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Archive for the ‘VIAGEM’ Category

Estou novamente em Belém para passar o Natal com a família. Instaurei a ponte-aérea São Paulo-Belém; esta é a quarta vez que venho este ano. Estou me especializando.

Mal cheguei ontem à tarde, desabou um temporal. Relâmpagos, trovões, nuvens de chumbo. Opulento como a Amazônia. E breve. Meia hora depois o céu novamente azul. As pessoas de volta ao domingo e aos festejos; não falei que os paraenses estão sempre festejando alguma coisa?

Ainda ontem, por conta de uma conexão de três horas em Brasília, resolvi fazer uma visita rápida à cidade. Estive lá uma única vez e há muitos anos. Fui à Catedral e  depois caminhei por ali, na Esplanada dos Ministérios. Ao fundo, a Praça dos Três Poderes. Do lado oposto, a Torre que, em minha memória, era gigantesca. Longe disso. E, cá entre nós e o padre que nos confessa, achei que falta alma à catedral. Todo o entorno igualmente árido, alguém assistiu Paris-Texas?  Não há relacionamento entre a Catedral, o Museu Nacional e a Biblioteca, apesar de estarem tão próximos. Não formam um conjunto, não fazem uma família. Senti-me espectador, sem integração.

A cidade é espraiada, um vasto horizonte. Não há fronteiras. Antes do que me programara, peguei o táxi de volta para o aeroporto, algum abrigo. O motorista está ali há cinquenta anos e se sente bem. Falou que a cidade é segura, e apesar do crack que chegou com tudo, a violência não é descontrolada. Entretanto, sabemos da violência que circula intra muros, e repercute em todo o país. Fantasmas.

Fala-se do céu de Brasília e suas belas noites de estrelas. Ontem, realmente, fazia um dia azul. Pensei em Cássia Éller, Herbert Viana, Zélia Dunkan, Renato Russo, essa gente que habitou ali e fez este som urgente e visceral. Veia, sangue, batidão. Despertar a cidade?!

De volta à Belém, escrevo do 12. andar, onde o vento faz a curva, lembra que te falei da outra vez?

Daqui a pouco vou ganhar espaços públicos, tenho uma hora de lambuja, não existe horário de verão por aqui.

Tão logo consiga, darei sequência à Pandora; quem sabe coloque a própria numa barraquinha, fim de tarde, tomando, tranquilamente, uma cuia de tacacá em plena Amazônia, sandália de dedo. Com aquele leve sorriso, evidente.

Forte abraço.

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JAHIPUR é conhecida como CIDADE ROSA desde 1876, quando seu marajá mandou pintá-la dessa cor para uma visita do Príncipe de Gales. Periodicamente refazem a pintura.

Pela manhã fomos ao FORTE AMBAR, onde chegamos de elefante. Isto mesmo. Subimos a rampa sentados neste senhor tranquilo, confortável e tatuado. Meio mico, não é? Mas aos turistas (quase) tudo é permitido. E rende belas fotos. O Forte mistura a arquitetura hindu e muçulmana. As muralhas são altas e os ambientes enormes. Possui três salões para diferentes ocasiões. A ‘sala dos espelhos’ é impressionante, toda forrada de pequenos espelhos coloridos. O marajá que o construiu tinha três esposas e 1.600 concubinas. Apenas.

De lá seguimos para o MAHARAJA´S CITY PALACE, onde uma parte é ocupada pelo atual marajá. Escorpiano, diga-se de passagem, conforme constatei pelo desenho do próprio na placa de seu carro que estava estacionado ali. Se o fato de ter um escorpião desenhado na placa do automóvel não for referência ao signo, por favor não me informe porque achei bastante simpático por parte do marajá.

Aqui, os sáris são novamente coloridos e os turbantes têm cores vibrantes. Desnecessário voltar ao calor, ao trânsito e aos condimentos. Tudo igual.  Tudo efusivo. 

Pegamos o avião para BOMBAIM, a maior cidade da Índia. Um caldeirão efervescente. Novamente os contrastes são gritantes. Riqueza e pobreza por toda parte. Um mundo inteiro.

Da janela do hotel, uma ampla vista do porto. Pela manhã fomos de barco à ILHA ELEFANTA, uma hora de viagem. Chegando ao cais pegamos um pequeno trem até o monte onde está a caverna. É um templo construído em uma pedra monolítica, com diversas imagens de Shiva, parcialmente destruídas pelos portugueses, à época do Império Português. Tenho a impressão que a maioria absoluta dos templos neste país são dedicados à SHIVA, o Deus da destruição, ou da transformação. Parece que os indianos têm muito medo que ele abra o ‘terceiro olho’, o que significaria período de grande destruição. Então, a Ele todas as reverências. Aqui, a estátua mais eloquente é o Shiva das Três Faces: o destruidor, o preservador e o criador do universo, com mais de 6 metros de altura.

De volta à Bombaim, sentamos para conversar com a guia, enquanto esperávamos a revelação de umas fotos. Ela nos contou que na cidade as mulheres desfrutavam de uma liberdade maior  que no resto do país. Inclusive as solteiras. Ela mesma, com mais de quarenta anos e solteira, tinha uma vida, em muitos aspectos, similar às mulheres ocidentais. Por exemplo, estava sentada ali, tranquilamente, com dois homens estrangeiros. E para demonstrar o quão diferenciada era sua família, contou que seu irmão descobrira que ela fumava e, ao contrário do esperado, não fez nenhum escândalo ou a proibiu de pegar no cigarro. Apenas pediu para que não fumasse ‘na frente do papai’. Coisas da metrópole!

Às dez da noite pegamos o avião para JOHANNESBURG, de volta ao BRASIL. Arrumei a bagagem de mão, dei uma geral no pessoal que estava embarcando e, exausto, peguei no sono antes mesmo da decolagem.

Sonhei que passeava de camelo, no final da tarde, pelas ruas de Jodhpur. Gente, elefantes, triciclos, riquixás, vacas, tuc tuc, cachorros, poeira, gente, gente, gente. E eu ali, no olho do furacão, vivendo o privilégio de constatar tamanha diversidade, antes ainda do pôr do sol alaranjado.

NAMASTE!

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AGRA/por aí…

Mais ou menos duas horas de trem até AGRA.

No lobby do hotel encontramos o mesmo grupo de portugueses com o qual nos havíamos deparado em Kathmandu. Eles faziam um rally por aquela região. Um grupo animado. Ficamos um pouco no bar do próprio hotel, ao som de um piano bem chinfrim; sabe aquele ‘de churrascaria’? Para completar, estávamos cansados. Pista.

Da janela do apartamento, com muito boa vontade, dava para ver a silhueta do Taj Mahal ao longe. Ao longe mesmo. Bem longe. Estiquei o pescoço. Me certifiquei. E fui dormir.

Na manhã seguinte, depois do café da manhã, fomos direto comprar uma mala porque a nossa pediu arrego. Fomos de riquixá. Nosso condutor era dos mais simpáticos. E perseverantes. Esperou um tempão enquanto andávamos pelo comércio. Na volta, lá estava ele, lépido, fagueiro e com um sorriso que deixava à mostra a ‘porteira’ dos dentes superiores. Quintana já falou que os sorrisos mais sinceros são os sorrisos desdentados, sabia disso? Acreditando piamente, consentimos que nos levasse a um ‘shopping’ nas redondezas. Lá se vão as rúpias! Elefantes, pulseiras, ‘terceiro olho’, quinquilharias. OK, todos satisfeitos.

À tarde fomos ao RED FORT. Monumental. Grandioso. Aqui, o Shah Jahan passou seus últimos anos; reza a lenda que aprisionado por seu próprio filho, que queria se tornar, ele próprio, Rei. Fato é que da torre que ocupou no final da vida tinha uma bela visão do mausoléu que mandara construir em homenagem a sua esposa Mumtaz Mahal, o TAJ MAHAL. A princesa, especialmente amada pelo príncipe (ele tinha várias, como de costume), morreu no parto de seu décimo quarto filho, e ele resolveu homenageá-la com um monumento que traduzisse para o mundo inteiro o seu amor. Coisas de magnata, não é?

Chegamos finalmente ao TAJ MAHAL, ali ao lado. Foi emocionante. Algumas imagens fazem parte de nosso repertório de memórias há tanto tempo que quando estamos diante delas é como se regressássemos a um antigo porto. Foi com este sentimento afetuoso que o olhei pela primeira vez. E de longe, apreciando todo o cenário. Uma cena realmente impactante.

Ele é todo em mármore branco e decorado com milhares de pedras semipreciosas. Inteiramente simétrico. Pode ser igualmente visto de qualquer lado, embora a visão que se tem, vindo do Red Fort, seja a mais eloquente. E é menos suntuoso do que imaginava. Na comparação com o RED FORT, seria, digamos, a jóia da coroa.  

Havia muita gente por ali; nada, entretanto, que dificultasse a visita, portanto o observamos com vagar. Circulei todo o tempo com o batuque do ‘o amor do príncipe Shaj Jahan pela princesa do Mahal’ do Jorge Ben, na cabeça.  Sei que não é muito romântico, mas foi o que me ocorreu de momento. Ali estão os túmulos (ele também foi pra lá) em mármore, trabalhados com pedras preciosas em formato de flores que refletem os raios do sol no final da tarde. É mole?

Depois da visita, deitamos na grama do jardim e ficamos olhando para cima, em silêncio, contemplando o firmamento azul. Naquela situação, única obra de arte que poderia fazer frente àquela outra.

Ah, dizem também que o príncipe, para que não houvesse imitação do Taj em nenhum lugar, mandou amputar as mãos dos principais escultores, mas, francamente, preferi não macular a imagem deste jovem senhor apaixonado e fiz ouvidos moucos à esta informação. Talvez tenha feito mal.

No dia seguinte saímos de carro para JAHIPUR. No caminho, paramos em FATEHPUR-SIKRI, cidade deserta do século XV. Foi abandonada depois de 15 anos da construção devido à escassez de água e, como nunca foi invadida, permanece em ótimo estado de conservação.  Não havia realmente outras pessoas ali além de nós. É interessante você se encontrar em uma cidade fantasma, em plena Índia, debaixo de um sol avassalador. Embora eu seja nordestino e já tenha visto a terra rachar, não deixei de achar surreal.

Poucas horas depois chegamos a JAHIPUR, a CIDADE ROSA.

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Chegamos à cidade pouco depois do meio dia e, com aquele calor, fomos direto para a piscina. Este hotel também fica um pouco retirado, e estava praticamente vazio. Melhor assim. Um sossego é sempre bem vindo por aqui.

À tarde fomos com o guia aos templos onde estão esculpidas as figuras do KAMA SUTRA. Construídos pela dinastia Chandela entre 950 e 1050, estão ali as diversas manifestações da sexualidade humana retratadas em figuras altamente eróticas; além de outras tantas manifestações dos costumes no correr dos tempos. Mulheres se maquiando, camponeses, músicos, flagrantes, enfim, da vida cotidiana. Na parte dedicada à expressão da sexualidade estão desde orgias até sexo com animais mitológicos, passando por todas as variáveis que você possa imaginar (ou não). Achei extremamente perspicaz e abrangente. Mais do que uma obra de arte, uma viagem ao cerne de nossa própria natureza. Eram 85 templos, restaram 22. Os monumentos foram erguidos em sólidos módulos de pedra e estão distribuídos em uma imensa área verde, naquele dia, banhada de sol.

Enquanto estivemos ali fomos observados por dois ‘nativos’ simplórios, sorridentes e interessados. Quando os convidei para tirar uma fotografia, eles imediatamente se colocaram diante da câmera, sem uma pergunta sequer. E sorriram. Depois saíram de mãos dadas.

A Índia é um país cativante. Por sua exuberância e seus contrastes. Porém, acima de tudo, os indianos. Aquela docilidade e disponibilidade só conheci nos interiores por onde andei em minha infância. Sempre que os via sorrir com incrível ingenuidade pensava que algum dia nós também tivemos aquela maneira desarmada de acatar o mundo. E o mesmo fascínio pelas novidades. Grosso modo poderia dizer que alguma inocência acompanha aquela gente pela vida afora. Está no olho e em uma ternura quase sempre recatada.

Na volta paramos em uma oficina de artesanato. São inúmeras, e os guias estão sempre te convidando a conhecer alguma. Faz parte do negócio.

No dia seguinte saímos de carro em direção ao ORCHID RESORT, para ver o quê? Templos, você já sabe. Quatro horas de viagem. Quando chegamos era tão infernal o calor que dispensamos a peregrinação e nos contentamos com um almoço no restaurante do resort. E uma cerveja gelada. Muito gelada, por favor. Shiva haverá de compreender.

Um pouco mais tarde estávamos no barzinho de um pequeno hotel fazendo hora para pegar o trem. Que lugar esquisito aquele. Escuro, silencioso, lúgrube, um tom sépia. Faltou apenas o abajur lilás. A comunicação com o graçom, impossível. Gestos e máscaras. E a indefectível linguagem dos sinais. Àquela altura eu já estava acostumado com cenários inusitados, portanto…tim tim!

Na estação, novamente o burburinho. Pessoas em pé, nos bancos, e sentadas pelo chão. O trem saiu às 18.15hs. Estamos seguindo para AGRA. E, com ela, o TAJ MAHAL.

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O hotel aqui, Crowne Plaza, é especialmente simpático. Fica meio afastado da cidade, tem uma enorme varanda na entrada, ao lado do jardim, onde se pode tomar um vento e ver o entra e sai do pessoal.

Nosso guia é a versão indiana do Zé Trindade, lembra dele? E quando fala, faz uma crepitação de lábios muito engraçada. Pela manhã fomos a um templo cinematográfico: Swayambunath Stupa. Para os íntimos: TEMPLO DO MACACO. Enorme, ao ar livre. Muito colorido, várias divindades e todas as quinquilharias imagináveis à venda. Fica no alto, portanto uma vista muito bonita do vale de Kathmandu.

Dizem que aqui tem mais templos que habitantes. Para onde se vira, alguma referência a uma divindade. No Nepal, budistas e hinduístas convivem em harmonia.

Fomos ao centro da cidade. Deslumbrante! Agora estou no meio de uma daquelas aventuras do Indiana Jones, com direito a arquitetura oriental, personagens de todos os tipos, macacos correndo pra lá e pra cá, super-heróis, enfim, a fauna completa. E então, becos, pedintes, mulheres lavando roupas, plantando arroz, profetas com a pele pintada, falsários, pequenos templos hiper coloridos, com figuras que parecem verdadeiramente demoníacas, impactantes. O que é a estética…o que são os valores…

Saímos do ‘olho do furacão’ e seguimos a procura de THAMEL, um bairro mais ‘boêmio’, que nos haviam indicado. Will, bom farejador, descobriu um bar de esquina muito simpático, sentamos no terraço do primeiro andar e ficamos apreciando o desfile de tipos, a cidade borbulhando. Poucas cervejas depois, voltamos para a rua, e acompanhamos o entardecer mais feérico que você possa imaginar. Ruas estreitas, bicicletas, barulho, riquixás, poluição absoluta: sonora, visual, atmosférica. A poeira é palpável. Quem liga para isso quando está feliz? Naquela tarde o mundo inteiro estava nas ruas de Kathmandu. E eu queria mesmo era me integrar àquilo tudo e seguir o bloco.

Nos perdemos. Queríamos voltar para o hotel no outro lado mas não achávamos um táxi sequer. Ôba, finalmente um! Ele não conhecia o hotel (e eu nasci ontem?!) e chamou um amigo para tentar nos levar em um carro particular. Não aceitamos. Apareceu outro táxi. Desta vez o motorista não quis ligar o taxímetro, e saímos do carro abruptamente, antes que ele desse a partida. O terceiro, pouco interessado, disse que também não conhecia o hotel. De repente – SHIVA?! – apareceu ao nosso lado a perua do próprio hotel. Saltamos do carro e entramos incontinente na perua. Sãos e salvos. Tudo absolutamente veloz. Indiana Jones, não falei?!

Fomos jantar no restaurante de um hotel, cujo nome não consigo lembrar. Magnífico! Uma verdadeira ceia indiana. A gerente jantou conosco e foi explicando passo a passo os pratos que compunham a refeição, além das oferendas e de todo o ritual. Porte de Indhira Gandhi, sim senhor! Absolutamente adequada ao momento, à iluminação, à sonoplastia, e ao filme que rolava aqui dentro. Fecho os olhos e nos vejo sentados no chão, em torno da mesa, delicada música ao fundo e todos aqueles sabores ali, à disposição dos sentidos. Grande noite!

Na manhã seguinte fomos à BODHNAT, pequena cidade do vale. Ruelas e praças pitorescas. Rara limpeza. Em seguida, PASHUPATINATH, um complexo religioso, onde está o mais importante templo hinduísta do Nepal. Estavam acontecendo duas cremações, às margens do rio Bagmati. Fiquei extasiado. Ficamos. O cheiro é indescritível. As sensações, indizíveis. Vários sadhus vivem por ali, em cavernas, pequenas construções e um abrigo junto aos templos. Sadhus são ascetas , seguidores da yoga, meditação e práticas religiosas. Vestem-se com pouca ou quase nenhuma roupa. Tendas de flores e oferendas se espalham por todo o lugar. Verdadeiramente, uma comunidade mística, embora esta palavra seja insuficiente para expressar a realidade existencial deste povo.

Ao lado de Pashupatinath fica um asilo fundado por Madre Teresa de Clacutá, mas não fomos até lá. Emoção suficiente para o horário.

À tarde tive um pequeno mal estar. Fadiga, sensação de febre, coriza. O calor continuava monumental. Resfriei. Mergulhei na piscina do hotel como se fosse o próprio Ganges.

No dia seguinte embarcamos para VARANASI, Cidade da Luz e da Morte. Sobre esta cidade impressionante escrevi um outro post lá atrás (VARANASI/por aí…), você viu?

Daqui a pouco continuaremos viagem. Depois de Varanasi, ufa, chegamos a KHAJURAHO.

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ÍNDIA/por aí

NOVA DELHI é uma cidade espaçosa, arejada, arborizada, de avenidas largas. Pelo menos em alguns setores. Em algum momento me lembrou Buenos Aires. De passagem. O trânsito aqui parece um pouco mais articulado, a gente se sente menos à deriva; foi a impressão que tive. O que não quer dizer que também não haja o caos.

Estamos em uma das mais antigas cidades do planeta. Pela manhã saímos para um tour de carro. Belo dia de sol. Céu azul. Calor. Paramos em frente ao Palácio do Governo, seguimos até um mausoléu nas proximidades. Depois fomos ao RAJ GHAT, onde foi cremado o MAHATMA GANDHI. Ali está uma plataforma de mármore preto e uma pira eternamente acesa. É simples e bonito de ver. A primeira vez que li a respeito do Mahatma, eu era jovem e morava em Belém. SIDARTA me impactara mais, quando o conheci na adolescência, mas algum tempo depois tomei melhor entendimento da existência de Gandhi, e seu nome passou a ser sinônimo de sabedoria e pacificação. Quando penso nele, tudo é branco.

Nosso guia e motorista era, digamos, almofadinha. Atenção especial ao cabelo, sempre liso e penteado, sabe aquele que cobra lambeu? Ele, bastante comunicativo, nos informou que:

– O serviço militar não é obrigatório na Índia.

– Praticamente todas as mulheres se casam – ouviram, meninas? A vida de uma mulher solteira não é fácil neste país onde os homens têm a primazia.

– Existe divórcio, mas poucos se divorciam.

– Não se casam pessoas de religiões diferentes. Para evitar aquele ‘casa-separa-casa-separa’- do Irmão Carmelo; lembra do Jô?

– Até alguns anos atrás, no interior especialmente, os pais pobres abandonavam ou matavam suas filhas recém-nascidas porque não teriam condições de pagar o dote por ocasião do casamento lá à frente. Acredite.

– A lei impede que os homens se casem antes dos 20 anos, e mulheres antes dos 18.

– Há censura nas artes, mas ninguém se rebela. Há uma certa ‘compreensão’ por parte da população. O mercado de cinema é tão profícuo no país (quem não conhece BOLLYWOOD?) exatamente para evitar a penetração de costumes estrangeiros. Todos vão ao cinema. É a maior indústria cinematográfica do mundo, em vendas de bilhetes e número de filmes produzidos.

– Fitas do carnaval brasileiro circulam no ‘mercado paralelo’ e são bastante apreciadas pelos homens – psiu, em segredo.

– Existe, com freqüência, adultério sem sexo. Isso mesmo. Alguns homens têm namoradas para, literalmente, namorar, sem que o sexo esteja necessariamente envolvido.

– O homossexualismo é execrado.

Sabe o que fiz nesta tarde? Nada, nadinha. Fiquei no quarto do hotel, escrevendo um pouco, lendo, pensando na viagem, telefonando para o Brasil, organizando os pensamentos, revendo um filme em minha cabeça. Aquele que protagonizava ali. Pedi almoço no quarto. A refeição mais ‘ocidental’ até o momento: um caldo de frango em bolinhas, com legumes e, à parte, espaguete. Evidente que acompanhava um molho daqueles de fazer chorar um baiano, tamanha a pimenta.

Na manhã seguinte fomos à OLD DELHI. Outra coisa. Ruas estreitas e movimentadas por carros, tuc tuc (triciclos que funcionam como táxis) e riquishás. Além dos animais, é claro. E toda a gente. Muito comércio. Pedintes. Os cheiros, incenso, velas, curry e aqueles condimentos. Vez em quando, do nada, ainda consigo aspirá-los.

Tiramos os sapatos e entramos no JAMA MASHID, a maior mesquita do mundo, também conhecida como MESQUITA DA SEXTA-FEIRA. Data de 1656 e em seu pátio central pode receber até 25.000 devotos. Em uma sala do Portão Norte da mesquita está uma antiga cópia do Alcorão escrito em pele de alce. Estava movimentada, repleta de religiosos sozinhos ou em grupos. Tudo ali evoca respeito. Em seguida fomos ao RED FORT, igualmente colossal. Ambos os monumentos foram construídos a mando do Shaj Jahan, aquele que encomendou o Taj Mahal. Em um dos salões que compõem o Forte, o soberano mandou escrever: ‘SE EXISTE UM PARAÍSO NA TERRA, É ESTE’. Simples assim.

Na Índia, os homens andam muito em grupo. E são carinhosos entre si. Às vezes de mãos dadas, outras vezes se tocando enquanto conversam. O que, do lado de cá, acontece entre as meninas – deixa eu tirar este cisco do teu olho, me dá teu braço… – por lá rola entre os rapazes. Chega a ser engraçado. São costumes.

À tarde fui às compras, que ninguém é de ferro. Trouxe um elefante de pedras coloridas. Está aqui ao lado. A esta altura eu já estava completamente à vontade no país. E encantado com as pessoas. Eu brinco que cheguei à Índia numa vibe Michael Jackson, de luvas, máscaras e não-me-toques, tantas foram as histórias que escutei, ou li, antes de sair em viagem. Falava-se da falta de higiene, de saneamento, doenças, imprecações de todo o tipo. Vivi outra coisa. E se tivesse ficado mais uma semana por lá, tenha certeza, estaria mergulhando no Ganges e tomando os três goles de água para dar uma purificada…tamanho o relaxamento.

No final da tarde seguimos para o aeroporto. O vôo atrasou duas horas e meia, mas não havia pressa. Pegamos o avião para o NEPAL. Pouco mais de uma hora até KATHMANDU.

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ÍNDIA/por aí

Quando desembarcamos em MOMBAY era madrugada e, ainda na esteira das malas, o cheiro de desinfetante e creolina indicava que estávamos, realmente, em outro universo. Qualquer coisa ali me lembrou de imediato a minha infância no interior, filmes de guerra no Cine Muiraquitã, meus soldados de chumbo, os índios apache. Guardas uniformizados por toda parte. E os cheiros fortes.

Enquanto esperava o traslado para o hotel, ao ar livre, uma garota de uns 12 anos grudou em mim e, em uma mistura de idiomas indecifrável, me pedia dinheiro, comida, talvez um anel, o que quisesse oferecer.  Quando digo ‘grudou’ não uso força de expressão, sou literal. Cheguei meio tenso, agora estava desconfortável. Moro em um país onde, lamentavelmente, crianças na rua podem nos ameaçar, veja que terrível. Ainda não conhecia as dali. Dei umas moedas em reais, ela riu um pouco, admirou, correu para mostrar às outras. Pouco depois eu estava cercado por elas que, nada tolas, pediam rupias, não reais. Nenhum plano de viajar ao Brasil. Eram pobres mas não eras tontas. E tão doces.

No caminho até o hotel, no centro da cidade, as ruas eram um grande dormitório a céu aberto. As pessoas dormiam na calçada, encostadas nos carros, embaixo de viadutos, formando um grande e inimaginável tapete humano. Mesmo para quem não está chegando da Suíça, a cena impressiona.

Nosso tempo no hotel seria curto. Breve descanso, um banho rápido, talvez, um telefonema para casa. Chegávamos de Joanesburg, quase dez horas de voo. Entramos na boate do hotel por curiosidade, onde a música alta fazia dançar poucos indianos e muitos turistas. – Corta para um Night Club em Nova York, gente descontraída e loura, século XX, contemporaneidade.

Cansaço da viagem? Quem falou? Um drinque sem álcool, excitação e lá se foi o sono. Os primeiros comentários entre nós. Tomar um fôlego.

Poucas horas depois voltamos ao aeroporto e pegamos o avião para UDAIPUR. O dia amanheceu. Desembarcamos na pista, o céu azul, tentei fazer as primeiras fotos, um guarda me proibiu, peremptório. Guardar câmera!

Achei a cidade feia, disforme, arquitetura acéfala, uma daquelas cidades descuidadas do nordeste brasileiro. Maioria absoluta de homens nas ruas, e, as mulheres com sáris coloridos, os mais vibrantes de toda a Índia – fiquei sabendo depois – estes desta região, o RAJESTÃO.

Cortamos a cidade e chegamos à beira de um lago, no meio do qual estava o nosso hotel: Lake Palace. Bela visão! Um antigo castelo de marajá, onde aportamos de barco depois de uma rápida travessia. Suntuoso. A suíte era enorme, poderíamos viver ali por um tempo. Pouco depois, do restaurante do hotel, avistei algumas mulheres lavando roupa e tomando banho no lago de águas escuras, não muito longe dali. E os urubus.

Eu estava na ÍNDIA. Experimentei uma felicidade cálida. Não era alegria. Não havia acinte. Uma brisa, talvez.

Passamos o dia na rua, ainda a aclimatação. Estava tomando chegada. Visitei alguns hotéis que Will precisava conhecer. Quase todos antigos palácios de marajás, alguns cheirando a mofo, outros aristocráticos, sobe e desce escadas. Depois os lagos, parques, o City Palace, e a cidade cresceu.

No dia seguinte, cedo, seguimos de carro para JODHPUR.

O trânsito em toda a Índia é um capítulo à parte. Muito carro, poeira, animais, buzina, buzina, buzina. E a mão inglesa. Nesta viagem até Jodhpur só me assustei nos primeiros dez minutos porque, quando percebi que não havia mesmo o que fazer, entreguei pra Shiva e, salve-se quem puder!

O motorista era um indiano simplório, de poucas palavras. Lá fora, 45 graus. Paisagem árida. Paramos em um templo fantástico no complexo jainista de RANAKPUR. O Templo de Adinath é impressionante. São quatro frentes, cada uma delas com uma entrada principal que dá para uma enorme sequência de colunas e numerosos salões e capelas. Vários religiosos em oração, meditantes. Cheiro abrasivo de incenso, velas, vibrante energia. Não entendo bem essa palavra tão desgastada, mas ali era quase palpável. Um oásis. Além disso, uma maravilha arqueológica. Poucas vezes um ambiente religioso me foi tão impactante. Perto, fomos à casa de uma família de tecelãs, depois uma outra família que trabalhava reunida em torno de um poço dágua; que faziam mesmo? Já não lembro. Almoçamos em um restaurante bem simples e aprazível. – Corta para Tocantinópolis, interior de Goiás, onde, criança, a água coletada em uma bacia amassada, para lavar as mãos. A torneira de madeira gasta.

Seguimos viagem. Algum tempo depois, em um destes grandes restaurantes/mercados de beira de estrada, fiz meu primeiro negócio. A ordem por ali é pechinchar, propor, rebater, negociar. Não tenho a menor paciência para essa brincadeira e, infelizmente, nenhum talento. Gostei de um camelo de madeira, mas nada que me fizesse avançar do segundo lance, o vendedor todo interessado. Não chegamos a um acordo, OK, Namaste, fui fazer um lanche. Tinha dado por terminada a peleja quando, de volta ao carro, o vendedor me chamou e propôs outra negociação. Já desinteressado, não arredei pé da pechincha; ‘quem desdenha quer comprar’? Nem sempre.  Acabei ficando com o camelo por um preço próximo do que havia proposto. Resolvi elevá-lo a categoria de amuleto, quem sabe faria de mim um negociante esperto

Anos depois posso dizer que o camelo continua comigo, entretanto sua função tem sido meramente me lembrar um episódio pitoresco, e colorir a estante. Continuo incapaz de vender água no deserto.

Chegamos às cinco da tarde em JODHPUR. Ficamos em um Hotel moderno e clean: Taj Hari Mahal. Malas no quarto, fomos direto para a piscina, lembra do calor? Um maravilhoso céu de estrelas. Cerveja gelada. A primeira cerveja desde a chegada. 

Estou me sentindo bem à vontade.

Jantamos em um restaurante de um outro hotel, que tinha uma comida deliciosa, à base de legumes, cremes, frango, e especiarias. Além de uma localização privilegiada, um elevado no meio do jardim, onde uma dançarina acompanhava o ritmo de uma música suave, dois músicos ali. Iluminação silenciosa.  Uma noite cálida.

A esta altura eu já estava habituado aos temperos picantes e à pimenta que nos acompanhava desde os lautos cafés da manhã. O indiano que nos ciceroneava chegou de surpresa com as fotografias que eu havia deixado para revelar, e essa foi apenas uma das inúmeras manifestações de gentileza daquela gente, sobre a qual falarei adiante. Um brinde, então!

O programa da manhã seguinte não recomendo a você. Um safári; quem teve essa idéia? Saímos de jeep e começamos a circular por estradas de barro em meio a uma paisagem inóspita, causticante, pobre de horizontes e de animais. Mas não era um safári, cadê os bichos? Talvez tenha avistado uma vaca lá ao fundo, quem sabe um veado. Eles também a procura do que fazer.

Em seguida o guia nos levou a uma residência típica (pau a pique, paredes de barro) para a ‘cerimônia do chá’. A Cerimônia do Chá consiste em se tirar o sapato, sentar no chão de barro à volta dos anfitriões e experimentar o ópio que o guia misturou em água e nos serviu, a todos, em sequência, na palma de sua mão. Em pé, mulheres recostadas nas paredes, uma delas com uma chupeta na boca, não me pergunte porquê. Da Cerimônia, apenas os homens participam. Comecei a suar e não era o calor; lembrei de tudo o que me haviam dito no Brasil sobre o saneamento básico do país. Nada a fazer. Novamente entreguei à Shiva, que não me abra esse terceiro olho, ainda preciso chegar ao Taj Mahal. Mas, cá entre nós, o programa é dispensável. E, pior, nem deu barato!!!

À tarde fomos ao Forte, grandioso. A cidade recebeu a alcunha de CIDADE AZUL porque no centro velho quase todas as casas são pintadas dessa cor. Diz a lenda que o azul espanta mosquitos. A vista de cima do Forte para a cidade azul é fantástica.

Falei no post que escrevi sobre VARANASI, que na India tudo é MUITO. Muita gente, muita cor, poluição, riqueza, pobreza, beleza, a esta altura já havia me dado conta disso, mas o filme dentro do qual me encontrava ainda não ia sequer pela metade.

Nesta mesma noite pegamos o avião para NOVA DELHI. Não tão rápido assim. Nos aeroportos a segurança é de guerra. Muitas revistas. Entramos no avião e ali permanecemos um bom tempo em terra, suando bicas. Mandaram-nos descer. Voltamos para a sala de espera, onde serviram sanduíches, doce de leite e refrigerantes. Depois de umas duas horas voltamos ao avião. Novas revistas. Necessário enfatizar a cortesia com que o fazem. Nada agressivo. Então, a bordo. De repente apagaram os motores e as luzes. De novo. Achei que anunciariam a Terceira Guerra Mundial. Nem tanto, Mestre, nem tanto.

Acenderam as luzes, ligaram novamente os motores, os comissários checaram os itens de praxe e decolamos de volta à JADPUR, apenas escala rumo a DELHI, onde chegamos em torno da meia-noite.

NOVA DELHI, a capital do país.

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