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Archive for the ‘exercícios da oficina’ Category

Estava recostado no alpendre da nossa casa na rua do Ribeirão, em Crateús, vizinho a Juazeiro, quando parou o fiacre, vindo da direita, e o cocheiro saltou, tirando imediatamente o chapéu de feltro cinza onde se distinguia uma faixa de seda e algum adorno de metal, indecifrável à visão do lado de cá. Ele saudou com acentuado sotaque nordestino ‘ô de casa!’, e eu franzi a testa, um tanto para equalizar a claridade, outro tanto pelo inusitado da cena. No interior do Ceará estava acostumado com cavalos, carroças, jegues, uma ou duas charretes e uma meia dúzia de automóveis; o fiacre à minha frente só conhecia dos livros com os quais padre Argemiro Buriti tentava domesticar minha estupidez de matuto.

‘Xente, quem vem lá?’, indaguei, dando um tranco na cabeça como me desentalasse do caroço de um mulungu, e não precisei de resposta porque, incontinente, a cortina de renda lilás foi aberta e reconheci por trás das luvas brancas que a descerravam, o semblante altaneiro de Oriane, a senhora de Guermantes, que movimentou a cabeça em um breve cumprimento, fazendo mover com suavidade o rendilhado do seu chapéu cor de fogo.

Não conhecesse a palavra incrédulo diria: fiquei passado! – bendito padre Argemiro Buriti, que vive cercado de palavra bonita e deixa um tanto por aqui pra eu usar. Botei o pé com a sandália de couro no primeiro degrau e observei: o cocheiro estendeu a mão com uma reverência, e ela, sem tirar os olhos de mim, se apoiou com a mão enluvada, cujo branco resistia ao poeirão do agreste.  O vestido estava prestes a arrastar no chão, porém, com um movimento delicado, ela levantou o tecido da saia e, usando ambas as mãos, o sustentou na cintura, compondo a figura mais graciosa que havia visto, permanecendo assim em plena calçada da rua do Ribeirão 132, da pequena Crateús, às doze horas e vinte e dois minutos de outro dia escaldante nesse sertão. Um galo velho, assistindo de cima do muro, cantou deslumbrado, enlouquecendo o funcionamento de todo o povoado, que tinha nele seu relógio de ponto.

O cheiro da buchada transpassou a parede da cozinha acolá, o pequeno corredor logo ali e a sala cimentada aqui atrás, chegando ao alpendre, e eu o respirei com prazer e constrangimento. O prazer porque sou doido por buchada de bode, e o desconforto porque nos sete volumes da Recherche, de onde saiu a dama, não vi uma única citação a essa iguaria em qualquer jantar no salão dos Guermantes, e olha que essa gente comia pra danar. Com esse prato, e à toa no alpendre, eu estava à espera de Shirley Valentine, com quem dividi uma cerveja na Grécia há um tempão, e a quem recebo com alguma freqüência, desde que a gordinha se engraçou pelas tripas de bode servidas minutos antes de desfrutarmos aquele inesquecível pôr do sol no Egeu – eu fazia um bico de garçom, juntando dinheiro pra retornar à minha terra, de onde prometi nunca mais tirar o pé, o caminho do feio é por onde veio.

‘Bonjour Monsieur’, a voz de Oriane era o licor que nunca cheguei a tomar, e ela chegou tão próximo a mim, que consegui distinguir seu hálito de manjericão em flor do cheiro potente da buchada. A negra Corina chegou ao alpendre suando e enxugando as mãos, e a bela senhora sorriu, encantada com as duas tranças de linha amarela descendo pelo rosto da boneca pretinha bordada no avental sujo de molho de tomate e jerimum.

‘Dona Shir…’ – Corina suspendeu a fala ao perceber que se enganara, e a senhora de Guermantes, estendendo-me as mãos, falou, sem piscar o olho de jabuticaba: ‘sabes por que vim de tão longe, mon amour?’, e diante de minha cara de sinhá-mariquinha-cadê-o-frade, continuou, com aquela voz que só as francesas conseguem fazer: ‘você non valê nada mais eu gostô de você!’.

Um relâmpago ensandecido riscou o céu do sertão, e o acordeom francês entoou com arranjos de la vie em rose uma aquarela nordestina.

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