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Archive for the ‘Humor’ Category

Desta vez o ‘dever de casa’ no curso de Escrita Criativa foi contar uma história conhecida, pelo prisma de um personagem coadjuvante – podia ser uma única cena. Pensei inicialmente em Madalena e Salomé (e a cabeça decapitada do João Batista), em Sansão e Dalila (olha os circos-teatro de minha infância), o Ébrio, pelo prisma do cotovelo (conhece cotovelo de ruela?). Olha onde fui parar:

‘Adianto que não nasci sapatinho de cristal, antes, um vaso de bom parecer. Longo e fino; elegante, porém imóvel, a pior sina. Meu destino é a rua, os logradouros, o usufruto do IPTU, foi cedo que descobri; igualmente cedo percebi que não havia com quem trocar figurinhas, e locomover-me, ai de mim!

Quem me comprou – em priscas eras – foi um homem bom e justo, porém omisso -homens deste tipo costumam produzir veadinhos os mais graciosos, alguém viu o bambi por aí? E sua viúva, ao lado das duas filhas, lobas em pele de cordeiro, ou por outra, biscas da melhor qualidade. Ele nem chegou a perceber, abalroado pelo excesso de cores e os perfumes demasiados – para não falar no tilintar dos brincos e pulseiras. As peruas funcionam numa tal velocidade que a tudo fazem calar e, assim, o mundo segue girando na ação vertiginosa de uma jogada destes cabelos lisos e loiros, por vezes fogo, outras tantas ébano, mas sempre eloquentes. Nestes arranjos familiares o motor do mundo segue o padrão das labirintites, argh!

A vantagem desta posição imóvel é que posso narrar os fatos do ponto de vista, digamos, oriental: o silêncio é poder concentrado.

Minha única companhia é a menina Cinderela, bela e só. Não fosse por ela jamais teria acolhido uma tulipa vermelha, uma rosa amarela, uma estrelícia então…A madrasta e suas filhas sempre preferiram flores de plástico que, além de durar mais, custam menos e não juntam mosquito, é mole? Detalhe: sou alérgico a estes sintéticos. É, não falei para ninguém que o paraíso era aqui, portanto, tirem as criancinhas da sala.

Cinderela, minha Cinde, é uma garota bastante interessante; tolinha, vez em quando, avoada, outras tantas, entretanto isso se deve mais à falta de oportunidades do que a defeito de fabricação. A madrasta não deixa a garota sequer descansar o cotovelo na janela – qual é a molecota que não aprecia esse programão?! – nem cruzar o batente da porta – e isso lá é vida?!

Assim, ficamos os dois, eu em cima da cristaleira, mudo como um sapo-rei,  e ela na namoradeira – tirem as vovozinhas do alpendre – enfiando peido no cordão. Somos ambos lindos e inalcançáveis. Ela, afeiçoada a mim, adquiriu o hábito de me levar consigo pelos ambientes do casarão, feito bilha.

But…sempre um but…o rei anunciou uma balada no Castelo Encantado, a fim de encontrar uma pretendente para o seu varão, prestes a dobrar o Cabo do Bojador e ainda solteiro, tamanha a esbórnia do dolce far niente. Isso vai bombar, pensei com meus botões, digo, com meus óxidos de chumbo, e procurei os olhinhos azul-piscina de Cinde, mas agora ela só tinha olhos para aqueles passarinhos, esquilos e até um ratinho pentelho, não falei que a fofa era meio nerd?

Mal rolou a notícia pela casa, foi um alvoroço, vocês sabem como as meninas farejam de longe uma testosterona, ainda mais da realeza. Cinde, que não tava morta nem nada, tentou bater sua rica plumagem, porém a madrasta foi definitiva: Gabô, você só vai a este baile se conseguir lustrar toda a prataria, encerar o chão, regar o jardim, preparar a ceia, desfazer os nós dos cadarços e calar a boca do Faustão.

Para quem não entendeu, Gabô é um jeito carinhoso de se referir à alcunha da Cinde: Gata Borralheira

A garota balbuciou: ‘mami, será que entendi direito?!’, e passou a mão pela cabeleira para se certificar da cor. ‘isso mesmo, chèrie, mas fica fria, que tá facinho, facinho’. A coruja de mármore resmungou, impassível, do aparador: ‘te vira nos trinta!’.

Resumindo porque temos pouco tempo: duas horas depois, a velhota e suas moçoilas desciam, empavonadas, a escadaria do casarão, enquanto Cinde tentava desfazer o segundo nó do cadarço, sentadinha no borralho.

Desistiu.

Vendo a menina enrodilhada no sofá, agora assistindo ao Zorra Total, o ratinho camarada comentou: ‘é, bebezão, uns têm dita, outros caganita’. A doce Cinde franziu os lábios e uma furtiva lágrima aflorou em seus olhos azuis, rolou prum lado, rolou pro outro, sem conseguir despencar, a gata não era, igualmente, um oceano de sensibilidade; nossa intimidade me mostrou.
Eis que, senão, quando, a madrinha gorducha da garota, que nunca havia dado as caras por aquele reino, resolveu dizer a que veio e, pluft, apareceu no meio da sala, como se nunca tivesse saído dali.

‘Fica fria, Cinderela, que a madrinha não é o He Man mas também tem a força’. E, vapt, transformou seu pijama de bolinhas em um belo vestido de baile, aplicou um laquê no cabelo e adornou com uma tiara de diamantes, pegou uma abóbora que estava guardada para um bobó e zoooom, transformou numa carruagem ma-ra-vi-lho-sa, rodopiou a varinha de condão e aqueles inúteis se tornaram cocheiro, segurança e manobrista, de gravatinha e tudo. Eu mal conseguia acompanhar a performance da gorda, tamanha a destreza. A coruja, de cima do aparador, arrotou: é, toda araruta tem seu dia de mingau; vai que é tua, tafarel! 

Foi quando o anão do jardim ao lado percebeu que a gatinha continuava usando a meia soquete puída no calcanhar, e todos levaram a mão à boca: ohhh, nããão, isso nããão. E, então – que soem as trombetas! – os olhos da gorducha se voltaram para mim e sssssss…….plaft…….truummm……lá estava eu nos pés de cinderela, prontinho para ganhar os espaços públicos e chegar ao castelo do rei. Juro que não acreditei, espreguicei inteiro, me belisquei, quase cheguei a trincar. Passada a euforia inicial, me ocorreu que um sapatinho de cristal não deveria ser a coisa mais confortável para aqueles pés que tanto aprecio, porém, quer saber, estamos em guerra, que vença el mejor!

Lá fomos nós. Nem vou contar tudo o que aconteceu a partir daí porque é de conhecimento público e já ultrapassei em várias laudas o espaço que me deram aqui. Em duas palavras: Cinderela arrebentou. Em três: foi, viu e venceu.

Finalizo afirmando que na via-sacra que durante dias realizei com o príncipe – hoje nosso Rei – sobrevivi a chulé, esporão, calo, micoses, rachaduras no calcanhar e otras cositas que convém suprimir para não melar a história que vinha tão bonitinha, contudo retornei belo e poderoso para os pés mais delicados de todo o reino.

Humm….Não é exatamente verdadeira esta última afirmação – experiência é posto –  entretanto não serei eu a macular a honra de…….bem, deixa pra lá que hoje é sábado de aleluia, vai rolar o maior bafão no Castelo Encantado e a madrasta malvada – diga-se de passagem, os pés mais bacanudos de todo o reino – ainda nem me lustrou.

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Sou do tempo em que discutir Fernando Pessoa e frequentar restaurante japonês era restrito a meia dúzia de gatos pingados que se consideravam o suprassumo da modernidade. Antigo à beça, considerando que frequento a cidade de São Paulo onde, hoje em dia, existe mais restaurante japonês do que cantina italiana que, por décadas, ocupou o podium da preferência gastronômica paulistana. E demonstrar desenvoltura com os tais pauzinhos faz tempo que deixou de ser impactante. Quanto ao Fernando Pessoa, mais carne de vaca impossível. Quem quiser ser diferenciado que o qualifique como uma bicha deprimida eternamente às voltas com os assombros do desassossego.

Ficou um bocado sem graça ser rico hoje em dia. Quando alguém viajava para o exterior – exceção ao Paraguai, evidente – subia imediatamente no conceito da vizinhança e se tornava, incontinente, consultor para qualquer assunto desta seara: dos trâmites com o passaporte à arrumação da mala, passando pelas questões de bóia tipo ‘Você ficou uma semana sem arroz-feijão? Não acredito!’  Hoje viajar só encontra quórum se você sobreviveu a doze horas de espera no aeroporto, a um homem-bomba acrobata, ao ataque de um leão na Champs Elisée ou a um mergulho no Ganges, ainda assim se houve repercussão internacional.

Falando nisso, faz tempo que a espera no Embarque Internacional se igualou ao Nacional, isso em baixa temporada porque, nas férias de verão, até os filhos do meu motorista fazem fila na Disney, e quanto ao inverno europeu, outro dia ouvi duas recepcionistas do Clube de Golfe discutir se na próxima estação deveriam deslizar em Aspen ou Curchevel; pode?!

Pode.

Gostaria de ter sido rico trinta anos atrás quando o mundo ainda era dividido entre quem cruzou o Atlântico e quem não ultrapassou o Tietê. Não tive essa sorte. Na época, eu era desses que dava graças aos céus quando o vizinho subgerente do Bradesco aceitava me incluir na caravana para a Praia Grande nas férias de janeiro, mesmo que fosse obrigado a participar das batalhas de areia que tanto agradavam as crianças, Deus deve saber o porquê. Não que eu não sonhasse com o litoral norte ou Ipanema, entretanto retornar à escola com um bronzeado já dizia alguma coisa e eu sempre gostei de me expressar, compreende?

Isso tudo mudou mas, porta-me lá! De que adianta demonstrar que este bronzeado de agora foi adquirido no Pacífico Sul se os amigos da repartição onde trabalhei – e faço questão de preservar – acreditam piamente que o Atlântico banha o mundo inteiro?! Aliás, sou um dos poucos ricos que ainda faz fé num corpo dourado. É que sou anterior ao bloqueador solar. E da feijoada não como só a couve, olha que antigo!

Pérolas aos porcos, se dizia quando eu era pobre. Pérolas aos porcos, eu repito de scoth na mão.

Muita água rolou na cacimba da ascensão social. Todos sabem que antigamente você era avaliado pela família de onde vinha; depois do Omar Cardoso, pela data do seu nascimento (ter um mapa astral nos 80 era chiquérrimo, quem não lembra?), a seguir veio o boom da numerologia (meu grande amigo José da Silva virou Joseph Syllva e sofreu uma severa crise de identidade) e hoje você é o que (não) come. Aliás, comer virou coisa de pobre, logo agora que tenho cacife até para jantar no Tout d´Argent, em Paris; nada de mais, devo esclarecer; um patinho muito do mequetrefe.

Dane-se o resto porque quanto a mim continuo gostando de comer. E um dos hábitos que não abandonei foi uma boa churrascaria. Quer dizer, boa, agora, porque antigamente eu não sabia a diferença entre miolo de alcatra e coxão duro. Saiu fumaça, escorreu sangue, recendeu a sal grosso, não foi furtado nem tá mugindo, está valendo. Determinadas coisas a gente só discrimina com o manuseio. Quando discrimina, que é o meu caso. Mesmo quando pobre sempre fitei os Andes, fazer o quê?!

O problema é que pobre diferenciado sofre mais. Se ressente, sabe?! Pobre que sonha com o lado de lá do jardim ou dá duro pra subir na vida ou vira delinquente. Pertenço ao primeiro grupo porque sou um esteta e nada mais antiestético do que a violência.

Hoje ficou difícil para nós. O ‘menos é mais’ nos ameaça a cada estação; o muro ficou muito baixo. Palavras como minimalismo, clean, cool, me dão urticária, e até a grã-fina mais esnobe da cidade aconselha a mulherada a procurar ‘peças’ na 25 de Março para ‘brincar’ com a produção. Minha senhora felizmente esqueceu a direção deste quartier desde que a informei do nosso primeiro milhão de euros, já faz um tempinho. Pode parecer pedante, mas o esnobismo é apenas parcialmente reprovável; nos contornos, talvez; jamais no conteúdo. E, quanto a tal senhora, uma peça de picanha maturada para quem já a viu batendo por ali sua rica plumagem.

A situação se complica porque se por um lado fica difícil demonstrar quem é quem e dar uma pinta da conta bancária sem parecer noveau-riche (palavrinha mais boçal), por outro não é fácil escalar os degraus de cima e se elevar de vez; a galera que sempre circulou por ali não dá água a pinto e só estica a mão para te receber depois que abriu a última lata de caviar negro do Irã e compreendeu que você, apesar de pronunciar as consoantes finais do francês e ter um papai que palita dentes à mesa, dispõe de fornecedor do tal caviar em pleno mar Cáspio. Não que ache graça nessa patacoada, porém, noblesse oblige a gente aprende logo nos primeiros quinhentos mil euros.

Minha madame aspira a um castelo na França; direito dela, pois não?! Corre por aí que castelo a gente não compra, herda – ou esquece. Outros ainda insistem em dizer que quem nasce pra cangalha não se apruma em cela. Estou avisando geral que ainda esta noite pego meu JET 900 rumo ao Loire porque soube de um aristocrata falido que fará um ‘FAMILIA VENDE TUDO’ neste domingo, que pretendemos de sol.

A patroa merece, eu tenho cacife e, quanto a cangalha não me deixou saudade porque me desperta a ciática, e eu só confio a coluna à uma excelente massagista que tenho frequentado em Bangkok; que madame não nos ouça.

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– Alô!
– Que bom que você atendeu. Tá podendo falar?
– Estou no aeroporto, de saída pra Manaus, lembra?
– Claro que lembro. Quero te pedir um favor
– Diga
– Na verdade, vou te confiar uma missão especial
– Ôba!
– Pesquisei na Internet e me deparei com uma fulana que está vendendo aquela novela inteirinha em DVD
– Aquela?
– Exatamente. Nem tô acreditando. Quero que você dê uma checada pra mim, e veja se não é alguma roubada…
– Certeza que ela conseguiu passar pra DVD? Essa novela é do tempo de Adão cadete…
– Então! É isso mesmo que eu quero que você descubra
– Beleza! Me passa o contato por email, ok? Última chamada pro meu voo
– Brigadíssima. Beijinho. Boa viagem!

  

– Alô
– E aí, muito calor em Manaus?
– Do jeito que o diabo gosta
– Olha, entrei em contato com a tal fulana. Mandei um email pra ela e disse que meu marido está na cidade e vai procurá-la
– Só pra confirmar: teu marido sou eu, acertei?
– Evidente. E você acha que eu escolheria outro?
– Acredito que não. Ainda hoje, depois da reunião, ligo pra ela, ok?
– Tô roendo as unhas. Dos pés. Olha, o pé de jabuticaba tá brotando…
– Mesmo? Ele não tava morrendo?
– Ressuscitou, querido. Não é um bom sinal?
– É capaz. Te ligo à noite; vou voltar pra sala de reunião
– Vai lá. Ôi, tá ouvindo?
– Diga!
– Você ainda é o meu Indiana Jones…

 

– Ainda bem que você ligou. Não agüentava mais
– Peguei o endereço e passei em frente. Tô acabando de vir de lá
– Jura? E que tal?
– Meio favelão, viu? Nem me atrevi a descer do carro nesse horário
– Ah, meu Deus! Barra pesada, assim?
– Não é propriamente o Palácio de Versailles, mas amanhã, de dia, vejo melhor
– Ih, querido, se você achar perigoso, deixa pra lá…esse negócio de Internet…
– Fica fria que Indiana não pretende voltar de mãos abanando
– Meu herói! Acredita que os passarinhos tão comendo as jabuticabas antes que eu consiga pegar?
– Humm, você já foi mais esperta…
– Sabe o que eu sonhei na noite passada?
– Vou saber agora
– A gente ainda era casado. Você voltava pra nossa casa. Chegava aqui com os cinquenta DVDs da novela, botava todos os passarinhos pra correr, colhia as jabuticabas, e a gente vivia felizes para sempre…
– O resto da vida chupando jabuticaba e assistindo novela…Não foi para evitar isso que a gente resolveu dar um tempo?
– Foi só um sonho, bobo
– Ótimo, vou dormir. Amanhã teremos um longo dia
– Teremos. Com certeza. Boa noite!

 

– Oi!
– Você não ligou ontem, que aconteceu?
– O diretor alemão me alugou o dia inteiro. Cheguei quebrado ao hotel
– Nenhuma novidade?
– Na hora do almoço liguei lá. Sondei se poderia conferir os discos antes de comprar. Ela não está acostumada com isso, desconversou. Garantiu que estão em bom estado. Fiquei cabreiro
– Querido, qualquer coisa é melhor do que nada. Essa novela tem um valor afetivo muito grande pra mim, você sabe. E na íntegra, nem posso acreditar!
– Eu sei. Amanhã daremos um jeito nisso
– Escuta, e a voz dela, que tal?
– Nada muito civilizado. Selvagenzinha, talvez. Pisa duro, a fulana, viu?
– Jura?! Bom, pouco semedá. Ela tem um tesouro dentro de casa
– Olha o exagero
– Eu também já tive um, mas entreguei pro Alibabá
– OK, preciso desligar. Te dou notícia.
– Querido…
– Um beijo!

 

Diga lá!
– Achei que nunca mais fosse falar contigo. Onde você esteve todo o final de semana?
– O diretor alemão resolveu descer o rio. Passamos a noite na caça ao jacaré. E o domingo inteiro pescando
– O IBAMA não proibiu a caça ao jacaré?  
– Para os gringos, tudo. Para os brasileiros, a lei.
– O domingo inteiro pescando?
– Precisava ver a euforia do gringo quando fisgou um tucunaré
– E os DVDs, ainda nada?
– Juci deu um pulo em Parintins e ainda não voltou
– Juci?! Quem é Juci?
– A moça dos DVDs, ora essa…
– Ah, Jucicleide, a selvagenzinha…
– Essa mesma. Mas, me conta aí, e as jabuticabas?  
– Na mesma. Os passarinhos continuam dando olé!
– Bom, a gente vai se falando…
– Escuta, até quando você pretende ficar por aí?
– Até concluir minha missão, esqueceu? Indiana rides again.
– …
– Agora só saio daqui com esses discos. E quero te entregar em mãos.
– Humm…e o calor?
– Uma delícia, garota, uma delícia!

 

– Alô!
– Faça-me o favor! Duas semanas sem dar sinal de vida…
– O diretor alemão se encantou pela Amazônia e resolveu conhecer a floresta. Me levaram junto
– Duas semanas no meio do mato?!
– Você acha muito? Por acaso se esqueceu do tamanho daquilo lá?
– Que notícia você me dá dos meus discos?
– Pedi pra Juci regravar a segunda parte inteira. Estava tecnicamente lamentável.
– Você esteve com ela, então?
– Sim, fui até o estúdio de gravações
– Estúdio? Mas aquilo não era um favelão?
– Tô querendo ser gentil…
– E…que tal ela?
– É como te falei. Um tanto selvagem. Lábios roxos. Tipo açaí. Uma delícia!
– Você provou?!
– Provei?! …Ah, o açaí, evidente. É o que não falta por aqui
– Escuta. Parece que a jabuticabeira tá secando outra vez
– Cuide bem dela. Preciso dormir. Estou exausto.

 

– Fala!
– Eu posso saber o que está acontecendo por aí?
– Você não recebeu os DVDs?
– Como assim?
– A Juci te enviou pelo correio
– Mas você não vinha me entregar em mãos?
– Achei que você tinha pressa
– Pelo visto você é que não está com pressa nenhuma…
– …
– Mais de um mês enfiado nesse buraco. Não me diga que você passou esse tempo inteiro refazendo os discos com a JUCI
– Mudança de planos, darling.
– Se eu soubesse que essa missão te daria tanto trabalho, nem tinha falado sobre isso
– Não fale assim. Foi tudo providencial. E ainda hoje, mais tardar amanhã, você terá sua novela, na íntegra, a seu dispor, olha que show!
– Resolvi trocar a jabuticabeira. Aquela lá não foi pra frente mesmo. Passei no CEASA e trouxe uma já com as frutinhas. Precisa ver
– Vai demorar um pouco porque resolvi dar uma esticada
– Esticada?
– É. Cruzei o Atlântico.
– Eu bem que desconfiei. A novela foi só uma desculpa. Você viajou com a JUCI?
– De onde você tirou essa idéia? A Juci é selvagenzinha demais, não falei?
– Você está aonde, afinal?!
– Em Berlim, querida. Lembra do diretor alemão?!

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– Meu, na boa, tô achando difícil teu blog bombar, com essa vybe careta.

– Não entendi…

– Tu tá a fim da minha opinião verdadeira, confere?

– Evidente; te chamei pra isso.

– Então, vou logo avisando, tá meio esquisito isso aqui.

– Esquisito?!

– Pra ser gentil.

– Não gostou de nada, então?

– Não é que não gostei de nada, mas essa tua cabeça vintage tá desorientando o pacote inteiro.

– Ok, mas vintage não tá na moda?

– Só quando é intencional, pra ficar cosy. Caretice é outro lance.

– Não entendi…

– Tu precisa zonear o teu público e saber pra quem escreve.

– Mas eu escrevo pra mim mesmo, ora. Isso aqui não é profissional…

– Profissa ou não, se quisesse escrever pra ti mesmo não tinha inventado um blog, hellooo!!!

– Ok, então digamos que eu escreva pra pessoas como eu. Sabia que todo escritor tem seu leitor ideal?

– Para isso é necessário saber quem é o teu leitor. Isso aqui tá carecendo de criatividade. Tu precisa identificar teu leitor e blindar a galera.

– Blindar?!

– Num tô dizendo que tu tá por fora? Blindar é o termo que se usa hoje em dia pra segurar tua fatia do mercado, anotou? Toda empresa que se preza precisa seduzir e blindar o cliente.

– Empresa?! Acho que você tá levando muito a serio um reles entretenimento…helloo digo eu!!!

– Poupe-me da falsa modéstia, honey. E se preferes ficar nos clássicos, vamos de Bíblia: ‘vaidade das vaidades, tudo são vaidades…’. Você não seria a Madre Teresa da informática, correto?

– …

– Acho que tá faltando humor por aqui. E tem poesia demais. Os tempos são menos nhémnhémnhém, não percebeu?

– Por isso mesmo é que resolvi levar por aí. Você não gostaria de um refresco de vez em quando?

– Bem verdade que um chope gelado refresca bem mais que um blog com gelo, tá ligado?

– Você está de má vontade…

– Falta definição. Tem poesia e textos demais mas não é um blog literato. Pisca pro humor mas anda longe de uma soap opera. Assim, tu promete um bocado mas entrega pouco, captou? O leitor se manda rapidinho.

– Você esqueceu do título lá em cima? Cotidiano, Crônicas e Reflexões. Isso me permite passear à vontade…

– O passeio eu já percebi, e até circulei um cadiquinho, só não consigo entender é o destino. E outra: esse título é redundante e majestoso. Mais blasé do que isso só pão com manteiga na chapa.

– Alguma sugestão?

– Precisa ser mais informativo, mais direto, sacou?  Por exemplo, sigo um blog descoladíssimo que chama Pinto, Bordo, Chuleio e Costuro Pra Fora. Tá na cara do que se trata, right?

– Corte e costura?!

– Assim fica difícil, mano. Seja mais criativo; pensa aí, vai. Olha esse outro, um verdadeiro hype: Penso, Logo Esqueço. Vai dizer que é filosófico, não é? Descartes. Nada disso. Aludindo ao Alzheimer e senilidades em geral, o blog trata das baladas mais descoladas da Alemanha, não é sacadérrimo?

– UAU, chapei!

– Você sabe que nenhuma night bomba mais que a de Berlim. E o mundinho todo tá plugado na city.

– Agora tenho certeza que você está no lugar errado. Eu aqui falando de um rio que corre estrelas, e você sugerindo que eu divague sobre a night de Berlim.

– Malandro, a última figura interessante que mergulhou em um rio tupiniquim virou banquete de piranha, tá maluco?!

– Você acha mesmo minha escrita muito careta?

– Se tu escrevesse no início do século passado seria moderníssimo…

– Tô assim tão démodé?

– Démodé?! Pior do que essa só quando tu me veio com um ‘fiacre na noite’, pra falar do outono. Ninguém que não tenha frequentado a corte de Luis XVI entendeu o bagulho, Mon Petit.

– Entendi. Você prefere que eu escreva tipo uma balada, tipo uma roubada, tipo isso, tipo aquilo…e não enfatize coisa nenhuma…fique bordejando.

– FIQUE O QUÊ?

– Bordejando, dando voltas…você entendeu, deixa disso!!!

– Não prefiro nada. Apenas sugiro que tu não invente alta costura em tempos de prèt-a-porter. Nem alfaiate você é…caiu em cima da cabeça?!

– Alguma coisa está muito errada por aqui. Eu quero exatamente o contrário do que você está dizendo. Estou sempre de olho é na simplicidade. Você é que tá querendo sofisticar a coisa com estes termos que meia dúzia de gente sabe o que significa.

– Tu precisa aprender a surfar sobre as palavras, bro. Hoje nada é definitivo, percebe? Quando neguinho fala ‘tipo uma bola’ tá querendo dizer, no máximo, que é redonda. E quando o outro informa vou estar transferindo…vou estar verificando…vou estar solicitando…percebe que ele tá tirando o corpo fora, evitando o compromisso? Surfando, enfim. Por cima. De longe. Na nice.

– Saquei, bro! O problema é que não sou do tipo que vai estar informando ou vai estar escondendo. Eu informo ou não, escondo ou não. Sou anterior ao gerundismo, olha que antigo…

– Sendo assim, sugiro que você se ofereça como colunista do blog da Academia Brasileira de Letras…

– Quem te ouve falar imagina que isso aqui contém os alfarrábios do latim, ou que eu fui alfabetizado com a taboa de Moisés…

– Pra mim, depois das seis da tarde é boa noite. No segundo fiacre, neguinho pega carona e nunca mais volta por aqui. Só no sapatinho…

– OK, tô ligado. Vou ficar esperto. Se te chamei foi porque queria te ouvir. Vou ver o que se pode fazer e volto a te chamar outra hora. Agora dá licença que o menino tá chorando, vou ver por onde anda a chupeta.

– Vá de boa mas, se liga, e não macula com teus dígitos impuros o mamilo sintético da criança… SACOU?!

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