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Archive for the ‘PANDORA’ Category

PANDORA final

O delegado faz uma pausa e olha para todos. Na sala, um silêncio sepulcral.

– Juro que não fui eu! – Pierre se precipita ao centro do círculo que se havia formado. Teme que sua antiga rusga com o falecido o incrimine.

– Claro que não, meu jovem. Vê-se que o senhor está mais para a Morte do Cisne do que para Assassinato por Encomenda.

Pierre agradece, dá três passinhos para trás e o delegado é enfático:

– Façam entrar o assassino!

São necessários três policiais para conter o homem que entra se contorcendo como fosse uma cobra em areia escaldante.

É Pé de Fogo, o motorista de Marco Antônio que, por sua vez, arregala os olhos.

– Não adiantou essa ridícula peruca loira com a franjinha à lá Roberto Carlos. Meus homens o reconheceram aí na porta, e não é de hoje que ele é procurado. Puxem sua ficha policial e vão se deparar com Os Lusíadas, do Camões.

Leonor está passada. Quantas vezes o viu tomando cafezinho na cozinha de sua residência, e seria capaz de Jurar que Aninha, a passadeira de saias e vestidos, estava de rabicho com ele. E antes que Bernardo abrisse a boca, tornou-se compreensível o mantra que o brutamontes vinha repetindo: ‘soldadinho-mandado-não-merece-castigo-soldadinho-mandado-não-merece-castigo-soldadinho-mandado…’    

– E quem é o mandante do soldadinho? – o delegado, em momento lúdico, adere à brincadeira.

Pé de Fogo aponta para o homem de bigode ao lado de Leonor.

Ele mesmo: Marco Antônio. Muitos já esperavam por essa. Atrás de um grande homem sempre existe uma grande mulher; atrás de um pistoleiro mequetrefe sempre existe um grande homem.

– NÃO, por favor, eu explico! – Marcão insiste enquanto é algemado. – Fiz tudo isso por amor.

Sobe a voz de Zizi Possi em momento de grande emoção:  ‘Per amore hai mai fatto niente solo. Per amoré hai sfidato Il vento e urlato mai?’ Close nos olhos de Leonor, depois no bigode de Marco Antônio. Pandora manifestando expectativa, Bernardo paralizado, Pierre arrancando outra cutícula, Mona Lisa, toda enfado, com cara de paisagem, ela detesta música italiana.

– Eu explico. Não sou o único aqui a contratar o serviço destes profissionais. Bernardo também contratou Laércio Mão de Chumbo para uma execução.

Todos: óhhh!!!!!!!

Bernardo abaixa a cabeça, constrangido. Leonor levanta seu queixo, Pandora o mantém ereto, Marcão continua:

– Em função de sérias tormentas existenciais, meu amigo Bernardo resolveu botar um ponto final em sua existência. Esteta como sempre foi, não conseguiria, ele mesmo, executar a tarefa. Me procurou e indiquei um dos meus homens de confiança, Laércio. Evidente que eu não sabia quem era a vítima, senão jamais teria permitido este destempero. Somos amigos há anos. Acontece que Bernardo desistiu da idéia ainda no nascedouro e desfez o combinado. Laércio me telefonou na Tailândia, onde eu procurava espairecer.

– Vamos ligeiro com isso, meu senhor. Trata-se do último capítulo e temos todos pressa – intervém o delegado.

– São poucos os que sabem do amor que dedico a uma criatura muito especial…

Recomeça Per Amore e ênfase nos olhos de Leonor que, lentamente, vão se dirigindo para o chão.

– Bernardo, há muito tempo não tiro sua mulher do pensamento.

Novamente todos:

– Óhhhhh!

Pierre arranca mais uma cutícula e Mona Lisa confere as horas pela enésima vez.

Bernardo vai se mover na direção do antigo amigo quando Leonor o contém.

– ‘Amor discreto de uma só pessoa’, fica tranquilo…

Pandora passa a mão na cabeça de Bernardo como quem procura constatar as palavras da amiga. Realmente: plaino como uma pista de pouso.

Marcão continua:

– Quando Bernardo desistiu, diante da frustração de Laércio o orientei a executar a tarefa, desta vez sob meu comando. Pensei que sem Bernardo seria mais fácil conquistar Leonor. Acontece que também me arrependi em seguida. Leonor levaria anos para se refazer do choque e já não estamos na idade de esperar a primavera. Além de que este homem justo serviu o exército comigo. Para não causar nova frustração a Laércio e à sua alma sensível e meticulosa, solicitei a Pé de Fogo que o poupasse desse mal estar.

Ainda de cabeça baixa, Leonor, com o rabo do olho perscruta o semblante do marido. Ele está intransponível. Marco Antônio ainda tem algo a dizer:

– Vejam, meus amigos, quantos acordes numa só canção: Por amor à Leonor, pensei em subtrair seu marido e velho amigo meu. Por amor ao meu amigo e respeito ao sofrimento da viúva, abortei a ideia. Por amor a Laércio, meu mais dileto homem de confiança, poupei-lhe de uma irreparável frustração, por amor a…

Pé de Fogo tenta se livrar dos soldados:

– E eu que não amei ninguém é que vou pagar o pato??!!

O delegado não se intimida:

– Sr Marco Antônio, ‘com banana e bolo é que se engana um tolo’. Acontece que desta vez o tolo é o senhor mesmo. Meninos, aos costumes!

E saíram com os presos escada abaixo sem permitir sequer que Marco dirigisse os olhos para sua amada pela derradeira vez.

Abraçaram-se todos, trocaram elogios, apalparam-se, folguedearam, emocionante confraternização. Há muito tempo do lado de fora, Mona Lisa os espera no limite da paciência. As mãos nos bolsos da bermuda jeans.

– Foi tudo tão lindo, chèrie! – Pierre parece encantado. Despede-se agora de Pandora, na calçada – estou te esperando em Paris. Jamais esquecerei aquela noite em meu quarto; sinto que uma onda mais forte se alevanta, compreende?

– Serei breve, mon amour, serei muito breve. Todas as possibilidades nos pertencem – Pandora o beija com doçura.

Há transeuntes que aplaudem e saem dançando, jogando para o alto os chapeus coloridos.

Ainda bem que seu acompanhante não conseguiu cancelar as passagens. Se sair agora ainda tomará o avião. Beijinhos para todos, Pierre abre a porta do taxi que o espera. Pandora olha pela janela, se abaixa e dá um sorriso maroto:

– Tcharles, meu querido, cuide bem desse pitéu.

O táxi sai a toda. Não há tempo a perder.

Quando erguem as taças de champanhe em volta da piscina, há uma bela lua no céu. A noite é de estrelas. Leonor está exultante porque conseguiu renovar o guarda-roupa dois números abaixo do que vinha usando. Bernardo comemora um novo tempo. Mona não comemora nada, e Pandora comemora tudo porque está feliz.

Bernardo compreendeu que ela não tinha condições de enfrentar a máfia italiana, e assim aceitou seus motivos. Acabou agradecendo ao próprio Dom Corleone por ter favorecido esse encontro naquela noite chuvosa.

Embarcam em uma semana. Vão a Paris rever Pedro Augusto, rever a Champs Elisée, rever a Sacre Coeur, rever o cacete a quatro. Pandora combinou baixinho com Bernardo tardes no Bois de Boulogne, árvores, jardins, a lagoa, o canto dos pássaros. Segredou com Leonor noites de barco pelo Sena. Um sorvetinho – apenas um – no Berthillon da Île Saint-Louis. “Mistura de mandarina e chocolate pra você; pêra e caramelo para mim”. Leonor salivou, excitada, já estava lá.

O champanhe borbulha nas taças. Sob a mesa dedos e pés que se trançam, vão, retornam, tornam a ir, se beliscam, se alisam, cumprimentos. Totalmente anti-alzheimer descobrir, de olhos fechados, de quem é este pezinho.

Torpedo no celular de Leonor. É um certo doutor que trocou Hollywood pela taba. Leonor joga o celular na piscina por cima do ombro; ele faz bolinhas na água azul. A câmera vai abrindo lentamente até aludir a borbulhas, estrelas, candelabros, castiçais, perfumes e saltos.

Uma semana depois, estão a bordo. Na Primeira Classe Bernardo, Leonor e Pandora continuam festejando. Bernardo, que começou esta narrativa tão murchinho, se encontra mais contente do que pinto na chuva. Leonor é um peixinho em mar aberto. Pandora está reluzente, cabelos soltos, descalça, a voz de licor, que fragrância delicada exala essa mulher! Petiscam, degustam, é pele, são sedas e línguas.

O avião cruza o Atlântico, agora é madrugada. Muitos dormem, é um quase silêncio, as turbinas a mil. Quando Pandora se levanta, a aeromoça vem a seu encontro: Pardon! Pandora a cumprimenta e segue em frente. Na poltrona atrás da sua, Marília, ex-esposa de outro Bernardo, dorme muito bem acompanhada; na boca, delicado sorriso. Pandora chega à Econômica e caminha com suavidade, não há turbulências, a nave desliza serena.

Na última fila ela está à vontade. Fez um aplique que lhe desce à cintura. Não usa a bermuda jeans e passou um discreto batom. As pernas cruzadas, finalmente borboleta. Pandora se aproxima, elas se constatam, sim, está aqui. Ao chegar à poltrona, Pandora descansa a mão em seu ombro e a observa em silêncio. Depois segue em direção ao toalete. Quando Mona Lisa levanta, acendem as luzes e anunciam o café da manhã.

O avião desperta devagar. As pessoas se olham, “onde estou?!” Bocejam, se espreguiçam, alongam as pernas, procuram sapatos, enxugam a baba no canto da boca.

Alguns abrem as janelinhas, o dia amanhece alaranjado. Paris vem logo acolá. Cheirinho de café e de suco artifical de laranja, jus d´orange.

Pandora faz o caminho de volta. Continua soberba. Alguns passos adiante pára no corredor e olha para trás. Mona sorri com os olhos. Pandora pisca um olho em total discrição. Retoma a caminhada ao encontro da primeira classe, que também já despertou.

O comandante vem pessoalmente convidá-la para ir até a cabine. Ela sorri. Ele é elegante e gentil. Lá dentro a espera um monumental café da manhã. Servem-se juntos. Depois, segurando sua mão, ele mostra os contornos lá no horizonte. Por trás dos raios de sol, ela é a primeira a ver Paris.

Aberta a Caixa de Pandora, doces pecados para todos os lados.

Alguém duvida que Paris será uma festa?!

                                                                                                       FIM

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Para falar a respeito de Pandora é necessário enunciar que estamos diante de uma das maiores fraudes do século XXI. Este início de século, per se, tem se revelado logradouro de inúmeras fraudes.

Talvez para responder as constantes críticas a respeito do tamanho de seus textos (incompatíveis com esta nova mídia – o blog) o autor optou por capítulos relativamente breves. Clássico exemplo de um antigo provérbio: ‘ouviu o galo cantar mas não soube aonde’. Traduzindo: a intenção procedeu, mas a execução deixou muito a desejar.  Assim, sua trama, PANDORA, foi se desenvolvendo à mercê de suas emoções, revelando descompasso entre as intenções e o texto publicado às pressas.

O autor escolheu uma trama policial (é o que parece a princípio), que vai se desmontando a cada capítulo até se tornar uma massa disforme sem qualquer substrato que confira ao esqueleto alguma identidade. Assim, desliza entre o humor, o policialesco e o, simplesmente, patético.

Pandora, a personagem principal da história, se esvai à medida em que Leonor, visivelmente criticada a principio, ganha força, tornando-se, quase, a protagonista, obrigando o autor a tirá-la de cena durante alguns capítulos, provavelmente comprometido com a atriz responsável pelo papel principal – ou com os patrocinadores, quem sabe.

Torna-se perceptível o descaso do autor com sua própria historia, deixando claro que não havia um mínimo enredo ou o mais rudimentar critério psicológico que justificasse algumas atitudes destes pseudo personagens, tentando existir a despeito de um mau condutor, como flores que, descartadas de um barco nas festas de Yemanjá, ainda assim procurassem uma lógica para se justificar e fazer parte dos festejos.

Depois do relativo sucesso de Reveillon!, o autor se sentiu no direito de escrever o que lhe viesse à cabeça, esquecendo que o público brasileiro habituado às manifestações mais eloqüentes da arte, saberia separar o joio do trigo e destinar aos subterrâneos do esquecimento esta historieta francamente dispensável.

Não precisamos esperar o último capítulo para dizer que apesar de um ou outro acerto momentâneo, nos sentimos a vontade para revelar a mediocridade. E o fazemos com a alma entristecida e a crista baixa, condição indispensável para quem, a despeito de qualquer manifestação de inconsequente alegria, sabe a importância de sua participação no planeta.

Seja lá onde isso termine – o último capítulo está por vir – posso adiantar que nada deste resultado vai ser representativo de qualquer coisa que seja minimamente NADA.

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PANDORA, arrebatando um imenso público leitor, veio confirmar que a idéia do autor de ser conciso e quase telegráfico tinha a ver.

Partindo de uma idéia sofisticada, tramou um enredo comum e corriqueiramente performático, tornando cada capítulo um programa a ser degustado. Aqui e ali salpicou conceitos, informações ou simplesmente indagações que roçaram a genialidade – o que dizer do humor?!

Com a simplicidade do vidro e a sofisticação do lamê fomos conduzidos a um universo verdadeiramente vibrante.

Alguns dos personagens tomaram vida real. Hoje sabemos todos quem são Leonor, Pierre, Bernardo, Marco Antônio e Mona Lisa.

E pelo caminhar da carruagem, daqui a pouco os conheceremos ainda um pouco mais.

O autor, com sua pluma delicada e contundente, (n)os revelará a todos.

Com afiada percepção e total domínio desta mídia, todos os envolvidos no projeto merecem cumprimentos. Elenco primoroso, texto ágil e pontual, direção precisa, estamos diante de um momento importantíssimo do folhetim virtual.

Se Vida Alves sobrevive até hoje do primeiro beijo protagonizado em uma telenovela brasileira (não mais que um mísero selinho), Pandora, Leonor, Bernardo e companhia bela terão um longo e promissor futuro. Tornaram-se, igualmente, artífices de uma história fundamental. E revolucionária (houvesse ainda revoluções neste país).

Seja lá onde isso termine, o resultado será o retumbar de um efervescente TUDO.

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Marco Antônio não gosta de ser criticado:

– Escute aqui, sua…

– Todos prontos? – Bernardo volta à sala esfregando as mãos.

Pierre está emocionado:

– Não vejo a hora de ver mamã. Tadinha, tão despreparada para essas celas desconfortáveis do Brasil.

Pandora puxa o cordão; parece ansiosa:

– Vamos, Leonor já esperou demais.

Saem todos.

Zelão, motorista de Bernardo, o conduz com o filho e Pandora. Pé de Fogo, o de Marco Antônio, o esperava na calçada, encostado na mercedes dourada. 

– Segue para a delegacia do Morumbi, Pédi.

Pé de Fogo coloca os óculos escuros e dá um tapa na franja loira.

– Pra já, chefia! – E acelera, fazendo jus à sua alcunha.

Mona Lisa vai de bike, mascando chiclete.

Bernardo conversa ao celular com um dos advogados. No banco de trás, Pierre e Pandora são só ternura. Falam baixinho.

– Tudo vai acabar bem, Pan, e estarei te esperando em Paris. Enquanto isso, sentirei muita saudade… – faz um pequeno muxoxo, recostando a cabeça no ombro da mulher. Ela acaricia seu rosto.

– Você está tremendo, cherie. Que acontece?

–  Ah, não sei, sei lá, entende?!

– Como?!

– Hum, nem uma coisa nem outra, nem aqui nem lá; muito longe do contrário…

Bernardo dá uma olhada pelo retrovisor. Pandora está mais bela do que nunca, os lábios úmidos, um certo frisson. Os olhos castanhos retribuem seu olhar, uma piscadela. O caçula tem a face rubra, as bochechas são duas cerejas maduras. Por seu turno, Zelão também reconhece um clima de idílio no ar; aumenta o rádio: como uma deusa você me mantém….

Chegam à delegacia. Enquanto Bernardo e Marco Antônio conversam com o delegado e alguns advogados, um carcereiro conduz Pierre e Pandora à cela onde está Leonor, eles têm pressa. Ela acaba de fazer as unhas dos pés. Difuntina Mata Sete assopra o esmalte azul natiê das unhas das mãos. Jalapa Foguetão a refresca com um leque de papel customizado com sua iniciais. Alguém segura outra chávena de chá.

É um momento de extrema alegria e confraternização. Pierre se atraca nas grades:

– Mamã querida, mas que salinha mais retrô!

Leonor se levanta com uma agilidade impressionante, deixando claro que já perdeu os quilinhos que a incomodavam nos últimos tempos.

– Meus amores! – murmura, com surpreendente mansidão.

Pandora segura suas mãos sobre a grade.

– Querida, como você está bem! – parece que uma lágrima começa a girar em seus olhos, entretanto se recusa a cair. O assoalho não está nada limpo.

Leonor começa as apresentações: Rosinha Trovoada, as gêmeas Difuntina e Finadina, Malu Boa Hora. São desconfortáveis os cumprimentos através das grades, portanto os de fora se limitam a meneios de cabeça. Um pensamento atravessa Pierre: ‘Chacrinha se inspirou por aqui…’

Mona Lisa chega suada. Saracura Gente Boa grita do fundo da cela:

– Um boi roceiro reconhece o outro. Pára tudo que chegou a rainha! – e bate continência.

Um guarda cochicha no ouvido do carcereiro. Este avisa às visitas que o delegado os espera imediatamente. Antes de subir, todos prometem voltar e tomar pelo menos um cafezinho com as meninas.

Quando chegam à sala abafada do delegado, este é curto e grosso:

– Sempre achei que a Sra. Leonor fosse inocente. Não estava errado. Carcereiro, volte e traga aquela dama. Faço questão que ela participe desta cena.

Entreolham-se todos. O carcereiro desce novamente as escadas. Em dez minutos volta com a prisioneira.  

Marco Antônio é todo emoção. Bernardo nem pisca.

– Tire suas algemas! – brada o delegado.

Com os punhos novamente livres, ela fala, delicada, as mãos unidas, pernas fletidas, uma pequena vênia:

– Obrigada, senhores!  

O delegado, fã da Bethânia, retribui o cumprimento e se volta para o carcereiro:

– Dá aqui essas algemas que elas já têm outros punhos para adornar. Acabou a brincadeira, moçada, vamos ao que interessa:

Faz uma pausa e corre os olhos entre todos. Na sala, um silêncio sepulcral.

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PANDORA cap 22

Na sala, Marco Antônio vai ao ponto:

– E Leonor, onde está?

Um silêncio pesa no ambiente.

Bernardo insistiria na história do SPA, contudo decide ser sincero com o amigo e com os demais.

– Leonor está detida. É ré confessa no assassinato de Laércio Mão de Chumbo.

Marco Antônio se sobressalta mais uma vez. Pierre solta a mala no chão.

– Mami não estava no SPA, papito?

– Leonor pediu que não dissesse nada a ninguém, mas o fato é que ela se acusou de um crime que, tenho certeza, não cometeu. Fez isso para salvar a minha pele, eu estava sendo acusado. Injustamente, diga-se de passagem.

Pandora parece estarrecida.

– Le-o-nor?! – Leva as mãos à boca – Quem é Laércio Mão de Chumbo, pelo amor de Deus?

– O homem de confiança de Marco Antônio. Seu arauto, seu alter-ego, seu capanga, pra ser mais exato – responde Pierre, aos berros, encarando ferozmente o visitante. Prosseguiria, mas Marcão o interrompe, visivelmente abalado:

– Precisamos tirar Leonor da cadeia. Vocês estão todos de mão amarradas?  Não impetraram sequer um habeas corpus em seu favor? Onde estão os advogados deste país?

Ele agora se comporta como o verdadeiro marido que jamais chegou a ser. Trata-se, evidente, de um homem apaixonado. E neurastênico.

Bernardo toma a palavra:

– Alto lá, meu amigo! Se Leonor continua detida é porque as leis no país são inexpugnáveis, mas ainda hoje aguardamos a definição de outro habeas corpus impetrado. Saiba que acionei até o Planalto Central, a INTERPOL, o escambau.

– Então vamos todos à delegacia – Marcão tem pressa. Autoridade.

Bernardo se dirige ao quarto para pegar a carteira e pentear o cabelo, Pierre pede ao mordomo uma taça de champanhe e se dirige ao telefone para cancelar a viagem.

A sós na sala, Marco Antônio segura firme o braço de Pandora.

– Quer dizer que eu te contrato pra fazer o meu lobby diante da mulher que amo e você além de não dar conta do recado ainda a deixa escapulir para dentro de uma cela? Deveria ter te entregue à máfia italiana, isso sim. Você teria queimado junto a choupana do Totó, sua incompetente.

– Não tive…

– Você quer assumir o lugar de Leonor, essa que é a verdade. Não seria esse mais um motivo pra você ficar do meu lado e ter se empenhado mais e mais no seu papel?

– Tira tua mão…

Mona Lisa, entrando devagar, interrompe, serena:

– Se você estava precisando de uma boa lobista escolheu a pessoa errada, meu caro. Consulte os arquivos recentes da campanha política nacional.  

Caminhando até onde se encontra Pandora, passa a mão, displicente, sobre seu ombro. A outra mão, no bolso da bermuda jeans. Cruza as pernas.

– Você é péssimo de cálculo, Marco Antônio. Jamais convoque para coadjuvante uma mulher que nasceu para protagonista. – Sorri para Pandora. Os olhos em festa.

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PANDORA cap 21

– Figura-te!

Marco Antônio tem nova surpresa:

– Eu te conheço?

– Ainda não, mas chegou a hora. Monsieur Laércio, seu homem de confiança, não permitiu que eu participasse da montagem de Gisele, na Opera de Paris. Por conta disso tive que fazer aquele follie bergere no Lido, ai que mico! – cobre o rosto com as mãos.

Calma que eu te explico. Tudo tem seu lado B. Não há dia sem noite, preto sem branco, bem que sempre dure ou mal que nunca se acabe. Assim, Marco Antônio é um diletante das artes, ferrenho simpatizante do movimento. Laércio foi seu representante em Paris e ocupou sua vaga na corte dos melhores teatros da cidade sempre que ele se encontrou em uma de suas outras atividades. Numa dessas Laércio presidia um júri que selecionava jovens artistas para a referida montagem, e se opôs frontalmente à participação de Pierre como a protagonista; – ‘faltam-lhe panturrilhas’, argumentou. E até descolar a figuração no Lido o jovem precisou bater sua rica plumagem pelas calçadas de Pigalle. Tudo para não incomodar papai e se manter coerente com seus ideais de independência.

O castigo veio a cavalo. Depois de fazer o mesmo com um importante rebento de tradicional família inglesa, Laércio foi destituído do cargo e precisou retornar ao Brasil fazendo valer seus conhecimentos de balística e caçador nos campos da Escócia e da própria terra da Rainha. Mais uma vez amparado pelo amigo Marco Antônio que, como vemos, atira em todas as frentes.

Bernardo toma a dianteira:

– E essa mala, mon Cher?! Não me diga que…

– Isso mesmo, papa. Minha temporada por aqui se estendeu além da conta, já fiz coisas do arco da velha. Bato em retirada antes que seja tarde demais… – e dirige um olhar atordoado para Pandora, que retribui com audácia.

Recostada na parede, Mona Lisa espia a cena degustando um abacate com açúcar. Depois enfia as mãos nos bolsos da bermuda jeans e se retira. Tranca-se no quarto e começa a alinhavar a candidatura da mulher-tamarindo para a Assembléia Legislativa.

Na sala, Marco Antônio vai ao ponto:

– E Leonor, onde está?

Um silêncio pesa no ambiente.

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PANDORA cap 20

– Vocês se conhecem?!

Pandora está fulgurante:

– De antigos carnavais. Ou antigas tarantelas, Marcão?!

Pandora se refere à perseguição que sofreu da máfia italiana quando morou na Toscana. Amiga de Totó e Gema (lembra deles?), foi igualmente perseguida, escapando por pouco do cadafalso. Marco Antônio, que como sabemos, presta serviços àquela entidade, ajudou em sua escapada para o Brasil, mas como todo vilão que se preza, exigiu o troco. Pandora veio com uma missão especial: seduzir Bernardo e aproximar Marco Antônio de Leonor.

Ela mesma: Leonor. Conforme sugerido no capítulo 14, há tempos ele tenta seduzir a mulher do amigo. Sem sucesso, diga-se, porque apesar de alguns mal entendidos, Leonor tem se mostrado uma mulher fiel durante todo o folhetim. Este homem, entretanto, não admite negativas, e quando escolhe sua presa ela está fatalmente condenada ao abate. E ele quer por que quer abater aquela mulher. Marco não gosta de mulheres esquálidas. Às antigas, aprecia formas arredondadas e fornidas. No escritório, sua caixinha de música: oito quadros de Botero.

Acontece que Pandora ao conhecer Bernardo conheceu todo um universo. Tanto quanto ele, ela vinha de um período de temor e desencanto. Hospedada há mais de um mês em sua casa se sente integrada à família, chegando praticamente àquele esquema de cama-mesa-e-banho. Talvez por isso esteja tão à vontade para encarar o algoz que retorna.

Ela morde a maçã e se recosta na parede. Continua:

– Conheci Marco Antônio quando morei em Florença. Fazia um curso de História da Arte; Marco é praticamente um mecenas, você deve saber, Bernardo. Ele foi extremamente gentil durante toda a temporada que passei ali. Tenho enorme prazer em revê-lo. – E estende a mão com altivez.

Pierre chega puxando a mala. Ouviu o comentário de Pandora. Bota a mão na cintura e se dirige ao visitante:

– Figura-te!

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