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Archive for the ‘estetoscópio’ Category

janela

84 anos, primeira consulta comigo. Articulada e atenta. Lá pelas tantas percebi que fazia uso de uma medicação antipsicótica.

– Faz tempo que a senhora usa esse remédio?
– Uns seis meses.
– E por que, exatamente?
– Meu juízo fugiu e me deixou maluquinha dentro de casa. O remédio foi atrás, trouxe ele de volta, mas de vez em quando ele ainda escapa pela janela.
– O que a senhora acha de fechar a janela?
– Dá muito certo não, doutor, porque eu não aguento ficar o tempo todo com o juízo dentro da cabeça.

Nem eu.

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combustão

A filha acompanhou a mãe de oitenta anos à consulta: crise hipertensiva.

‘É emocional. A mãe anda muito triste e calada. Isso só pode fazer mal, explique à ela, doutor’

‘A senhora tem andado triste, dona Dina?’

‘É um sentimento que vai queimando a minha pele de dentro pra fora, doutor. Queima, queima, queima, até estourar a temperatura da minha pressão. Meu corpo até que é são, mas a minha alma vive ardendo numa fogueira sem fim. Por isso nem chamo tristeza. É mais assim uma combustão do espírito’.

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leitura

Ela veio sozinha à consulta; está em forma aos 75 anos. Lá pelas tantas, percebi que se confundia com a medicação e a compreensão da receita. Perguntei: ‘a senhora sabe ler?’

‘É pouco, viu, doutor?! Só conheço a leitura da inteligência. A do raciocínio das letras, só mesmo pra assinar o nome, não passar por besta nem errar o caminho das ruas’.

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borboleta

Chegou ao consultório em crise hipertensiva. Assintomática. Amanhã fará 80 anos. Perguntei o que estava sentindo. ‘Nada de grave’, respondeu. ‘A hipertensão é de fundo emocional e estou ansiosa pelo aniversário. Minha pressão é uma borboleta muito jovem, viu doutor? Basta eu sentir qualquer emoção mais vibrante, ela bate asas e voa, voa, voa, até alcançar a cumeeira da casa. Ainda não morri porque não tenho medo de altura. E adoro voar’.

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pecado

Aos 81 anos ela entrou no consultório com um bom dia discreto. Vestia saia até o joelho, camisa de listras azuis, rendilhado na gola e nos punhos. Sapato fechado. Desde sempre magra, comentou na consulta passada e na anterior. Entregou o papel do dextro, que mede a glicemia. Estava elevada. Confessou pão francês com manteiga, bolo de fubá e doce de caju. Lembrei-a da dieta e dos perigos da hiperglicemia. Ela falou vou melhorar, e se desculpou, infantil. Procedi ao exame. ‘Essa mancha não me preocupa, senhora’, tranquilizei-a e ela fechou os botões da camisa. Aviei a receita, estendi a mão, encerrei a consulta e brinquei: ‘Vai em paz e não peques mais’. Ela me olhou com olhos de flecha: ‘Peco muito nao doutor’. Levantou, se firmou na bengala, deu dois pequenos passos em direção `a porta, se voltou devagar, me olhou novamente e falou com discreto sorriso: ‘Eu só peco um pouquinho quando venho aqui. E você sabe’.

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catarata

Doutor, desculpa falar, mas o senhor tá tão bonito!
São seus olhos, dona Esmeralda, são seus olhos.
Ih, foi bom o senhor lembrar. Me faça um encaminhamento pro oftalmologista, que eu tô mesmo ficando ceguinha.

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cambraia de linho

Ela entrou portando bengala e oitenta e nove anos. A coluna ligeiramente angulosa, o olho curioso sobre mim, um jeito à vontade. Puxei a cadeira pra ela sentar. Ela escorreu uma mão de cambraia pelo meu jaleco branco.

‘Como vai a senhora?’

‘Assim assim. Isso é que nem um vaso de planta, doutor. Quando a flor tá aberta, tô na rua. Quando murcha, vou pra cama esperar a próxima florada. Ainda não parei de florir, o senhor vê?’

Vejo sim. E inspiro, inspiro, inspiro…

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