Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘conto rev’ Category

catecismo

Às cinco da manhã do domingo já se pode antever o dia ensolarado e quente. A primavera explodiu o inverno, e ele não encontra dificuldade em se levantar da cama, apesar do conforto sob as cobertas. Lá fora os afazeres. Na cabeceira gibis reminiscentes do Fantasma, Bolinha e um Homem Aranha escalando as paredes metálicas do arranha-céu.

Levanta, e ainda de pijama, inicia os exercícios na penumbra do quarto. O corpo redondo responde mal às tentativas de alongar, portanto se esforça para manter a vertical. São exercícios breves, ele quer o dia lá fora.
Abre a janela de madeira no térreo do mosteiro e seus olhos ultrapassam as folhas carregadas de gotas transparentes, alcançando a calçada do lado de lá do jardim onde a cidade igualmente desperta.

Liga o rádio e entra no banheiro ao lado. Abre o chuveiro e enquanto espera a água aquecer olha-se no espelho, a cara amarfanhada e gorda, a barba desalinhada e rala, o sábado inteiro às voltas com oblações da paróquia, onde o encantamento?

Vem desde criança a atração pela santidade. Quando menino, palavras como mosteiro, genuflexório, turíbulo, espalhavam cinzas e aspergiam magia nas tardes obesas do interior. Então, cerzia sacos de estopa, vestia-os, amarrava a cintura com a corda da rede e saía à rua, assoprando papéis de seda, os pés descalços e a cabeça nas nuvens, lugar bom de ficar.

Lugar bom de ficar feito o colo do pai, onde, montando o cavalo, acompanhava seus dedos longos folheando o catecismo cheio de imagens, dividindo, ambos, o silêncio sagrado.

‘Santo?!’, zombou o primeiro a quem confiou o desejo de santidade. ‘Quanto maior a consciência do pecado, mais altas as pretensões em contrário’, completou o sacristão antigo, passando a caminho do confessionário, nos preparativos da Semana Santa. Ele não entendeu o comentário e apertou entre os dedos a pequena imagem do São Francisco, eterno inquilino do bolso qualquer fosse a calça, agora comprida.

A água demora a esquentar, o chão está frio, essa barriga não para de crescer, ele se coloca de perfil diante do espelho e desliza a mão pelo abdome como fazem as grávidas. Embaixo d´água abre as pernas para expor à água todas as junções, a assadura inevitável pelo entrechoque das coxas grossas e os pelos enrodilhados. Enxuga devagar coxas e virilha, agachando-se com dificuldade, formando com as pernas um losango flácido, são misérias de existir. Foi o dermatologista quem orientou na televisão manter secas as dobras da pele, criadouro de fungos e bactérias. Todos os gordos deveriam ser expurgados, as banhas incendiadas no fogo do inferno e um sonoro Angelus deveria abençoar o que é belo, longilíneo e são.

O novo sacristão é belo, longilíneo e são. E tem olhos de amêndoa por onde nadam peixes esguios em tons variados de azul – isso é Deus.

‘Uma fagulha do vosso amor pode abrasar a terra’, reflete, enquanto, nu pelo quarto, acompanha, do rádio, o ‘adagietto’ da quinta sinfonia de Mahler, e a lembrança de Morte em Veneza, o filme que não cansa de rever, o entusiasma. Ele exala dos poros alguma esperança antiga.

Veste o hábito sobre o corpo nu, gosta das sandálias gastas e da genitália livre. Penteia o cabelo molhado, cada dia mais ralo, tentando alinhar fios parcos. O resultado é patético, ele sabe, mas sabe também que o ridículo é inevitável quando se tem calvícies a disfarçar, e ele as têm pelo corpo todo. Tenta alinhar, igualmente, a sobrancelha grossa, onde os fios são membros divergentes de uma mesma Ordem.

Não desliga o som, de onde agora sai uma música suave e delicados acordes; necessário aprisionar esse deus de belezas. Sai, encostando com suavidade a porta de madeira.

Os corredores são largos como sonhava na cama dos oito anos, entretanto não é aroma de incenso o que respira, mas a fornada do pão doméstico na cozinha próxima, e não há um órgão plangente no meio do pátio vibrando a Ave Maria, apenas dois ou três passarinhos cantando à capela no jardim central.

Depois do café, onde tomou Nescau, prepara a igreja para a missa das sete. A mãe informou lá atrás que no convento das Capuchinhas as freiras oblatas é que se encarregavam da limpeza e do trabalho pesado, moças simples do interior. Ele é leitor de Santo Agostinho e Teresa D’Ávila, quando vai assumir a homilia de domingo? O Eclesiastes joga água na fervura: ‘Vaidade das vaidades, tudo são vaidades’. Aperta o crucifixo na cintura e prossegue.

Distribui a eucaristia, a igreja lotada apesar do horário, a disciplina vai salvar o mundo. O sacristão recém chegado sorri framboesa e seus dentes são puro cálcio. O outro tem unhas de marfim, é tão jovem – são deuses, são deuses.

Na saída, conversa guloseimas com os paroquianos. A menina de dona Rosário está praticamente uma moça, já tem peitinhos e suor no buço. O irmão aflorou os maneirismos anunciados na infância, um jogo de pernas, o pulso que não se firma e uma cabeça móvel demais sobre o pescoço.

O adro da igreja, os religiosos, o domingo e as crianças, tudo desliza e se movimenta devagar ocupando espaço numa moldura barroca.

Depois, a dispersão, e ele chega à calçada; tocaria na moldura, se estendesse o braço.

Sobe dois quarteirões banhados por um sol civilizado, sem suores. A banca de revista é mais vibrante que este sol de primavera, encharcada de cores e delícias. Recorda os santinhos de papel da infância, igualmente expressivos e cheios de cor. Sebastião amarrado no tronco, as chagas vermelhas, vermelho o pano atado à cintura e os lábios crispados, dourada a auréola, e ainda as flechas. A mulher hortifrúti na contracapa do jornal convida com a língua à degustação. Elas são tantas que daria para fazer uma salada sem repetir a fruta, onde foi parar a inocência?

‘Bom dia, seu Nestor! Recebeu a revista?’

‘Bom dia, padre! Vende mais do que pipoca, mas a sua está guardada lhe esperando’.

Seus olhos acendem e ele expressa finalmente um sorriso. Ela está ali, de volta, vestindo o mesmo vestido vermelho, agora motorista do táxi de madeira. Abençoada ideia de relançar a Luluzinha, ele balança o gibi feito flâmula.

Desce a rua com a concentração de quem carrega o Menino – tem nove anos e volta do armazém onde o Alemão vendia os gibis distribuídos pelos cestos de verduras e legumes; encontrá-los era como descobrir ovos muito brancos aninhados no milharal.

Avista o pai no portão do convento empunhando um guarda-chuva desnecessário, e esbarra. Aperta a revista na mão. A poucos passos, o sacristão recém-chegado o chama com o monossílabo da intimidade e ele se volta, ventania.

A revista escapa de sua mão e dá luz à outra revistinha menor que vai descendo pela calçada na direção do pai, escorregando, virando cambalhotas até esbarrar na mureta do meio-fio. Vibrantes cores, closes, pentelhos e genitálias arreganhadas.

Quando cavalgava no colo dele, o pai chamava essas revistinhas de catecismo.

Read Full Post »

camarim

Ela sentou o vestido vermelho e curto no banco da rodoviária. Olhou para os lados e abriu o zíper da bolsa quadriculada.

Pegou inicialmente os óculos de sol, experimentou, e quase enfia a cabeça dentro da bolsa à procura do espelho, logo ali. Gostou do que viu, presumi pelo sorriso satisfeito. Deu um jeito no cabelo mal tratado, tirou os óculos e continuou remexendo. Passou o batom de um vermelho tão vivo quanto o vestido; novamente o espelho. Cheirou o vidro de acetona de olhos fechados e guardou no bolso as embalagens de preservativo. Lixou rapidamente as unhas da mão esquerda, e abriu a caixinha dos remédios. Tomou duas pílulas de uma vez só. As outras jogou no cesto de lixo ao lado. Jogou também a escova de cabelo.

Enxugou o suor da testa no guardanapo de papel. Com a bic escreveu alguma coisa na palma da mão e ficou olhando, olhando, meneando a cabeça e movimentando essa mesma mão para um lado e outro, acompanhando com os olhos. Conferiu o porta-moedas, revirando as moedas com o indicador, e abriu a carteira de dinheiro. Carteira, batom, serra de unha, acetona, a pinça de metal, o porta-moedas, a caneta, a caixa de lenços, colocou, um a um, no saquinho do supermercado e jogou a bolsa no mesmo cesto abarrotado de lixo. Dirigiu-se até o pipoqueiro e pediu um saco grande com pouco sal e muita manteiga.

Seguiu andando descalça e desapareceu entre os ônibus da plataforma.

Quando passei em frente ao Posto da Polícia Militar no lado de lá da praça, a mulher de cabelos cor de fogo e brasa na boca descrevia em detalhes nervosos o quadriculado da bolsa surrupiada, minutos atrás, enquanto ajeitava a cinta-liga no banheiro público.

Read Full Post »

Açucena, minha flor.

Se ele não tivesse dito antes eu te dizia agora: você é raio, estrela e luar. Como ele chegou na frente, não vou dizer. Porém, do meu iaiá meu ioiô você não escapa, e o graúdo que me perdoe, mas verso bom é feito rapadura, deve passar pela boca de todo mundo. Pelo menos de quem sabe o que é bom, de quem valoriza doçuras e calcinhas. E se tem duas coisas boas neste mundo são você e o Wando. Quer dizer, com a passagem dele – Deus te dê o céu, te chame lá! – sobrou apenas você, que por aqui ainda há de permanecer, pra alegria e festa do meu coração.

Um coração que se fosse de vidro tinha partido em pedaços, todo trincado pelo descaso, sua doida!. Descaso pro qual pouco ligo porque tenho certeza do teu regresso, apesar dessa crista empinada e das plumas ao vento. Açucena, a língua é o cipó do corpo, e você anda falando mais do que a mulher da cobra, minha flor!

Recebi tua carta mal criada, o cotoco da vela e os retratos, mas não pense que fiz outra coisa a não ser guardar na cabeceira da cama e esperar. Tudo isso vai voltar a tuas mãos e aos pés do Santo Antônio, onde guardas os tesouros. Sabes o quanto aprecio as miudezas desse teu jeitão. És toda miúda e isso vale muito, tu bem sabe. O mundo tão afolozado, tão arreganhado, sem segredo, sem mistério. Só tu manténs a corola e o anel, e me queimo de temer por quanto tempo vais velar essa chama.

Esse lugar virou terra de muro baixo, mas no teu castelo a muralha é alta e escalei com orgulho teu rochedo pra depois descansar a cabeça nesse regaço cheiroso. Cheiro de pano lavado a sabão, de estrume, de bosta de vaca manhã cedo no curral, de leite mugido espumando na teta, eita como é bom, e é pra lá que vou voltar, certo como há Deus no céu e um espalha-brasas no inferno pra desassossegar a calma.

Não ligue pros comentários de terceiros ou quartos, ou mesmo quintos, nem se deixe emprenhar pelos ouvidos, porque se for pra emprenhar conheço passagem mais macia do que o mostrador de brinco. E mal falei a bagaça já vou pedindo desculpa, essa língua sem cabresto riscou mais uma vez tua inocência, e a última coisa que quero é te entristecer a mudinha. Eu só tenho flores pra te dar, Açucena. Falam do pau que nasce torto, mas não comungo dessa marmota, e se insistem que cesteiro que faz um cesto faz um cento, te digo que não sou cesteiro, e mudar esse meu jeito aloprado pra não fazer mais vergonha pra tu virou questão de honra. Mãinha me ensinou desde cedo que quem tiver vergonha não faça vergonha aos outros.

Portanto, perdão se te ofendi, cachorrinha; não era meu projeto, nunca foi, jamais será. Eu sou do bem, eu sou de paz, eu sou é teu.

Só te peço que não regule além da conta este tesouro ansiado porque mãinha igualmente me ensinou que se guardar com fome, o diabo vem e come.

E entre eu e o Coisa-Ruim, que é que tu acha?

Sempre teu e à espera

Totó da Carmelina

Read Full Post »

A carta suicida de Marcela guardo na caixa de ferramentas. As miniaturas de máscaras japonesas, na caixa de madrepérolas. Na memória, o ninho de ovos branquinhos que encontrei no pasto – sete anos tinha? Na carteira, a foto do amor que me largou quarenta anos faz. No bolso, o caroço da pinha. É aquecido no gradil costal que mantenho aceso o primeiro verso. Descobri na gaveta do faqueiro de prata a dentadura do vô Guilhermino que, palavra de honra, nem sabia ter guardado.

Read Full Post »

Pelo meio da manhã, quando saí com os cachorros, cruzei com ela, já de volta, empurrando o carrinho de bebê vazio. Estava linda em sua juventude fresca, e usava o uniforme branco.

O frescor era apenas externo, a um olhar distraído; por dentro da pele, anciã deformada por rugas, e a grande dor. A mãe da criança dispensou seus serviços, para cuidar, ela própria, do bebê – é mãe que não consegue delegar; talvez a última. O ciúme do primeiro filho: ‘O menino se apegou demais a você’, e bateu a porta depois de devolver a carteira assinada e os sonhos de valsa.

Nos três dias que antecederam hoje, ela vagou pelo bairro, o mar ardendo no olho. Espiou da calçada o quarto do menino no segundo andar; anteontem pernoitou por ali, em silêncio, ao pé da mangueira.

Hoje acordou cedo e, de banho tomado, me cumprimentou quando eu ainda escovava os dentes na guarita. À noite sou vigilante, é pela manhã que levo os cães para passear. Falou ‘vou às compras resolver a vida’. Fechei o Bolano e atendi ao celular – minha namorada vai passar mais tarde para trazer a marmita do almoço, ofereceu almôndegas.

Só tornei a vê-la pelo meio da manhã, empurrando o carrinho vazio e tomando o rumo da casa no outro lado da rua. Estiquei o pescoço e acompanhei com os olhos. Vi quando tocou a campainha. Vi quando abriram a janela no segundo andar. Ouvi os tiros: três.

Otto, o rottweiler que eu estava conduzindo, deu um tranco na coleira e desembestou na direção dos tiros. Arrastou-me feito tsunami. A Range Rover não conseguiu frear e deixou dois riscos pretos no asfalto. Minha cabeça ficou grudada no para-choque, num alto-relevo acintoso deixando dentuço o carro. Otto, mais veloz que eu, atravessou o corpo parrudo até o outro lado da rua e, de lá, se voltou para mim com a língua inteira fora da boca, arfando o susto.

Permanecemos, eu aqui, e ela na calçada do lado de lá, num silêncio constrangedor. O carrinho de bebê, desgovernado, tomando a direção do cachorro.

Read Full Post »

Epaminondas não sabe o que o espera após o lançamento, mas decidiu que através da janela de vidro trincado ele não olha mais. Epaminondas tem olheiras redondas e uma barba mirrada que quase já não é. As olheiras contornam olhos cansados deste horizonte de fios frouxos, papagaios rasgados e antenas de TV. Estamos no vigésimo andar e a cidade é uma nesga de paredes descascadas e metais enferrujados.

Sentou na beira da cama com delicadeza para não desmanchar o lençol de tambores e palhaços coloridos, e pegou a caneta-tinteiro, herança do bisavô, mantida na gaveta do criado-mudo. Depois, os papeis de carta desfolhados dentro da caixa de papelão e percorreu as epígrafes em itálico, ‘Amar é não ter jamais que pedir perdão,’ ‘I want to be alone’,Mas que seja infinito enquanto dure’, até chegar ao ‘Play it again, Sam’, onde começou a escrever a carta para ninguém – (o plano de voo?).

Não há lua na nesga de céu, não há estrelas, mas o guarda-noturno apitou lá embaixo pela segunda vez, está ali. Epaminondas jamais o viu, mas sabe que ele escorrega de casa pela janela do quarto para ganhar a liberdade de apito, bicicleta e vento no peito; desejo de flanar pelas ruas claras do vapor de mercúrio, chuviscos no rosto.

Está iluminado o Epaminondas, e entra pela janela entreaberta leve aroma de banana esmagada com garfo em prato fundo de leite, a infância que não envelheceu. Acelera a escrita porque irá se lançar depois que o vigia apitar pela terceira vez; o sinal para plainar sobre a cidade, dentro da noite aberta, nessas asas de isopor que vem construindo em segredo desde a primeira insônia.

Read Full Post »

pintor

Nasceu para o que se tornou, mas foi nascido para usar a beca e portar o anel. A mãe quis, o pai aplaudiu, o professor disse sim, eis o comando! Foi bom aluno. Gostou de saber sobre a vírgula, diferenciá-la do ponto e perceber a respiração do texto, embora jamais tenha compreendido a natureza da raiz quadrada – se raiz é seiva, onde a matemática?

Interessou-se pelas folhas dos livros e seus cheiros para além das informações, e gastou tempo apalpando-os antes de lê-los. Deleitou-se com o movimento de ir à papelaria, escolher lápis de cor, folhas e celofanes para encapar cadernos nas tardes mornas. Para ele, sem conhecimento, esta era a única atitude subversiva, palavra essa! Subversiva, sim, porque delatava o prazer, e o prazer é, de todas, a explosão mais subversiva.

Dedicava-se a encapar cadernos e livros, acompanhar besouros e formigas, e destampar panelas, aspirando calores numa selvageria mansa. Também gostava de chuva e doce de caju. Principalmente acompanhava pessoas e cores quase sempre pardas, vez ou outra vivas, naquele percurso – tudo passarinho, ali um rouxinol; uma mulher que planta agachada, menino esfarelando terra, piabas serpenteando, e o grande rio.

Permaneceu indo e vindo e duvidando que tivesse nascido para usar a beca e deter respostas, todo assim perguntas.

Quando encontrou as tintas e os pincéis, a exultação o deixou humano, como quem, de repente, rompe. E danou-se a colorir as telas.

Continuou sem compreender, mas passou a matizar as sombras, deixando aflorar o que na lavoura estéril permaneceria semente; e se tornou fecundo.

Read Full Post »

Older Posts »