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Archive for the ‘microconto’ Category

O tempo segue seco
e eu zapeio nuvens.

A chuva saiu de cartaz.

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A mãe, aos 88, tem andado terrível. Egoísta, autoritária, cheia de vontade, uma metralhadora. A filha mais velha levou-a a igreja domingo passado e, para ficar alguns minutos sozinha, convenceu-a a se confessar: ‘Desabafe tudo, mamãe. Não tenha pressa’.

A mãe cobriu a cabeça com o véu e foi.

Voltou, quarenta minutos depois, em silêncio de boca, mas os olhos em frevo.

Sentou-se no banco de madeira, cabeça baixa, as mãos sobrepostas no colo.

Depois do ‘Vão em paz e o Senhor vos acompanhe’, mãe e filha deram-se os braços, caminhando até o adro. A filha perguntou:

‘E então, mamãe, como foi na confissão?’

‘O padre falou que há anos não via uma fiel tão evoluída quanto eu. Quase não me deixa sair de lá, tantos conselhos pediu. Vocês é que não têm a menor condição de me compreender’.

Fizeram novamente o sinal da cruz e a mãe apertou com força o antebraço da outra, apontando os degraus da saída: ‘Cuidado comigo nessa escada, Elisabeth, e deixa de ser tansa. Caminha, vai!’

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A palavra escapuliu da tela espalhando letra para todo lado.

O que daria MAR ganhou águas de rio, o que seria FRUTO se trincou semente, e o que seria dito se desfez em pó. Letras perdendo o prumo encanamento adentro, bêbadas e trôpegas.

Assim, o que seria AMOR reduziu-se a MEDO, o PARA SEMPRE transmutou-se em VENTO, e a FELICIDADE estilhaçou-se em mil.

Da caixinha, porém, saltaram fósforos, ELES e BÊS, reacendendo a flama. Na tela, enfim, letras capazes de escrever B  E  L  E  Z  A

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animala

Pro irmão mais velho é galinha; pro mais novo, vaca. O patrão a chama de cabrita quando a sós, o ex-namorado, urubu. Pro esmoler, gata inalcançável, pra mamãe, coelhinha da páscoa, pro monsenhor, égua de montaria. Pra se defender, leoa, se quer seduzir, tigresa, pra vizinha de lado, anta, pro vizinho de frente, colibri. Dorme como gato de hotel e trabalha feito a burrinha de meu amo. Na cama, cobra na areia quente; no carnaval, macaca ensandecida, e quando o namorado disse: falas mais que papagaio, retrucou, salamandra: cansei de dar o pé, meu amor! E bateu as asas, carcará.

Águia?!

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partido baixo

É do passageiro partir. Do homem de bem, apartar. Quanto a você,  partideiro, parta manga e melancia, mas não parta de mim, faz favor. Não aparte esse parto que bem antigo se deu; e nos pariu bons parceiros.

Vc é burro?

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vernáculo

Ela espraia o perfume no pescoço, no colo, nos pulsos. Depois de dar o nó na gravata ele senta `a mesa, pega lápis e papel. Daqui a pouco vão ao Teatro Amazonas, assistir ao Caruso. A criança dorme no berço, ao lado da babá. Ele escreve o bilhete, para não incomodar as duas:

‘Aviso `a nurse:

Não macule com seus dígitos impuros o mamilo sintético da criança; bactérias há.

Salutos do meretíssimo’. 

Uma hora e meia depois, quando leu o bilhete, Aninha botou o lápis na boca, segurou a chupeta pelo bico e ficou matutando…

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microconto

Pulseira ela não usa mais; no pulso, algemas.

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