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Archive for the ‘Rio que Corre Estrelas’ Category

ágape

Vi-me diante da hóstia. Estanquei, açoitado pela túnica bordada do monsenhor e pela lua branquinha em sua mão.  Um relâmpago dourado varou-me os olhos, raios do sol refletidos no cálice de ouro bojudo e repleto das rodinhas brancas; quisera um ninho de passarinhos abarrotado de ovos no galho do limoeiro, eu todo livre. Duvidei da limpeza de minha boca, essa língua, humana língua, a mãe prometeu queimar com um ovo quente se dissesse o palavrão, e insistiu em me vestir de marinheiro no sete de setembro, eu praguejando, a unha do mindinho suja, uma cárie escondida no panelão lá de trás, o irmão chorando uma lagoa funda quando estourei o balão, um ponto desfeito na barra da bermuda branca de linho, essa aqui, que puxei com o dedo, o pião que surrupiei, e o interesse, o olho que fuça, a mão que procura, a carne que pede, o desejo todo. O Deus me flagrou; bem me avisaram havia mil olhos e braços de polvo, caí na rede feito as jatuaranas que papai pescou no rio quando fez lua cheia, a noite esteve clara e havia calma.

O Deus me alcançou, as grossas presas. Foi pelas pernas que subiu a tremulação, o mundo desembestou num galope, me afoguei nos incensos mal respirados e procurei o sacerdote para que jogasse bóia em vez do corpo sagrado e lunar, ele sorriu dentes amarelos, ali uma mancha de fumo, baixei os olhos, e novamente o sonho repleto de perseguições, tempestades, violações e caldeirões enormes onde se esquentam azeite para me imolar, o porto do lúcifer. E feito girasse um caleidoscópio vejo passar alcatifas coloridas, velas brancas e castiçais em prata gasta, selas de montaria, grilos, centelhas e lamparinas piscando luz em um salão onde dormitam anjos sem asas, lampiões abandonados, uma cartilha rabiscada e esquecida, caixinha de música quebrada, lápis de ponta grossa, sonhos de valsa, soldados de chumbo e índios apaches que, despertados e libertos, me fazem a corte, dançam para mim.

No monsenhor tudo é claridade, brancura excelsa, só eu vejo lá por dentro o que é que faz, e são borbulhas trepidantes e feéricas. Ele é vermelho-sangue, não me enxerga e nem desiste. Quando percebi que insistiria, estendi a língua, cravei a unha do indicador na palma da outra mão e comecei a mover sofregamente os dedos dos pés no vulcabrás engraxado. Abri os olhos, franzi o nariz e danei a rezar selvagemente, com voracidade, pedindo, explicando, agradecendo, prometendo, negando, mentindo, jurando, justificando. E no oco daquele breu inabitável, no exato momento em que começaram a entoar o cântico no acordeom e dobraram pesados sinos no campanário, emergiu um céu azul repleto de carneiros brancos e, de repente, sou uma bandeira flanando ao vento, no mais alto de um imenso mastro, degustando o trigo, assanhando os sonhos e lambendo, a língua sangue e carne, nuvens doces de algodão.

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beijo

Minha mãe vai me dar um beijo e é necessário que tudo se cale, tudo se acalme e encontre o seu curso natural porque minha mãe vai me dar um beijo. Vou me vestir de marinheiro, botar a borboleta no pescoço ou rasgar o jeans, furar a orelha, tatuar a nuca, porque é necessário personalizar este momento. Meu rosto está aqui, minha boca aqui, e as mãos. Lá vem minha mãe estendendo-me os braços, eu não sei quem é que me arranca destes braços e mantendo o xote que toca no terreiro me dá um beijo descontraído na face rubra me puxando com entusiasmo para o meio do salão. Estreito no peito este vulto imprevisto; nossa sombra dança nas paredes e no telhado multiplicada em mil figuras rabiscadas pelo vento que assopra a lamparina, e nossas pernas se tornam traços de giz no chão batido.

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Lembro-me de Déia. A mesma infância, cabelo gruli, bunda dura, sorriso farto.  Fiz vestibular, e antes de receber o resultado, chegando em casa, eu, um novo rapaz, encontrei minha Déia com os cabelos raspados, a cara na janela, sorrindo para os meus planos e me dizendo: – doutor, doutor, doutor. Antes de me ver doutor eu vi sua cara afoita. Seus lábios grossos de preta tenra que imaginei trancar em minha boca, entrar para ali e não sair nunca mais. Assim o fiz. Agora que já me sabia vencedor, gostaria que ficassem todos comentando este assunto lá fora, no terraço, no alpendre, entre canapés e bebidinhas, enquanto eu permanecia dentro daquele mundo roxo e preto, a léguas do que havia conquistado. Na delicadeza dos seus lábios, naquela sofreguidão de línguas, eu lhe esclarecia o que que vem a ser a alimentação das células, as mitocôndrias, os ribossomas, DNA, o conhecimento que me levou àquela conquista. Não sairia nunca daquela boca. Não usufruiria jamais o resultado da minha vitória. Ficaria ali dentro, eternamente, como um dia havia ficado em comunhão com sua mão, seu olho bola de gude e seus dedos finos que se movimentavam com a delicadeza e a espontaneidade  de quem não sabe o que está fazendo.

Lembro-me de Déia.

 

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Amanhã será o dia de coroar Nossa Senhora. Não consigo me lembrar da noite de ontem, mas é quase certo que estive em pecado. Agora quero saber onde está minha roupa clara, o manto azul, as asas de penas brancas que deixei embaixo da cama. Comigo, a lembrança do hino que iremos cantar de manhã e que ensaiei a semana inteira em silêncio. A noite passada é um emaranhado de fragmentos que pretendo esquecer. São lembranças vagas. Soprava o vento. Lua minguante, vagalumes e estrelas . Com o estilingue acertei o morcego que gritou no escuro, joguei pedra na lua e desalinhei as formigas, espalhando as folhas secas. Fiz correr um gato e assustei as galinhas. Joguei dois ovos na parede. Vou dormir. Atravessarei esta noite. Amanhã haverá a coroação. O pai nosso que está no céu me fará acreditar que haverá amanhã. Haverá os anjos, a festa, Nossa Senhora me espera com braços estendidos, em cima da nuvem de vidro, o coração em chamas. Haverá a oferenda e a promessa. A penitência e a liberdade. Haverá eu.

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Vão-se os carneirinhos. Passam os carneirinhos e nem adianta perguntar de onde vieram, o que atravessaram, que pais tiveram, se tiveram avós, se pátria tiveram, se queriam ir ou preferiam ficar. Vão-se os carneirinhos, é preciso ir, enfrentar o escuro, domar as ausências e ouvir as estrelas. Esta noite não chove, o tempo é seco, e a lua no céu está cheia de novelos de lã.

Meu pai, para me fazer dormir, me conta a história dos carneirinhos que cruzam a noite. Indo, rompem a mata cerrada, atravessam riachos, saltam abismos, e cruzam a mulher que leva a lamparina na cabeça, toda penada; adiante, os caçadores de carneiros. Arrepio. Eles estacam e esperam. Comem capim e as mangas. Depois vão em frente, a sina de andar eternamente, manter a flama da vida para que eu possa dormir. Não têm desejos nem assombros, por saber a que vieram, e fazem soprar uma aragem que movimenta lentamente a cortina do quarto e desperta um fantasma que macaqueia pra mim.

Os carneirinhos vão, continua dizendo meu pai, a voz agora cada vez mais longe, sumindo na bruma do pasto lá fora. Desisto de entender de onde vêm estes bichos, para onde vão, alinho-me ao lado deles, fecho os olhos sossegado, e entendo que não se deve interromper o percurso destes animais. Silêncio.

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Minha avó foi desde sempre uma mulher gorda. O que chamo de sempre refere-se aquele ‘desde sempre’ da infância, um passado tão curto. Não se falava em obesidade nesta época, como também não se falava em depressão, esta palavra macerada nestes tempos em que vivo e de onde volto os olhos para trás.

A vó era uma mulher de rosto delicado, lábios finos, nariz retilíneo, como já havia visto em minha mãe – sua filha – e em meu irmão. Eu a via, assim, redonda, em um tempo onde não tinha nenhuma observação a fazer sobre forma, moda, hormônios, e estas descobertas que com o passar dos anos vêm a nos ocupar a vida. Grande, ampla, cheia de respeito. Esta a imagem, até o dia em que chegamos à sua casa em outra cidade para testemunhar a morte.

Miúda, indefesa e frágil, ali estava a minha avó. Aquele quarto, até há pouco cidadela, agigantou-se, perdeu contornos e abrigos, e a janela por onde eu tinha visto certa vez uma lua crescente, estava fechada. Sem gente respirando livremente, arejando paredes, tetos e assoalhos, não há o que chamar de vida. Assim, o quarto agigantou-se para desabrigar minha avó. Penso que ela precisava apenas de algo tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno… como um berço.

Viúva, ela. E vestia-se de marinho ou de cinza e seus matizes. Ocupava sua cama de casal na casa de meu tio onde morava, porque assim se mantinha a hierarquia. O leito que suponho pouco usado para o prazer, mas para o descanso, a vigília e o controle. Quem não acha graça em distrações, vigia. De preferência recostada em uma cama de casal. O olhar adiante.

Quando chegamos, já estavam todos no quarto, sentados ao redor. Haviam disposto cadeiras em torno das paredes como se esperassem dança. Dois filhos, três filhas, um adotado, um deputado de passagem, dois compadres. Três dias inteiros para testemunhar como é que tudo se acaba.

Ao entrarmos no quarto, ninguém se levantou para nos receber. Estivéramos sempre ali, naquelas cadeiras. Na parede, o grande relógio marcando o tempo. E avisando. Tic Tac.

Foi quando minha tia Belé, o terço na mão, abraçou com força e raiva minha mãe. E se tornaram cúmplices de uma falta que, embora atávica, parecia nova e pessoal. Como se algum dia tivesse sido suprida ou, em algum momento, tivessem compartilhado o mesmo gosto pela dança, pelas viagens, a música e as plantas, ou a curiosidade pelos homens. Ou, ainda, tivessem se ressentido desta falta, entrelaçado as mãos e se aquecido mutuamente em silêncio. É que suas vidas tão disparatadas entre si pareciam desaguar, neste momento, em um mesmo rio que acolhe afluentes. E tudo se impactava e resplandecia naquela confusão. Uma confusão que, não para elas, mas para alguém poderia ter alguma serventia porque recendia a amor. À moda das sagas e dos romances. E depois, só se perde a mãe uma vez. É necessário encontrar a emoção precisa, o gesto adequado, evitar os excessos e a apatia, concentrar-se no foco, porque não haverá outra oportunidade.

Os vizinhos olhavam aquilo curiosos e compassivos. Nossa família permanecia fechada em si, os dedos à volta do nariz, fungando o nariz, vez em quando. Outras vezes procurando os óculos escuros, bem vindos os ares da modernidade. O cinema.

Estávamos sentados nas cadeiras. Em torno. Entre uma ida ao banheiro, outra à cozinha para comer qualquer coisa e um pulo até a calçada para respirar, se passaram dois dias. Poucas palavras e olhares porque qualquer atitude exagerada poderia macular aquele momento onde a vida deveria ser mantida em sursis, pequenos os gestos. Necessário que todos estivéssemos morrendo um pouco, para que nada se assemelhasse a abandono, egoísmo, descaso ou desrespeito. Os códigos.

Assim, deixamo-nos morrer por dois dias inteiros.

Mas, na segunda madrugada, meu pai chegou. Chegou, vindo da noite, da estrada escura, dos compromissos de trabalho. Às duas horas da manhã papai entrou naquele quarto, grave e sereno. Olhou para ela antes de nos procurar. Os olhos de minha avó que não se cabiam nas órbitas, por segundos se fixaram nele. Ela sempre olhava de baixo para cima, mas ali, foi direto ao ponto, a menina do olho. Meu pai, sem a ninguém cumprimentar, sentou-se na cama, retirou debaixo das cobertas suas mãos, constatou-as, e só então olhou para quem estava próximo do seu alcance de visão. Era Esperança, a empregada que viera com a gente.

Ali ficou durante um tempo que já não sei referir, passou a mão no rosto da vó, deslizou-a em sua pele gasta, levantou-se e sentou na cadeira que meu tio havia trazido para ele. Não olhou para ninguém, não nos procurou, não queria saber sobre nós. E em poucos minutos, quase por delicadeza, minha avó compreendeu, aceitou e se foi. As pessoas levantaram-se atordoadas, o desespero. Cada um com sua morte, seus amores e medos. Diante do grande espelho. Exceto meu pai que continuava sentado. Olhei de soslaio, cheguei a vê-lo. Orgulhoso dele em seu substantivo. Procurei Esperança com um olho só, ela toda redonda. Corri para aquela barriga cheirando a sabão, que me acolheu, pastora.

Então, com suas mãos aninhava meu rosto, transmutava minhas primeiras lágrimas em um rio por onde correm estrelas, me despia dos medos, abria a janela, assoprava na orelha e me tirava dali.

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“O balão vai subindo, vai caindo a garoa. O céu é tão lindo, a noite é tão boa. São João, acende a fogueira no meu coração”

 Minha rua escura e deserta parece abraçar as fogueiras que esta noite se enfileiram por seu corpo magro, como se naquelas moradas se passasse frio. Eu e os outros meninos, com fósforos acesos, acordamos os vulcões que vomitam lavas coloridas. Os vulcões emergem todos das passagens e sopram muito alto e forte, despertando as corujas. Jogamos traques no chão estalando as calçadas, e desenhamos nuvens. Com o lápis preto assentamos o bigode que queremos ter. Construímos balões, discriminando com desvelo as cores, para que haja festa no céu. Rasgamos calças e camisas, remendamos outras, recortamos papéis e construímos bandeirinhas coloridas porque nossa alma, ainda mais que o olho, anseia por beleza.

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