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Archive for the ‘pequeno cotidiano’ Category

Cedinho, caminhando com Bento.

Os dois conversam à nossa frente, sem alterar o tom de voz:

‘Cara, permita que te diga: Você é o tipo de gente que não faria a menor falta ao planeta’
‘Só por quê não reciclo lixo?’
‘Não. Porque não recicla a mente’

 

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Na rua com Bento, ficamos atrás de duas senhoras que, andando devagar, ocupavam toda a largura da calçada.

Disse a da esquerda:

Preciso ir urgente num médico de ouvido porque tô perdendo completamente a audiência. E bateu com os dedos em ambos os ouvidos `a procura de som.

A da direita, bem acima do peso:

Estive no ortopedista semana passada. Ele disse que tô perdendo toda a babinha dos ossos; por isso é que me dói tanto os joelhos.

Bento sorriu com o rabo. Elas retribuíram o sorriso. Atravessamos a rua para não incomodar o passeio. E seguimos.

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fotografia

Uns dois anos atrás, estava na Estação das Docas, em Belém, e comecei a fotografar minha mãe, sentada `a mesa, tomando sorvete; ela fazia caras. Pelas tantas notei que um homem, a poucos metros, acompanhava com um meio sorriso e algum interesse. Deixei pra lá.

Certa altura, minha mãe e minha irmã foram ao banheiro e ele veio falar comigo. Pediu licença e foi logo dizendo: ‘o que você está tentando captar com a câmera faz muito tempo que está aqui’ – e tocou com o indicador a minha testa. Prosseguiu: ‘agora é só passar daqui pra cá’ – e desceu o dedo da testa pro meu peito. Depois saiu.

Quatro passos adiante, se voltou: ‘também pode fazer o caminho contrário; não sei por onde você começou’.

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A chuva aflora sons e sabores por onde passa. Afasta maus pensamentos, recolhe, acolhe, fomenta. Chove lá fora, mas a chuva é pra dentro. E de cá eu vejo. Um sabiá, em cima do muro, cavaca a terra do gerânio vermelho, batendo asas sem sair do lugar, beija-flor. Um outro espia do limoeiro, silêncio, pudores, retiro. A terra molhada exala a fragrância selvagem de terra-molhada. E eu aspiro a tranquilidade vicejando no quintal.

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chineses

Há pouco, no banho, eu vi no vidro respingado do box, uma pequena família de chineses no meio de um jardim de cerejeiras cercado por árvores compridas, longilíneas. As crianças andavam de mãos dadas, o pai a frente. Um gato sentado sobre as patas traseiras e uma coruja em cima de um tronco cortado. Em nada disso havia cor, apenas transparência, alto-relevo das gotas, mas eu via bem.

O menino do meio estava jururu porque foi mal na aula de mandarim. A de trás…nada disso; não vou inventar coisa nenhuma, tudo passava em silêncio.

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Atendi a mulata de 75 anos, viúva há quatro, rosto bom e triste, de luto, ainda. Perguntei, curioso, tentando ser solidário:

‘Ele esteve doente?’

‘Imagine, doutor! Meu marido era um coco da bahia, todo ele. Quando despencou do pé, foi uma vez só’.

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Ontem à noite fui abduzido pelo passado, e ele, vívido, botou no mesmo site toca-disco e Ipod, tocantins e são paulo, encontros à mesa de jantar e encontros virtuais.

Pensei em Rilke: eu sou uma árvore ante o meu cenário.

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