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Archive for the ‘Proust’ Category

proust

Depois de alguns meses sem estar com ele, retornei, e olha as coisas que reencontro:

‘Todo o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que, sendo a imagem o único elemento essencial na estrutura de nossas emoções, a simplificação que consistisse em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, percebemo-lo em grande parte por meio de nossos sentidos, isto é, continua opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não pode levantar. Se lhe sucede uma desgraça, esta só nos pode comover em uma pequena parte da noção total que temos dele, e ainda mais, só em uma pequena parte da noção total que ele tem de si mesmo é que sua própria desgraça o poderá comover. O achado do romancista consistiu na ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isso é, que nossa alma pode assimilar.  Desde esse momento, já não importa que as ações e emoções  desses indivíduos de uma nova espécie nos apareçam como verdadeiras, visto que as fizemos nossas, que é em nós que elas se realizam e mantém sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas, o ritmo de nossa respiração e a intensidade de nosso olhar’. 

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proust

Talvez você se lembre que no início deste blog, há mais de dois anos e meio, postei algumas impressões a respeito d´A Procura do Tempo Perdido, que estava começando a ler. Pois bem: não o abandonei desde então. Pra frente e pra trás, como um flaneur sem compromisso. Evidente que nessa viagem estou sempre com algum outro livro por perto e intercalo ou sobreponho as leituras, sem jamais abandonar o fiacre do narrador proustiano; não conseguiria. Viciei; é isso, viciei.

Comecei, segunda passada, um breve curso sobre a ‘obra’, com o Pedro Paulo de Sena Madureira. Tem sido muito interessante. Proust e seu universo são envolventes, e encontram em Pedro Paulo um ‘narrador’ de primeira. Bem informado, experiente, e com incrível expressividade, ele tem aflorado filigranas que poderiam passar despercebidas a um olhar menos atento à viagem.  Suas aulas têm sido uma passagem pelos ‘salões’ onde transcorre boa parte da narrativa – com direito a tinto e tudo, bien sür.

Quanto ao Marcel, propriamente, acho que ainda temos muita estrada pela frente.

‘Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade’

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proust

Quando duas pessoas rompem, é aquela que não ama quem diz as frases mas doces.

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Depois de uma semana onde não estive no meu melhor, mas não me afastei da companhia dele, cheguei, há pouco, a esta página que transcrevo aqui. Outra bela maneira de demonstrar o poder vivificante e revolucionário da ARTE:

“Dizem-nos hoje as pessoas de bom gosto que Renoir é um grande pintor do século XIX. Mas ao dizer isso esquecem o Tempo e que foi preciso muito, mesmo em pleno século XIX, para que Renoir fosse considerado grande artista. Para chegarem a ser assim reconhecidos, o pintor original, o artista original procedeu à maneira dos oculistas. O tratamento pela sua pintura, pela sua prosa, nem sempre é agradável. Findo o tratamento, o clínico nos diz: ‘Agora olhe’. E eis que o mundo (que não foi criado uma só vez, mas tantas vezes quantas surgiu um artista original) nos aparece inteiramente diverso do antigo, mas perfeitamente claro.
Mulheres passam na rua, diferentes das de outrora, pois são Renoir, esses Renoir em que antigamente nos recusávamos a ver mulheres. Os carros também são Renoir, e a água, e o céu: temos desejos de passear pela floresta igual àquela que no primeiro dia nos parecia tudo, menos uma floresta, como por exemplo uma tapeçaria de variados matizes, à qual no entanto faltavam justamente os matizes próprios de uma floresta. Tal é o universo novo e efêmero que acaba de ser criado. Durará até a próxima catástrofe geológica que desencadearão um novo pintor ou um novo escritor originais”.

Me diga, então: Este Marcel é ou não é um excelente companheiro de jornada?!

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Passei boa parte do domingo tranquilo e cinza às voltas com Proust, depois de um período de afastamento, onde circulei por aí, tanto aonde ir com os livros…  A ambientação é importante para esta leitura, e a natureza esteve pontual. Um agradável (re)encontro.

Selecionei para você este trecho onde ele descreve seu estado de espírito, todo paixão por Albertine:

‘Mesmo que a morte me devesse ferir naquele instante, isso me pareceria indiferente, ou antes impossível, pois a vida não estava fora de mim, estava em mim; eu sorriria de piedade se um filósofo tivesse emitido a idéia de que um dia, mesmo afastado, eu teria de morrer, que as forças eternas da natureza sobreviveriam a mim, as forças dessa natureza sob cujos pés divinos eu não passava de um grão de poeira; que, depois de mim, ainda haveria aquelas rochas arredondadas e cheias, aquele luar, aquele mar, aquele céu! Como seria isso possível, como poderia o mundo durar mais do que eu, já que eu não estava perdido nele, ele é que estava contido em mim, em mim que ele estava muito longe de encher, em mim, onde, sentindo lugar para acumular tantos outros tesouros, eu lançava desdenhosamente, para um canto, céu, mar e rochedos’

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SONHAR, SONHAMOS

Quando um espírito é inclinado ao sonho, não devemos mantê-lo afastado deste, não lhe devemos racionar. Enquanto o senhor desviar o espírito de seus sonhos, ele não os conhecerá, e será o senhor o joguete de mil aparências, porque não compreendeu a sua natureza. Se um pouco de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer inteiramente os nossos sonhos para não mais sofrer com eles: há uma separação da vida e do sonho tão útil de fazer que me pergunto se não deveria ser praticada preventivamente, assim como pretendem certos cirurgiões que se extirpe o apêndice em todas as crianças, para evitar a possibilidade de uma futura apendicite.

A Sombra Das Raparigas Em Flor. Marcel Proust.

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