Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘textos TERRACOTA’ Category

Mário Quintana finalizou, todo manso e ainda doce: ‘e nunca me perguntes o assunto de um poema; um poema sempre fala de outra coisa’.

É para essa outra coisa que me volto. É unicamente para trazê-la à luz que escrevo. Se não à exuberância da luz, às nuances da luz e seus contrastes. Atraem-me os porões, os cantos, as dobradiças e as sombras, fosse um menino curioso e assustado desmontando rádios e insetos. Não para denunciá-los, apontar o dedo, atirar a pedra nos porões escondidos, ou devassá-los; antes, acender um fósforo tentando aproximação; quem sabe em sustos, assim, vergado e atento, posto em sentidos. O que é humano me concerne, e me concedo a escrita, com permissividade; aqui os lápis e o papel. E o desejo. Seria inútil escrever não houvesse em mim alguma humanidade selvagem. E o permissivo desejo.

Gilberto Gil não esconde: ‘uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’ pode estar querendo dizer o incontível’. Eis a subversão convocando; e eu andava de calça curta e estilingue na mão caçando passarinho no meio do mato, fazia domingo, mormaço, e estava só.

Eu me perderia fatalmente.

Mas, então, é que a vejo passar, me estendendo a mão, longo galho de um cajueiro azul na floresta. Sorrio e estendo igualmente a mão. Clarice, muito menina e toda tenra, num vestido claro de uma chita gasta; os pés descalços. Ela me diz, sem destempero ou eloquência, como quem rema canoa no lago: ‘escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu’.

E, me puxando, agora com firmeza, mantendo nossas mãos enlaçadas, ela nos faz afundar os pés na poça d´água à frente e, depois, trotando muito livre, alegre e grave, me deixa ouvir, seus cabelos assanhados, um fio de cada cor: ‘o que salva então é escrever distraidamente’.

Então escrevi, sem parar de correr no meio da quinta: lamparina.

E assoprei a flama.

Anúncios

Read Full Post »

epifanias

Fui convidado para escrever um texto mensal no site da editora Terracota. `As segundas quartas-feiras de cada mês estarei lá. Comecei com este aqui:

 

Escrevi em meu livro O Rio Que Corre Estrelas: ‘Mundico quem fez o barco com troncos de buriti. Na fazenda tem muitos riachos. Escolhemos o mais caudaloso e amanhã cedinho vamos sair em expedição…levar mantimentos, rever o mapa, lustrar a bússola. Antes, vou tirar as roupas do chão, engraxar os sapatos, regar a onze-horas que vovó me deu, arrumar o quarto e lavar as mãos; quero estar asseado pra viagem’.

Lendo Sidartha, do Herman Hesse, ali pelos quatorze, quinze anos, a uma certa altura fechei o livro e olhei ao derredor do quarto. Havia roupas no chão e meias escapulindo dos tênis, a fronha a léguas do travesseiro. Tomei um susto, posto que agora via. Levantei da cama e, em silêncio, alinhei alguns livros na estante e quatro telas na parede, esvaziei a gaveta; as roupas e as meias botei pra lavar, puli a bicicleta. Resolvi que para continuar a leitura e seguir os passos do narrador deveria estar asseado, e intuí (hoje chamo assim) que aquele quarto era o umbigo do meu corpo; não desceria aos pés nem subiria `a cabeça sem passar por ele. Senti-me em movimento, ensolarado, convocado `a vida. Passei a escovar os dentes após as refeições. Alonguei a coluna, estiquei o pescoço, experimentei os legumes.

Mais tarde, quando cruzei com o Pessoa pela primeira vez, estava no alpendre do apartamento em Belém, era O Eu Profundo e os Outros Eus, e ele tremulou feito britadeira perfurando cimento. Respondi de corpo inteiro, tanto vibrei. ‘Para onde vai minha vida e quem a leva? por quê eu faço sempre o que não queria? que destino contínuo se passa em mim, na treva? que parte de mim que eu desconheço é que me guia?’

Foi a segunda vez que constatei: estou existindo, estou existindo! A primeira foi quando engoli a piaba, por sugestão de Esperança, e danei a bater braços e pernas dentro da água doce do rio Tocantins, aprendendo a nadar; era menino.

E só para usufruir tais epifanias valeria a vida. A arte tem essa generosidade: nos apresenta a nós mesmos e, de quebra, nos credencia a existir, membros da mesma tribo, furos do mesmo queijo. Assim, podemos ludibriar – no tempo em que viceja essa centelha – a profunda solidão de ser únicos e aprisionados pelas digitais. As mesmas digitais que, nos fazendo únicos, configuram o grande milagre da existência.

Talvez unicamente a arte verdadeira equalize a ansiedade humana de sendo único querer ser igual a todos, e sendo tribo aspirar a diferença, a individualidade.

Eu aqui. Jamais houve nem haverá outro assim. Para minha glória e desespero. Hesse, Pessoa, Clarice, Chico, Lygia, Marcel, Tom, Machado, Bethânia, Van Gogh, Virgínia………. e sua arte reveladora são água e ponte desse rio.

Read Full Post »