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Archive for the ‘Excertos de Livros’ Category

Tive acesso `a correspondência da Marquesa du Deffand, uma das penas mais afiadas que o céu parisiense já cobriu. Extasiado com o que li, selecionei este trecho de uma carta escrita para…bem, vamos `a carta:

O espírito da Sra Duquesa de Chaulnes é tão singular que é impossível defini-lo; só pode ser comparado ao espaço; tem deste, por assim dizer, todas as dimensões, a profundidade, a extensão e o nada; assume toda sorte de formas e não conserva nenhuma delas; é uma abundância de ideias, todas independentes uma da outra, que se destroem e se regeneram perpetuamente. Não lhe falta nenhum atributo do espírito, e pode-se dizer, porém, que ela não possui nenhum, razão, julgamento, habilidade, etc. Percebem-se nela todas essas qualidades, mas à maneira da lanterna mágica; desaparecem à medida que se produzem; todo o ouro do Peru passa por suas mãos sem torná-la por isso mais rica. Desprovida de sentimento e de paixão, seu espírito não é mais do que uma chama sem fogo e sem calor, mas que não deixa de difundir uma grande luz.

Todos os objetos a atingem, nenhum a prende ou fixa; as impressões que recebe são passageiras. A extrema atividade de sua imaginação faz com que ela se abandone sem exame e sem remédio a todos os seus primeiros movimentos. Ela se empenhará numa aventura galante e desta se desligará com tanta precipitação que poderá perfeitamente esquecer até o nome, até a figura de seu amante. Se entrar em alguns projetos, em algumas intrigas em que seja necessário agir, o ardor, a inteligência, a habilidade, nada disso lhe faltará, e ela poderá contribuir para o sucesso; mas se as circunstâncias exigirem paciência, inação, abandonará logo a empreitada.

Jamais se ocupará nem se interessará pelas coisas que exijam algum tipo de esforço; as ciências mais abstratas são as únicas pelas quais sente atração, não porque lhe iluminam o espírito mas porque o exercitam. Não é em absoluto à sua juventude que se pode atribuir seus defeitos; eles não são o efeito de suas paixões: sua alma é insensível, seus sentidos raramente são afetados; nada, ao que parece, deveria opor-se nela à reflexão; mas esta é uma operação do espírito demasiado lenta; aí entram lembrança e previsão, e ela nunca vê mais do que seu instante presente.

Facilmente se concluirá que não há nada a dizer de seu caráter; ele é e será sempre conforme sua imaginação ordenar. A Sra Duquesa de Ch… é um ser que não tem nada em comum com os outros seres, a não ser a forma exterior. Tem o uso e a aparência de tudo, e não tem a propriedade nem a realidade de nada.

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Estou lendo A Vida Modo de Usar, do Georges Perec. É um livro interessante e criativo. E, interessante, essa palavra que a gente nunca sabe exatamente o que quer dizer, aqui se aplica bem. O que chamo de interessante é, assim, uma passagem de olhos, sabe? um meio sorriso, um certo agrado, uma descoberta, alguma percepção. Interessante não quer dizer exatamente bonito, nem bom. Muito menos agradável. Ou valoroso. Não. Interessante quer dizer unicamente: é isso aí!

Olha ese trecho da abertura (ele chama preâmbulo): o puzzle, apesar das aparências, não se trata de um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzles, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro. 

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Veja como Rubem Figueiredo apresenta sua personagem no conto ‘Alguém dorme nas cavernas’. Gosto muito:

“Quando vi Raquel, desde a primeira vez notei como era elástica, viva, uma espécie de bicho. Mas não um cabrito. O sol comemorava na sua pele. Raquel saía dos rios, das cachoeiras, e parecia que estava chegando naquele instante, como se a água e a areia cristalina do fundo tivessem fabricado uma mulher viva.

Raquel amava a água. Ao ar livre, quase só me lembro dela molhada.

Raquel estava no jardim pegando chuva, virava o rosto para o céu, ria, mexia os braços, girava para um lado e para o outro, como se quisesse pegar toda a água para ela.

– Ah, é uma delícia! Vem!”

É que acho a narrativa fluida – como água.

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Em uma certa data, que só alguns sabem qual é, todas as águas do mundo desaparecerão. Serão substituídas por uma água diferente, que fará os homens enlouquecerem. Só um homem  acreditou nessa profecia e guardou a água antiga num reservatório secreto. Um dias as águas de fato secaram, rios, lagos, tudo. E depois veio outra água. Logo o homem comprovou que seus semelhantes estavam falando e pensando  de uma maneira completamente diversa da anterior. Nem sequer lembravam o que tinham sido antes.

Quando tentou conversar com eles e explicar o que havia acontecido, o homem compreendeu que o julgavam louco. Tinham pena, tinham medo, mostravam-se hostis. Ele continuou a beber apenas a água velha durante algum tempo. Às vezes, na sua solidão, chegava a se debruçar na beira dos riachos e encher as mãos em concha com a água renovada. Parecia igual à antiga, fresca, clara. Talvez possuísse até um encanto maior. Mas ele não tinha coragem de provar e deixava que ela escorresse entre os dedos.

Comportando-se de maneira diferente dos outros, sua vida se tornava cada vez mais triste e chegou a desconfiar que estivesse de fato louco. Um dia, sem poder mais suportar o isolamento, resolveu beber a nova água e logo se tornou igual aos outros homens. Esqueceu a profecia, esqueceu a água que havia armazenado, e os outros passaram a olhar para ele como um louco curado por um milagre.

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Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque – porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.

E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.

E eu tenho. Eu sempre terei. É só precisar, que eu tenho.

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noemi jaffe

deus, que está no ar, que compõe o sopro, que sai da boca para apagar a vela, aumentar a chama, aliviar a dor: não faça nada, não te peço. seja isso e não apareça, não redima, não conceda. seja somente o ar que sai de mim, que infla o sopro e que apaga a vela.

 

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Em Minha Querida Sputnik:

Muito tempo atrás, na China, havia cidades circundadas por muros altos, com portões enormes, suntuosos. Os portões não eram apenas portas que permitiam a entrada ou saída das pessoas. Eles tinham uma grande importância. As pessoas acreditavam que a alma da cidade residia nos portões. Por isso, até hoje, na China, há uma porção de portões maravilhosos ainda de pé.

As pessoas levavam carretas aos campos em que se travaram batalhas  e coletavam os ossos descorados que haviam sido enterrados ou que se espalhavam por ali. A China é uma bonita região, um monte de antigos campos de batalhas, por isso nunca precisaram buscar muito longe. Na entrada da cidade, construíam um portão imenso e o vedavam com os ossos dentro. Esperavam que, homenageando-os dessa maneira, os soldados mortos continuariam a proteger a sua cidade.

Quando o portão era concluído, levavam vários cachorros, cortavam suas gargantas e borrifavam o portão com seu sangue. Somente misturando sangue fresco com ossos exangues, a alma antiga dos mortos reviveria magicamente.

Escrever romances é a mesma coisa. Juntam-se os ossos e faz-se o portão, porém não importa o quão maravilhoso se torne, só isso não o torna um romance vivo, que respira. Uma história não é algo deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico para ligar o mundo deste lado ao mundo do outro lado.

– O que está querendo dizer é que devo partir sozinha e encontrar o meu próprio cachorro?

Concordei com um movimento da cabeça.

– E derramar sangue fresco?

Sumire mordeu o lábio e refletiu.

– Eu realmente não quero matar um animal, se puder evitá-lo.

– É uma metáfora – disse eu – Não precisa matar de verdade coisa nenhuma.

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