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Archive for the ‘prosa poética’ Category

prisma

Falo de mim, a dor está passando. Já posso descansar a mão sobre o peito e, no calor, derreter as duas pedras do gelo – este peito quente, o sorriso pálido, aquela máscara que se esfacela. É imperativo que se quebre porque me percebo no salão de baile onde já não há música, e estamos asfixiados. A orquestra se retirou sem que eu percebesse, e o que vejo são homens e mulheres debruçados sobre mesas, a baba escorrendo pelo canto da boca, inchaço nos olhos e, no pescoço, colares de serpentinas já amorfos, apenas tiras coloridas de papel barato.

Lá fora, entretanto, amanhece um sol amarelo se insinuando pelas frestas da janela e, tingindo paredes, peles e assoalhos, faz erguer do chão e flutuar entre nós um fulgurante prisma de cristal.

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beleza

Olhava encartes de LPs antigos, e brinquedos. Semana passada, umas cambraias guardadas na arca de couro e  xícaras de beiço fino. A camisola bordada a mão pela avó, que a irmã vestiu no batizado, uma fotografia da árvore de natal com bolas, sinos, aladins e lâmpadas translúcidas, naquele material que, caído, estilhaçava no chão.

Não há dúvida: viver ficou mais concreto, mas a beleza perdeu filigranas.

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o fio

As Parcas são três deusas chamadas de Moiras, cujos nomes são Clotó, a que fia, Láquesis, a que determina o comprimento do fio, e Átropos, a que corta o fio da vida.

A vida é meramente uma precipitação (um calefrio, hipertermia) da eternidade. Relâmpago riscado a giz por mão assustadoramente veloz.

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sereia

Inquietação muita gente tem; transformar inquietação em ouro são outros foguetes. Você tem o canto da sereia, e esta é sua glória e miséria. Sem o canto não há festa; sucumbindo ao canto não há jogo. Sugiro que o faça vibrar, mas não se detenha para ouvir. Vá em frente, sempre em frente, até que se torne música suave e não o impeça de escutar sua própria palpitação; esta, sim, matriz das palavras fecundas.

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Ocorrem-me tendas, lonas, picadeiros, e eis, na sala de casa, o circo de minha infância aspergindo a esperança azul.

Às vezes toco nela com a ponta dos dedos e novamente jogo para o alto, soprando, soprando.

É bumerangue a esperança azul.

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outono

O outono chegou com seus pinceis e a luz.

Agora a iluminação será de baixo pra cima, detalhes, veremos o tom e as matizes, sem omissão ou exagero. O sol civilizado, a temperatura sem os excessos que gelam as mãos ou fazem suar. Aqui temos um jovem senhor longilíneo e asseado; barba feita, unhas aparadas, o banho tomado.

Passado o verão, paixão vermelha, hora de usufruir esta serenidade fúcsia. Não há histeria no outono, as vibrações porta dentro. O verde fulgurante unicamente dentro da folha, e o vermelho abrasivo apenas no interior da veia.  Eles explodirão na primavera, mas, por enquanto, tecerão internamente.

O outono é uma garota vestindo um short de losangos alaranjados e camiseta branca; os cabelos lisos vão em rabo de cavalo, e ela trota. Ou caminha, depois da ducha, assoprando bolas de sabão, provocando uma beleza que não esbarra pra observar. Mistura-se às bolas, transmutam-se e passam a flutuar levemente coloridas até desaparecer pelo oco dos cânions, dos abismos, as esquinas.

Pode gear por aí; uns nevoeiros, talvez. Nada grave. É que quando espreguiça, o outono bolina o inverno adiante, fosse um arauto seu. Faz o mesmo com o verão, quando espreguiça pra trás, e então os dias quentes.

Daqui a pouco folhas secas no chão. Na rua onde moro haverá dias de tapete nas calçadas.  Gosto do atrito crocante das folhas sob os pés e sob as patas do Bento, que vai comigo.

Os dias e as noites terão a mesma duração; eu penso nisso.

O outono, fosse lâmina do meu tarô:  TEMPERANÇA.

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cru

O meu amor é cru. Meu amor é feito do que não foi usado das compras excessivas para as férias de verão. Ele deseja te aquecer com a lenha cortada para o fogo que você se negou a usufruir. É ele o que apaga incêndios destes gestos perdulários, trocando lâmpadas queimadas. Este amor tira água do poço e bebe da moringa numa doçura funda. Desconhece vendavais e gestos exagerados, adjetivos e exclamações fraudulentas; e quando chora, fertiliza a terra.

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