Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Citação’ Category

caldeirão

Noutra noite fui abduzido pelo passado, e ele, presente, jogou no mesmo programa toca-disco e Ipod, Tocantins e Tietê, encontros à mesa de jantar e encontros virtuais, apertos robustos de mão e sorrisos gráficos.

Pensei em Rilke: eu sou uma árvore ante o meu cenário.

Read Full Post »

Fernando Sabino, o Demônio é uma árvore frondosa cheia de frutos maduros e doces. O Demônio dá sombra aos caminhantes fatigados, o Demônio, Fernando Sabino, dessedenta os que têm sede e dá de comer a quem tem fome. O Demônio é uma romã fresca e saborosa depois do sol e do cansaço.

Deus, Fernando Sabino, é uma galhada seca e magra, onde os homens sangram as mãos para nada. Uma caveira no meio do pé da estrada é Deus, Fernando Sabino. Deus é um osso duro de roer. Deus, Fernando Sabino, é uma fieira de dentes amarelos enfiados como em colar e passado no colo de um esqueleto esquecido de si mesmo.

Fernando Sabino, o Demônio é uma macieira, o Demônio é alto, louro, simpático, tem olhos azuis e fuma cigarros americanos. Fernando Sabino, o Demônio tem poltronas, Fernando Sabino. O Demônio toma chá com torradas e tem
varandas no flanco esquerdo e no flanco direito. Deus é cáustico e sem alpendre. Deus é uma caveira: perigo!

Otto Lara Resende
Rio, 24 de outubro de 1954
Noite

Read Full Post »

É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tinta com o dinheiro da casa e queima os moveis para que o modelo não sinta frio. Sem algumas dessas ações criminosas, não se pode fazer nada direito

Read Full Post »

quem sou eu

Roberto Elisabetsky lembrou dessa frase primorosa da Clarice:

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

Ocorreu-me Pessoa:

“Quem sou é quem me ignoro e vive através dessa névoa que sou eu”

E Proust:

“Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade”

Read Full Post »

graciliano ramos

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas penduram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever deveria fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

Read Full Post »

proust

Talvez você se lembre que no início deste blog, há mais de dois anos e meio, postei algumas impressões a respeito d´A Procura do Tempo Perdido, que estava começando a ler. Pois bem: não o abandonei desde então. Pra frente e pra trás, como um flaneur sem compromisso. Evidente que nessa viagem estou sempre com algum outro livro por perto e intercalo ou sobreponho as leituras, sem jamais abandonar o fiacre do narrador proustiano; não conseguiria. Viciei; é isso, viciei.

Comecei, segunda passada, um breve curso sobre a ‘obra’, com o Pedro Paulo de Sena Madureira. Tem sido muito interessante. Proust e seu universo são envolventes, e encontram em Pedro Paulo um ‘narrador’ de primeira. Bem informado, experiente, e com incrível expressividade, ele tem aflorado filigranas que poderiam passar despercebidas a um olhar menos atento à viagem.  Suas aulas têm sido uma passagem pelos ‘salões’ onde transcorre boa parte da narrativa – com direito a tinto e tudo, bien sür.

Quanto ao Marcel, propriamente, acho que ainda temos muita estrada pela frente.

‘Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade’

Read Full Post »

costura

Marina Colasanti perguntou à Clarice Lispector se ela sabia o que é ‘ser um escritor’. Clarice respondeu: ‘não sei exatamente o que é um escritor mas sei o que é uma costureira; te diria, então, que a costureira costura pra fora e o escritor costura pra dentro‘.

Read Full Post »

Older Posts »