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Archive for the ‘exercício ‘escrita criativa’’ Category

No terreiro, ao lado da cozinha de sapê, Ana Bolena fia o linho, enquanto Beija corta as cebolas para a maniçoba e o muçuã, sentada à mesa de jacarandá. Mônica, picando o alho e os cheiros verdes, reclama deste nome contemporâneo, em desacordo com a cortesã européia que vibra embaixo do seu bustiê cor de sangue, o calor de janeiro.  ‘Apenas você, Zélia Cardoso, reluta em aceitar: sou a Madame de Pompadour que retornou para retomar seu posto e fazer outra faxina em Paris; só me falta descobrir onde foi parar Luis XV, se é que não emboiolou de vez.’ – e peneirou o xerém com toda a graça, requebrando as cadeiras e morrendo de rir; ‘bota reparo na fuselagem’, arrematou, com uma mão na cintura, depois deixou a peneira sobre a mesa e levantou a jarra com o suco de taperebá, ‘quem vai querer?’.

Xica confirma com a cabeça e oferece a taça sem tirar os olhos da galé no lago acolá, e Camilla Parker chega afobada, estancando ao pé do limoeiro ao lado. ‘Esqueceu de acionar o trem de pouso?’, Zélia provoca, mexendo na lenha para aumentar o fogo, cozinhando o tucupi que vai regar o pirarucu e o tucunaré. Uma lufada de fumaça preta sobe do fogão e Camilla recua para proteger o vestido branco que lhe desce até os pés. ‘Mania de cozinhar nesse fogão de lenha. Vocês parecem mulher de harém à espera do sultão, coisa mais antiga!’. ‘Deixa de sermão e senta pra aferventar o jambu; os patos tão no fogo; depois, junta as carnes com a maniva; vem bater tua plumagem por aqui, caminha!’. Zélia Cardoso tem autoridade na palavra, e sabe o que quer. Camilla, contudo, também tem verve e não admite ser mandada: ‘abaixa as asas, Zélia Cardoso, senão vou acionar as turbinas, e você não tá com teu cinto de segurança afivelado’.

‘Deixem disso, meninas’, Marylin atalha, soprando longe a fumaça que tira da piteira de marfim, violeta do açaí que acabou de tomar; o olho no galho mais alto do limoeiro, onde Flap, o papagaio cheio de cor, assobia o happy birtday que a enleva, e ela lembra do bolo, da voz de mormaço e sai bailando devagar até o fundo do terreiro, onde a orquestra de mariachi ensaia o Besame Mucho que Zélia pretende dançar daqui a pouco, quando entrar por aquela porta o seu par.

E são todos eles aguardados: John, Antônio, Henrique,  o tratador João Fernandes, Bill, Ovídio, Charles, ah como é bom esperar a felicidade; a própria Zélia rodopia no terreiro, apertando contra o peito a tigela de vidro onde está o creme de cupuaçu pelo qual Bernardo é capaz de pôr em risco família, poder e empáfia.

A mesa é posta, a toalha de renda branca esvoaçando ainda, talheres de prata, margaridas colhidas agora, dois castiçais de cristal, elas são o reverso do comum, aqui os caranguejos para o toc-toc, as ferramentas de bater, e sobre a arca de veludo grená, o velocímetro e a bússola que os guiará até aqui; onde o altímetro? O rádio mudo da vó Ana sobre a cristaleira, ao lado da máquina de fiar, e As Meninas, do Velasquez, pendurado no mourão.

Súbito, um trote, e logo a poeira dos cavalos invade o terreiro, erguendo uma nuvem do chão, e todas se entreolham, mas já? Ninguém ainda se lavou, nem penteou os cabelos, passou as anáguas, que fome é essa, Senhor?

Vai assentando o pó, e elas recuam devagar, assustadas, abanando com as mãos para enxergar melhor, quem são essas daí? Ana Bolena levanta da fiandeira e vai ao encontro das outras, emparedadas, mas já pisando com força no chão, compondo aos poucos um círculo de serpente, à medida que as amazonas apeiam, igualmente devagar. E, desfeita a nuvem de pó, vão reconhecendo uma a uma as mulheres, que não foram convidadas para esse banquete:

Hilary vem a frente, com as mãos na cintura, seguida por Jackie e seu chapéu em shantung grená, meu Deus como é lindo, Marylin observou, a Sra Fernandes de mãos dadas com a Sra Cabral, a rainha, todas elas, e lá atrás, Diana fulmina Camilla, indignada com o excesso de peso da cortesã.

O céu, há um segundo azul, torna-se chumbo, e Flat tenta escapar do limoeiro.

As vinte mulheres se postam frente a frente como fossem dançar uma quadrilha, acendem um braseiro nas ventas, e a tempestade vermelha desaba sobre a tela inteira.

O radar meteorológico havia previsto bom tempo.

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Desta vez o ‘dever de casa’ no curso de Escrita Criativa foi contar uma história conhecida, pelo prisma de um personagem coadjuvante – podia ser uma única cena. Pensei inicialmente em Madalena e Salomé (e a cabeça decapitada do João Batista), em Sansão e Dalila (olha os circos-teatro de minha infância), o Ébrio, pelo prisma do cotovelo (conhece cotovelo de ruela?). Olha onde fui parar:

‘Adianto que não nasci sapatinho de cristal, antes, um vaso de bom parecer. Longo e fino; elegante, porém imóvel, a pior sina. Meu destino é a rua, os logradouros, o usufruto do IPTU, foi cedo que descobri; igualmente cedo percebi que não havia com quem trocar figurinhas, e locomover-me, ai de mim!

Quem me comprou – em priscas eras – foi um homem bom e justo, porém omisso -homens deste tipo costumam produzir veadinhos os mais graciosos, alguém viu o bambi por aí? E sua viúva, ao lado das duas filhas, lobas em pele de cordeiro, ou por outra, biscas da melhor qualidade. Ele nem chegou a perceber, abalroado pelo excesso de cores e os perfumes demasiados – para não falar no tilintar dos brincos e pulseiras. As peruas funcionam numa tal velocidade que a tudo fazem calar e, assim, o mundo segue girando na ação vertiginosa de uma jogada destes cabelos lisos e loiros, por vezes fogo, outras tantas ébano, mas sempre eloquentes. Nestes arranjos familiares o motor do mundo segue o padrão das labirintites, argh!

A vantagem desta posição imóvel é que posso narrar os fatos do ponto de vista, digamos, oriental: o silêncio é poder concentrado.

Minha única companhia é a menina Cinderela, bela e só. Não fosse por ela jamais teria acolhido uma tulipa vermelha, uma rosa amarela, uma estrelícia então…A madrasta e suas filhas sempre preferiram flores de plástico que, além de durar mais, custam menos e não juntam mosquito, é mole? Detalhe: sou alérgico a estes sintéticos. É, não falei para ninguém que o paraíso era aqui, portanto, tirem as criancinhas da sala.

Cinderela, minha Cinde, é uma garota bastante interessante; tolinha, vez em quando, avoada, outras tantas, entretanto isso se deve mais à falta de oportunidades do que a defeito de fabricação. A madrasta não deixa a garota sequer descansar o cotovelo na janela – qual é a molecota que não aprecia esse programão?! – nem cruzar o batente da porta – e isso lá é vida?!

Assim, ficamos os dois, eu em cima da cristaleira, mudo como um sapo-rei,  e ela na namoradeira – tirem as vovozinhas do alpendre – enfiando peido no cordão. Somos ambos lindos e inalcançáveis. Ela, afeiçoada a mim, adquiriu o hábito de me levar consigo pelos ambientes do casarão, feito bilha.

But…sempre um but…o rei anunciou uma balada no Castelo Encantado, a fim de encontrar uma pretendente para o seu varão, prestes a dobrar o Cabo do Bojador e ainda solteiro, tamanha a esbórnia do dolce far niente. Isso vai bombar, pensei com meus botões, digo, com meus óxidos de chumbo, e procurei os olhinhos azul-piscina de Cinde, mas agora ela só tinha olhos para aqueles passarinhos, esquilos e até um ratinho pentelho, não falei que a fofa era meio nerd?

Mal rolou a notícia pela casa, foi um alvoroço, vocês sabem como as meninas farejam de longe uma testosterona, ainda mais da realeza. Cinde, que não tava morta nem nada, tentou bater sua rica plumagem, porém a madrasta foi definitiva: Gabô, você só vai a este baile se conseguir lustrar toda a prataria, encerar o chão, regar o jardim, preparar a ceia, desfazer os nós dos cadarços e calar a boca do Faustão.

Para quem não entendeu, Gabô é um jeito carinhoso de se referir à alcunha da Cinde: Gata Borralheira

A garota balbuciou: ‘mami, será que entendi direito?!’, e passou a mão pela cabeleira para se certificar da cor. ‘isso mesmo, chèrie, mas fica fria, que tá facinho, facinho’. A coruja de mármore resmungou, impassível, do aparador: ‘te vira nos trinta!’.

Resumindo porque temos pouco tempo: duas horas depois, a velhota e suas moçoilas desciam, empavonadas, a escadaria do casarão, enquanto Cinde tentava desfazer o segundo nó do cadarço, sentadinha no borralho.

Desistiu.

Vendo a menina enrodilhada no sofá, agora assistindo ao Zorra Total, o ratinho camarada comentou: ‘é, bebezão, uns têm dita, outros caganita’. A doce Cinde franziu os lábios e uma furtiva lágrima aflorou em seus olhos azuis, rolou prum lado, rolou pro outro, sem conseguir despencar, a gata não era, igualmente, um oceano de sensibilidade; nossa intimidade me mostrou.
Eis que, senão, quando, a madrinha gorducha da garota, que nunca havia dado as caras por aquele reino, resolveu dizer a que veio e, pluft, apareceu no meio da sala, como se nunca tivesse saído dali.

‘Fica fria, Cinderela, que a madrinha não é o He Man mas também tem a força’. E, vapt, transformou seu pijama de bolinhas em um belo vestido de baile, aplicou um laquê no cabelo e adornou com uma tiara de diamantes, pegou uma abóbora que estava guardada para um bobó e zoooom, transformou numa carruagem ma-ra-vi-lho-sa, rodopiou a varinha de condão e aqueles inúteis se tornaram cocheiro, segurança e manobrista, de gravatinha e tudo. Eu mal conseguia acompanhar a performance da gorda, tamanha a destreza. A coruja, de cima do aparador, arrotou: é, toda araruta tem seu dia de mingau; vai que é tua, tafarel! 

Foi quando o anão do jardim ao lado percebeu que a gatinha continuava usando a meia soquete puída no calcanhar, e todos levaram a mão à boca: ohhh, nããão, isso nããão. E, então – que soem as trombetas! – os olhos da gorducha se voltaram para mim e sssssss…….plaft…….truummm……lá estava eu nos pés de cinderela, prontinho para ganhar os espaços públicos e chegar ao castelo do rei. Juro que não acreditei, espreguicei inteiro, me belisquei, quase cheguei a trincar. Passada a euforia inicial, me ocorreu que um sapatinho de cristal não deveria ser a coisa mais confortável para aqueles pés que tanto aprecio, porém, quer saber, estamos em guerra, que vença el mejor!

Lá fomos nós. Nem vou contar tudo o que aconteceu a partir daí porque é de conhecimento público e já ultrapassei em várias laudas o espaço que me deram aqui. Em duas palavras: Cinderela arrebentou. Em três: foi, viu e venceu.

Finalizo afirmando que na via-sacra que durante dias realizei com o príncipe – hoje nosso Rei – sobrevivi a chulé, esporão, calo, micoses, rachaduras no calcanhar e otras cositas que convém suprimir para não melar a história que vinha tão bonitinha, contudo retornei belo e poderoso para os pés mais delicados de todo o reino.

Humm….Não é exatamente verdadeira esta última afirmação – experiência é posto –  entretanto não serei eu a macular a honra de…….bem, deixa pra lá que hoje é sábado de aleluia, vai rolar o maior bafão no Castelo Encantado e a madrasta malvada – diga-se de passagem, os pés mais bacanudos de todo o reino – ainda nem me lustrou.

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