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Archive for the ‘lindinalva de jesus’ Category

A bênção, mãe!

Senhora, faz mais de um mês que não chove em São Paulo, pense num negócio seco! Sabe quando, aí, no rigor do verão, a terra parece que tá incendiando e sobe fumacinha do chão? pois aqui tá igual, só que o fumaceiro também vem do céu, e a gente fica cercado de cerração por todos os lados. Meu nariz tá mais seco que o açude de compadre Argolinha, e nos meus olhos dava pra plantar um mandacaru.

Sulamita, a empregada da vizinha, me convidou pra um churrasco na casa dela, no final de semana. Ê mãe, mas é longe! Metrô, trem e ônibus, caminhei de tudo numa vez só; e ainda boa pernada pra subir a ladeira. Dava pra ter ido e voltado daí de casa até Boa Hora, montado no jegue do vô.

Mãe, Sulamita é aquela que, só porque trabalha em casa de madame, pensa que carrega o rei na barriga. Pois lhe digo, mãinha: ela que não tire ele de lá porque na casa dela não tem onde botar. A casa de Sulamita, acredite a senhora, não tem nem lá dentro nem lá fora. Quando eu pensava que ainda estava entrando já estava saindo. Quintal também não tem, apenas um puxadinho de cimento onde fizeram o churrasco. Aí, sim, minha mãe, que churrasco! Carne de primeira. Ou de segunda, vá lá. De terceira não digo porque longe de mim ser mal agradecida.

Foi o marido dela quem fez. O marido de Sulamita tem ombro largo e um olho ligeiro; vem lá do sul; mas que olho pidão tem aquele homem! Ainda bem que não aceitei o casaco que Laurinha quis me emprestar, porque, se era pra me sentir nua, meu moletom baratinho tava de bom tamanho. E que tempero tem o diacho do homem, senhora! A carne estava boa de lascar. Como diz dona Sagrada: quando Deus tira os dentes enlarguece a goela. Êta gente pobre e boa de tempero, viu? Aqui é moda os homens cozinhar, e parece que os que dão pra coisa deixam nós na poeira. Chama chef, assim mesmo sem o ‘e’ no final, deve ser francês. Perca tempo com essa bobagem não, minha mãe, vamos em frente.

O patrão continua dizendo que meu negócio é mesmo escrever, eu levo jeito. E já estou com a vaga garantida na escola pro ano que vem. Não vejo a hora!

A empregada da vizinha do outro lado também anda me arrodeando, mas pra essa daí não vou dar trela porque é periguete por demais. E como a senhora sempre nos ensinou: quem com porcos se mistura, farelos come.

Pois é isso por enquanto. Abençoe essa filha que quer distância de chiqueiro. Mas quer a senhora, e vocês tudinho, perto do coração.

Lindinalva de Jesus

Ah, e quanto a saudade, mãe, tá que nem cheque sem fundo. No que bate já tá voltando.  (por enquanto tá macia).

Fica com Deus, minha santinha. (mas não se esqueça de mim).

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 A bênção, mãe!

O inverno chegou com tudo a  São Paulo. Escureceu e não sei onde foi parar o azul que na semana passada coloria a cidade . Parece que alguém passou a borracha no quadro-negro apagando tudo; restou só a lousa. No começo eu tremia feito vara verde, mas Laurinha foi comigo até o centro e eu comprei um agasalho de sair e duas malhas de ficar em casa, sendo uma pra escrever e assistir televisão depois do banho, e a outra, a de macaquinhos coloridos, para a lida do dia.

Falar em banho não é fácil ficar embaixo do chuveiro nesse tempo. A água é quase tão quente quanto a que vó Bina ferve pra fazer o chá de cipó, e eu saio toda engilhada e me coçando inteira. O patrão explicou que deve ser alergia à água quente, mas com água fria não dá nem pra chegar perto do chuveiro, e assim vou levando, coçando um cadiquinho aqui, outro acolá, mas sempre em frente.

As duas coisas que mais gosto do frio são de fazer fumacinha com a boca e sentar no vaso sanitário gelado. Pense num vaso sanitário gelado, minha mãe! Eu duvido que a senhora consiga proceder numa situação dessas, mas é divertido por demais. A gente leva um tempão pra se agasalhar, só se mexendo de um lado pro outro até esquentar a tampa.

E lá fora o frio comendo solto. Parece que ligaram o ar refrigerado na cidade inteira, a senhora acredita?

Quando saio cedinho pra levar o Bulle passear, cruzo com as meninas, que vêm encorujadas, de cabeça baixa, andando ligeiro, fazendo fumacinha, enfiando as mãos com luva e tudo dentro das mangas do blusão. Raimundinha da Zezé falou que não se acostuma com isso não, sente falta do calor, mas eu acho é bom. Finjo que me vejo passar com o cachorro na neblina e parece que estou dentro de um filme em 3D, a senhora sabe? Quer dizer, em 3D a senhora não sabe o que é, mas ficar dentro do filme deve imaginar porque já lhe levei várias vezes ao cinema do compadre Espedito, e até lhe dei a mão na hora que o navio afundou aquela vez, lembra?

Vou fazendo amizade com a empregada dos vizinhos, mas ainda estou tomando chegada. Ela chama Sulamita e mora aqui há doze anos. Acho Sulamita um lindo nome, e se eu não fosse De Jesus gostava de ser Sulamita. Ela contou que na casa deles tem até lareira, mas daqui de casa eu não vejo a fumaça subir nem sinto cheiro de lenha queimar. Eu só escuto o silêncio.        

Pra senhora ter ideia do que é uma lareira pense numa fogueira de São João dentro de casa. Mas não se preocupe que ela fica lá no quadradinho dela e é muito bem treinada. Ela esquenta por dentro sem queimar o de fora, e o fogo é do mesmo laranja que o daí.

Ainda não morro de saudade, viu, mãe?

Abençoe essa filha que só aprecia o frio desse inverno porque trouxe muito calor no coração. E foi mesmo a senhora a lenha desse fogo, ô se foi! Não deixe de ver onde a Serena está pondo os ovos, ela às vezes dá de pôr do lado de lá do açude e pode se perder todo o ninho. Diga ao pai que, lá no centro, eu vi os homens com as placas de Vende-se Ouro no peito, que ele  acha tão bonito.

Com amor que nunca esfria,

Lindinalva de Jesus.    

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A bênção, mãe!

São Paulo é aquilo tudo que Manezinho falou, e já estou há três semanas no emprego novo. É uma casa de muito bom parecer, igualzinho aquelas que passam na televisão, e estou feliz. Os patrões são gente boa e brincam muito comigo. Da janela do primeiro andar consigo espiar a casa do vizinho, e ela é bonita por demais. Do lado de lá, porém, o gato não mia, o cachorro não late, passarinho não canta, a vitrola não toca, panela não solta cheiro de refogado nem se vê uma folha voar. O vaporeto é mudo. Não se move a água da piscina. Outro dia, através de carta, ele pediu ao patrão que Wando cantasse mais baixo no meu rádio, e a cachorrinha, que tá velha, cega e surda, parasse de latir. No vizinho do meus patrões a vida é silenciosa demais, e eu não entendo como alguém tendo tanto pode ter tão pouco. Naquela casa só habita um silêncio. Eu fecho a janela entre pena e susto.

São Paulo é dez milhões de vezes a nossa cidade. E a saudade muito grande ainda não bateu. O patrão, encantado com meu linguajar e minha escrita, falou que vou esbarrar na universidade. Fiquei toda toda e, `a noite, quando eles vão dormir eu me sento no computador da Laurinha. E escrevo.

Beijo no pai, nos meninos da Mundica, na Cambraia e no Miguelito (ele ainda mama na teta? Ó, mãe, esse não é pra matar não, viu?)

Abençoe essa filha que carrega tudo isso aí no coração. Sinta o meu abraço bem arrochado.

Lindinalva de Jesus.

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