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Archive for the ‘Reflexões’ Category

novelo

Não sei se acho divertido ou patético quando ouço: criança é assim, criança é assado, criança é cozido. Como se adultos fossem interplanetários ou de outra natureza, e as observassem por um telescópio distante. Como se o fio da lã, longo ou miúdo, não fizesse parte do mesmo novelo.

No que me diz respeito, quero mais é me movimentar para frente, para trás, e não perceber grande estranhamento ao voltar a cabeça para um lado ou outro.

Quero mesmo é que, de mamando a caducando, jamais deixe de me reconhecer nesta  espécie – fio da trama.

Viver talvez seja unicamente uma precipitação da eternidade. E a eternidade desconhece infâncias, inocências, juventudes, maturidades…

O tempo é este.

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eternidade

Talvez a vida seja unicamente uma breve precipitação da eternidade.

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Me pergunta um valor e eu te digo: coragem. Talvez a maior qualidade. A coragem não exclui o medo, ao contrário, procede dele e o encara no olho. Algumas vezes reconheço: sim, é coragem. Boa parte do tempo, porém, não distingo atos de coragem de gestos inconsequentes. É difícil distinguir intenções, discriminar atitudes, e eu me distraio. Tantas vezes fico mais atento à coxia do que ao que se apresenta no palco. Quantas falas admiráveis que só sobrevivem à luz adequada, ao cenário preciso, à agilidade de um contra-regra habilidoso; textos fluentes encobrindo intenções desprezíveis.

Da mesma forma, não acho fácil diferenciar intuição das neuroses cotidianas; estou intuindo, ou enlouquecendo?! ‘Siga a sua intuição’ é a frase fatigada. E há tanta gente intuindo, intuindo, intuindo…e apontando o dedo…’bem que eu senti!’

Já sei: há outro conhecimento correndo em paralelo, linhas de lápis ligando os pontos pretos pra formar o desenho. Metafísica, não é? Magia, chacras, terceiro olho, almas gêmeas, pelos eriçados, coisas assim. Eu estanco. Quando alguém me toca de determinada maneira, antes de sentir o que isso me provoca nos pelos e na pele, evocam-me meus próprios códigos e o que eles apresentam. E então duvido do arrepio. Como nunca conheci o amor à primeira vista, e por ter conhecimento da vulgaridade dos sentidos, mesmo quando me emocionei a um primeiro encontro jamais fui além do arremedo de mágica. Se, insistente, sigo atrás do surreal, a vida real me encontra na esquina em luvas de boxe.

Trata-se de luta perdida. Ainda assim, sigo contente, posso dizer. Alegre e insistente – condição indispensável ao contentamento. Por temperamento, destino, configuração astrológica, o leite da mãe, a alienação do espírito, um motivo qualquer. Isto dito à meia voz, porque se falo alto, faz-se a rebelião, ouvidos ouvem. E, daqui, alevantam-se gigantes, fantasmas e espectros. Espantalhos à minha caça para revelar a mentira e abater o galho onde me encontro, e, na queda, me apresentar a mim mesmo, exigindo que me identifique com alguém de quem ignoro, se não gestos, intenções e interiores.

Para me proteger, fechar as cortinas e buscar lá fora algum sol é que digo simplesmente ôi! e sigo em frente, a passos largos, assoviando singela modinha, como se apenas batesse o pó e limpasse as lentes dos óculos na barra da calça.

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Olha que interessante esse comentário da Clarice Lispector:

VOCAÇÃO é diferente de TALENTO. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir. Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar.

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Há poucos dias conversava com Renata a respeito da beleza estética. Tínhamos em comum a certeza que beleza é bem mais do que um nariz afilado, olhos amendoados ou boca bem desenhada. Algumas pessoas constroem sua própria beleza, artífices desta obra, e a manifestam com um pequeno gesto, uma maneira de emitir as palavras, o modo de passar uma xícara, um olhar especialmente expressivo.

O contrário também existe. Quantas pessoas de traços esteticamente adequados são incapazes de colorir minimamente esta tela e, à falta de alma, deixam de revelar quaisquer tons, matizes ou surpresas. A beleza é surpreendente. É de sua natureza esta exaltação dos sentidos, e uma certa febre passageira. Conhecemos pessoas que efetivamente ‘se embelezam’, tamanha sua capacidade de expressão. Não acredito em beleza sem expressividade. Sem alma. E não me refiro à subversão do conceito, como se tomasse o feio por bonito ou fizesse um levante antiestético. Nada disso. Quem já esteve diante da beleza, aquela, sabe a que me refiro.

Olha ali um pássaro em pleno voo. De branca plumagem. Beleza. Ela sorri com lábios e olhos. Beleza. Ele está confortável sobre suas pernas. E avança. Beleza.

Diga-se de passagem que vivemos uma época onde o belo passou a ser feito de borracha. Em série. O artificialismo impera, a cegueira é epidêmica, e estivesse aqui o garoto daquela fábula antiga, levantaria a voz e diria no salão: O Rei Está Nu! – Sairia muita gente correndo à procura dos lençóis, o castelo ruiu.

Coincidentemente (coincidências?!) abro um livro e me deparo com duas assertivas que, a meu ver, esclarecem em definitivo a questão:  

A singularidade é um ingrediente necessário na beleza.’ Baudelaire

‘Vamos deixar as mulheres obviamente bonitas para os homens sem imaginação.’ Proust

Não é necessário dizer mais nada, concorda?

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CONTO

– Fui me confessar ao mar
– E o que ele disse?
– Nada…

Lygia Fagundes Telles

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