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Archive for the ‘Crônica’ Category

Incrível a utilização que as pessoas fazem do tempo. Em menos de 4 meses, Marco Feliciano, à frente da Comissão dos Direitos Humanos, alimentou ignorâncias e fomentou preconceitos numa performance que, não fosse perniciosa, seria basicamente surrealista e patética. Feliciano tem, para o cargo que ocupa a mesma qualificação que eu apresento para pilotar o Boeing cargueiro 747-8F que pousou no dia 28 de maio passado em Viracopos, tornando-se o primeiro avião cargueiro deste porte a aterrissar naquele aeroporto.

Os procedimentos de Feliciano neste curto espaço de tempo depõem contra qualquer senso ético ou humanitário e representam uma bomba MOAB dirigida aos princípios mais elementares de cidadania e contemporaneidade, eita Brasil!

O pastor tem todo o direito de permanecer no púlpito de sua igreja, trocando aleluias com seus pares, entretanto não é admissível que o presidente da Comissão dos Direitos Humanos transforme sua plenária num templo alienado e ensandecido, ressuscitando alguns dos espectros mais abjetos da maravilhosa e miserável trajetória humana. Nego-me a ecoar hosanas a este desvario.

A tia me pede calma lembrando que ‘os maus por si se destroem’. Eu, entretanto, que ainda não alcancei a sua sabedoria, espero que os recentes pronunciamentos de entidades, cujas vozes repercutem mais do que a minha, sejam suficientes para entregar o Boeing cargueiro a quem esteja qualificado para conduzi-lo. Lembrando que – valha-nos Deus – a primeira qualificação para o cargo é exatamente respeitar os direitos humanos que seguem a bordo.

Do contrário – e felizmente – nós já aprendemos o que fazer. Ou será que ainda não?

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outono

O outono chegou com seus pinceis e a luz.

Agora a iluminação será de baixo pra cima, detalhes, veremos o tom e as matizes, sem omissão ou exagero. O sol civilizado, a temperatura sem os excessos que gelam as mãos ou fazem suar. Aqui temos um jovem senhor longilíneo e asseado; barba feita, unhas aparadas, o banho tomado.

Passado o verão, paixão vermelha, hora de usufruir esta serenidade fúcsia. Não há histeria no outono, as vibrações porta dentro. O verde fulgurante unicamente dentro da folha, e o vermelho abrasivo apenas no interior da veia.  Eles explodirão na primavera, mas, por enquanto, tecerão internamente.

O outono é uma garota vestindo um short de losangos alaranjados e camiseta branca; os cabelos lisos vão em rabo de cavalo, e ela trota. Ou caminha, depois da ducha, assoprando bolas de sabão, provocando uma beleza que não esbarra pra observar. Mistura-se às bolas, transmutam-se e passam a flutuar levemente coloridas até desaparecer pelo oco dos cânions, dos abismos, as esquinas.

Pode gear por aí; uns nevoeiros, talvez. Nada grave. É que quando espreguiça, o outono bolina o inverno adiante, fosse um arauto seu. Faz o mesmo com o verão, quando espreguiça pra trás, e então os dias quentes.

Daqui a pouco folhas secas no chão. Na rua onde moro haverá dias de tapete nas calçadas.  Gosto do atrito crocante das folhas sob os pés e sob as patas do Bento, que vai comigo.

Os dias e as noites terão a mesma duração; eu penso nisso.

O outono, fosse lâmina do meu tarô:  TEMPERANÇA.

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meninos nós

Mário Quintana finalizou, todo manso e ainda doce: ‘e nunca me perguntes o assunto de um poema; um poema sempre fala de outra coisa’.

É para essa outra coisa que me volto. É para trazê-la à luz que escrevo. Se não à exuberância da luz, às nuances e aos contrastes. Vasculho porões, cantos, dobradiças e sombras, fosse menino curioso e assustado desmontando rádios e insetos. Não para denunciá-los, apontar o dedo, devassar porões e insetos. Nada! Acender um fósforo,  assim vergado, sobre os tornozelos, posto em sentidos. Concedo-me a escrita com permissividade – aqui lápis e papeis. E o desejo. Seria inútil escrever, não houvesse em mim algum organismo – e o permissivo desejo.

Gilberto Gil não esconde: ‘Uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’ pode estar querendo dizer o incontível’. A subversão convocando; e eu andava de calça curta e estilingue na mão caçando passarinho no meio do mato, fazia domingo, mormaço, e estava só.

Eu me perderia fatalmente.

Mas a vejo passar. As mãos estendidas feito o varal onde as estampas ao sol. Estendo igualmente a mão, e vem  Clarice, muito menina, ainda tenra, num vestido de chita gasta, os pés descalços.

Ela diz, sem destempero ou eloquência, como quem rema canoa no lago: ‘Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu’.

Puxando meu braço, agora com firmeza, e mantendo mãos enlaçadas, ela nos faz afundar os pés na poça dágua à frente e, depois, trotando alegre e grave, me deixa ouvir – seus cabelos assanhados, um fio de cada cor: ‘O que salva é escrever distraidamente’.

Escrevi sem parar de correr no meio da quinta: ‘lamparina, clarice, lamparina’.

E assoprei a flama.

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A vida inteira imaginou-se escritor, mas nesta manhã descobriu o engano. Justo agora quando se sentia à vontade com folhas e com a tela em branco percebeu que necessita de respaldo, aprovação, julgamento. E um escritor deve escrever por coação interna, não para soar impactante, parecer inteligente ou levar o burro à sombra, aliviando a vida. Aliás, é por não ter conhecimento da vida que um escritor escreve, um escultor esculpe, e mesmo uma bailarina rodopia na ponta do pé – alheios a respostas, tudo assim perguntas e vertigem.

Falou-se em técnica – ‘Você progride a cada vez’ – mas ele toma vício por técnica, cometendo falácias, o rei segue nu e ele viu. Em um texto que se mostrava sólido avistou rachaduras e remendos, como se de um castelo enxergasse o calço segurando a torre, e avermelhou as bochechas.

Tempos atrás, o outro comentou depois de ler sua primeira coletânea de artigos: ‘Você não é jornalista, nem poeta, nem escritor, embora se assemelhe a todos. Nada pior para uma vocação do que assemelhar-se, peixe bicando o aquário sem jamais chegar ao mar. Jornalistas informam, poetas revelam, escritores se fuçam. Você passa por estas portas sem se deter em nenhuma.

Artista é quem não poderia ser outra coisa – acreditou desde sempre. Não por incapacidade de proceder, mas por necessidade de conhecer o avesso, investigar, jogar a luz, e só então se perder em todo o breu. O artista executa a arte respondendo ao impulso orgânico, quem sabe moldar em barro a loucura. Ou em palavras. Em telas, bordados, sapatilhas e pinceis.

– Romântico demais – disse o um.

– A arte tem a inutilidade de praticamente tudo – o dois.

– Sem a arte padeceríamos da solidão espiritual. – o três acudiu.

A vida inteira imaginou ser escritor.

Errou de foco e destino. Não se trilha um caminho para a escrita, não se vencem etapas, não há graduação. Labuta-se em silêncio como quem bate rede na beira do rio, ouvindo apenas o atrito na pedra.

Não será escritor pelo motivo mais raso: porque não escreve. Porque espera. E alardeia. A arte é pó flutuando à contraluz do sol: ou faz beleza ou faz tossir.

(deveria tentar ainda uma vez. existe ali dentro, em alvoroço, uma criatura que precisa – por favor – libertar-se dela. para então cumprir-se).

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Pipoca em espanhol é palomita. Pomba é paloma. Quando o milho pula na panela virando pipoca, ouço o estouro das pombinhas desenfreadas. Outro dia juntaram-se várias, explodiram a tampa de alumínio, irromperam de lá e bateram asas pela janela aberta da cozinha. Sem sal, sem manteiga nem nada. Apenas asas.

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os de belém

Belenenses não têm pressa.

Eles gostam de andar sem camisa e de sandália de dedo. Elas usam sombrinhas ao sol.

Comem peixe frito com açaí e tapioca do Pará. Maniçoba bem fervida, e tomam tacacá final de tarde. Chupam mangas caídas  das mangueiras, tuneis verdes pelas ruas. São morenos e castanhos, cabelos lisos, roxo nos lábios. Convocam a Virgem de Nazaré e os Pretos Velhos, velas e defumador. Tomam banho cheiroso, perfume de chega-te a mim, olho de boto por baixo da camisa. Todo o patchuli.

Belenenses comem em barracas de rua, e têm o  tucupi e o pato. Cupuaçu.

O círio onde ardem.

Vão ver-o-peso e o por do sol avermelhando nas docas. Gostam de barulho e buzinas. Belenenses dançam e comemoram, a música alta. Tecnobrega. Alto. Bebem cerveja gelada. Sorvete de açaí, bacuri, taperebá, e tem uns índios. Andam na chuva respirando phebo. Eles cumprimentam e sorriem. Gostam de bater papo e fazer a sesta, alguns são poetas. Falam galhinha, alhi e lhinda. Ao final exclamam: égua-te!

E dizem, sorrindo, depois que tu esperaste meia hora na fila do caixa: ‘Meu amor, não tenho troco, passe depois, tá? Por favor, o próximo!’

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Ontem, passando pela Visconde de Sousa Franco, fim de tarde em Belém do Pará, cruzei com um homem velho, vestindo uma bermuda branca – que poderia ser uma samba-canção – camiseta branca amassada, meias e tênis. Vergado, andava devagar, e tinha um curativo de gazes no braço direito. Parecia perdido na avenida, embora um semblante tranquilo. Talvez levasse no braço do curativo um scalp para aplicação de soro; talvez, não é certo.

Acho que se apaixonou pela enfermeira, ontem de folga, e não suportando a ausência ganhou as ruas. Minha irmã, caminhando comigo, perguntou, grave: ‘Ele estava internado, ou a enfermeira é de domicílio?’

Eis a questão que me empurrou para os corredores do labirinto.

Digamos internado. Em hospital, ou clínica de repouso? No primeiro caso, doença da idade; no segundo, é a alma que dói? Ou o contrário: na casa de repouso o emplasto para a dor do desamparo?! Melhor ainda: tudo acertado de comum acordo com a família. Habita um quarto branco e arejado, com leve perfume do jasmim mantido próximo à janela, protegido dos ventos, hein?!.

E a enfermeira que o acometeu, moça laboriosa e doce, ou dissimulada e fria? É certo que se trata de um armador, cujos navios irrompem da Amazônia para o mundo – veja como pisa no chão!

O ferimento no braço, desgaste da pele seca, folhas de outono, ou beliscão da desmiolada? E ele desconfia de nada, ou sabe de tudo e se finge de morto para usufruir indecências?

Se fugiu de casa ou do hospital, já deram por falta? Ele é do tipo que enche uma sala, ou mal preenche uma casa de botão?!

Existe um cachorro farejando a porta à espera?

As pernas cambotas, ele foi um cavaleiro galhardo ou são deformações ortopédicas?

Neste momento onde me ocupo, que é feito dele

e do meu sossego?

Pera lá:

Ontem, passando pela Visconde de Sousa Franco em Belém do Pará, cruzei com um homem velho, vestindo bermuda branca, camiseta branca amassada, meias e tênis. Na avenida, abarrotada de gente, não havia ninguém PONTO FINAL.

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