Falou devagar, agachado à  beira do riacho, mordiscando tiras de capim:
‘Foi melhor, viu, seu menino? A bichinha tava sofrendo mais do que sovaco de aleijado. Agora, mortinha, deve estar folgada feito paletó lascado atrás’.
E levantou pra lida, pois segunda-feira.

alquimia

Minha mãe é minha primeira leitora. E, não, não é a mais exigente. Ela não gosta mesmo é que eu escreva palavrão, mas às vezes é preciso. Então, em vez de dar pra ela ler, leio pra ela. E, lendo, transformo merda em especiaria.

Minha mãe faz alquimias.

estiagem

O tempo segue seco
e eu zapeio nuvens.

A chuva saiu de cartaz.

lágrima

Ela chorou em silêncio. Não deixou escapulir a lágrima e o sal.

Esterilizou a terra.