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Archive for the ‘Coisas do ZÉ’ Category

a burrinha do zé

Rosa Flor, a burrinha do Zé Maria, finalmente morreu, tão doente esteve.
Ele ficou triste, mas conformado. Falou devagar, agachado à  beira do riacho, mordiscando tiras de capim:
‘Foi melhor, viu, seu menino? A bichinha tava sofrendo mais do que sovaco de aleijado. Agora, mortinha, deve estar folgada feito paletó lascado atrás’.
E levantou pra lida, pois segunda-feira.

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coisas do zé

Apesar dos esforços de Serena Ampara-Anjo, a parteira, Zé Maria não aprendeu a ler.

Encontrei com ele amolando a peixeira na beira do riacho, arrodeado de bezerros.

‘Ei, Zé Maria, desistiu mesmo? Dona Serena tava tão animada…’

‘Fazer o quê, seu menino?! Não adianta assoviar quando o boi não quer beber’.

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dita

Me disse o Zé Maria, depois de bem matutar: é, seu menino, a vida é mesmo assim: uns têm dita; outros, caganita.

Franzi a testa, como faço pra escutar. E tibunguei no riacho.

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coisas do zé

Dona Serena, a parteira, de olho nele, resolveu ensinar Zé Maria a ler. Alguns dias depois o encontrei ordenhando a Pipoca no curral. Virei pra ele: ‘e aí, Zé Maria, aprendeu a ler?’ ‘Seu menino, ainda não aprendi nem fazer o O com o fundo duma garrafa porque tem letra demais me embaralhando o juízo. Mas quando der fé eu chego lá’

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Conheci Zé Maria quando fui criança. Ele era vaqueiro na fazenda do interior de Goiás, e tinha pele e olhos igualmente pretos. Dentes rigorosamente brancos, sempre ‘na praça’, como chamava o hábito de sorrir frequentemente. Zé Maria era valente, curioso e naturalmente engraçado. A gente gostava de sua companhia e de sua curiosidade a respeito da vida na cidade grande. Ele queria saber, por exemplo, se era verdade que existiam casas em cima umas das outras a que chamavam edifícios. E concluía: por isso chamam assim: edifício; é mesmo difícil de acreditar; e matutava longamente. Embora analfabeto era inteligente e astuto e, em minha família, lembramos dele até hoje.

Resolvi contar algumas histórias que o tornaram definitivo. Lembranças de quando dividi com Zé Maria certa estupefação diante da vida. De quando me diverti e aprendi um bocado com sua sabedoria orgânica.

São ‘coisas do Zé’.

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coisas do zé

Zé Maria, o vaqueiro, mesmo sem saber olhar as horas, adorava relógio. Ganhou um de corda, que não funcionava mais, e ficou todo orgulhoso. Cheguei até ele: ‘Que horas são, Zé Maria?’

Ele olhou, olhou, torceu o braço de um lado pro outro, ergueu o braço, matutou, mirou o sol, deu dois passos na quinta e finalmente respondeu: ‘Seu menino, se tu tiver alguma coisa pra fazer trata de correr porque o pau tá torando…’

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