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Archive for the ‘O RIO atualizado’ Category

morcego

Tenho medo da noite, medo do que se cala.

Ao escuro, ao silêncio da noite, reagimos em casa com lampiões, candeias e lamparinas.
Minha sorte é que temos um pé direito alto, sem forro.
Subo para ali e trepo nas vigas, nas madeiras do teto.
Sento sobre pernas vergadas e vejo a vida de cima,
fugindo dos entremeios, das discussões ociosas, da falta de discussão.

Tenho medo, sim, é verdade, mas aqui em cima estou a salvo.

Assovio imitando corujas, abro e fecho os braços, sorrio com presas pontiagudas,
morcego.

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Minha mãe está chorando e ao mesmo tempo em que chora me agarra, vai me agarrando, ferindo, tatuando, removendo; busca me corromper, a minha mãe. Em seu movimento de me reter, aponta o caminho da volta, o des-nascimento, secreto desejo. Entra em ebulição e toca cornetas, chuta móveis, abre latas, grita uma ópera, carnavalesca e passista de uma escola de samba. Então,  me propõe as entranhas, os anexos e seu útero confortável.

Subitamente permissiva, abre cervejas, ouve Bethânia, considera os Beatles, o cabelo comprido, jeans surrado e as bocas de sino. É longe do mar, mas uma onda gigante se alevanta por aqui.

Vai se dizendo, minha mãe:

“- Se não quiser não vá. Uma viagem se desfaz até no aeroporto. A gente escapa de um avião no momento em que aquelas mulheres nos apontam as saídas de emergência. No segundo em que, óbvias, nos informam sobre um trajeto que conhecemos desde a compra da passagem. Quer um exemplo maior da mesmice que te espera?

Fique um pouco mais porque sinto que alguma coisa em mim está se quebrando, algo estremece sob os pés da casa. Uiva. Ou mia, feito  gatos prisioneiros de um pulmão asmático. Uma casa em que os ruídos da noite deixam de ser familiares. Os indiozinhos vão invadir finalmente, você bem que me avisou desde menino.

Insone em meu quarto confortável, sobressalta-me o ranger de vergaduras que não há. Calo-me, esperando o pior; não é que me cale, verdadeiramente, fecho-me, ostra. E um ódio sem juízo congela tudo por aqui; solidão.

Pego linhas, tecidos e agulha de crochet. Vigio com os olhos no relógio de madeira que, da parede, tomou todo o quarto. Espero que me toque o telefone e me digam que ele está sofrendo. Que ele me reafirme isso. Que não o sirvam durante a viagem, que não o deixem com fome, ou que o deixem. Desejo que Deus o proteja. Não o bastante para que se esqueça de mim, prescinda de mim; que o proteja e não me desampare, não me vá enlouquecer!

O passarinho escapou pela janela fechada.

Finalmente o tédio. O tédio que só é quebrado por esta recorrente pancada.  Na barriga, talvez. Contrações. Ele me soca, eu me contraio,  me embalando. Um embalo de cadeira de balanço à beira do abismo. Então é isso: acho que vou parir outra vez.  Que este seja de larga memória. Para que não esqueça os olhos acesos sobre mim, a mão puxando a saia para que não me ausente, o batom entregue na mão para me agradar, minha boca avermelhando diante do espelho, o vestido de baile em cima da cama, prenúncio de festa, de noite ausente. Os olhos pedindo que eu não vá ou ao menos que o leve comigo. A sombra que me acompanha da cozinha para a sala, da sala para o quarto, o banheiro, o toucador, toalete, cremes que vão deslizando dos dedos para o rosto, cabelos soltos, sapatos de salto. Suas mãos curiosas percorrendo vidros de perfume, o aroma do quarto, a desordem do armário, meu cheiro escolhido por ele, o beijo em seu rosto, a promessa da volta.

Agora é sua vez. A festa é sua. Aqui, a lavanda. Prometa-me a volta, por favor”.

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Não adiantou a chuva cair, nem a coruja piar lá do muro: a mãe vai sair essa noite, e eu vou ficar só. O pai tá no banho recendendo a pinho, e ela fazendo um ovo com a boca, na frente do espelho, passando batom. Ela me vê sem virar a cabeça e sorri devagar. Meu ouvido começa a doer, mas vou ficar calado, porque da outra vez é tudo dengo, o pai falou, e não gostou de mim. A mãe então apontou o creme na penteadeira, e eu peguei rapidinho, ela passou o dedo, o pote ainda em minhas mãos juntas e postas, nem me mexi. Deslizou pela testa, desceu perto das orelhas, passou no pescoço, e o cheiro dela tomou todo o banheiro, abafando o pinho, depois ainda deu uma lambuzada de creme no meu nariz. O ouvido doendo quase me escapou pela boca, mas o pai abriu a cortina do chuveiro e me pediu a toalha, bem animado. Eu também fiz de conta que estava contente e comecei a recitar o verso que vinha aprendendo:  ‘hoje eu volto a te ver na antiga sala, onde uma noite te deixei sem fala, dizendo adeus como quem vai morrer’, e o pai falou, enxugando a perna esticada sobre uma lata de querosene: eta tragédia! A mãe atalhou: continua, meu filho, é tão lindo, e voltou a passar o batom diante do espelho; continuei: ‘e me viste sumir pela neblina, porque a sina das mães é esta sina, amar,criar, cuidar, depois perder’.

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Vela chorando na lata, ou esquentando um flandre, alumiando a casa, toda serventia.  Cheiro de fumaça subindo em espiral, provocando assuntos e afastando fantasmas. A vela, antes a trabalho, agora está ali, postada em um castiçal de prata – lagarta que vai à borboleta. A chama que em minha infância nocauteava a escuridão, agora é a flama que torna mais elegante o jantar.

 

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