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Archive for the ‘CENA/a condessa’ Category

Baile no Castelo Dourado, em Portugal

Uma cleópatra vai entrando no salão em uma liteira que quatro homens luzidios conduzem. É Alessandra Veludo, filha bastarda de um monge beneditino: frei Mariano Sartana; habita um castelo na Escócia

Ela desce da liteira com suavidade e aceita a taça de champanhe que o garçom oferece de antemão; molha o indicador, desliza o dedo atrás das orelhas, depois no colo e devolve a taça; em seguida olha em torno sem notar ninguém; o garçom sorve o buquê em silêncio

’Parece-me triste a cachopa’, um velho cocheiro disfarçado de arauto do rei comenta com olhos embevecidos

‘Não é tristeza, é a melancolia da corte; já não falei que isso não é ambiente para amadores?

‘Apresenta-me a ela’

‘Evidente que não; o senhor não é um deles, ainda não percebeu?’

A cleópatra se afasta devagar e abre uma porta que tem estofaria de couro. O cocheiro a acompanha a uma certa distância. Na sala azul convidados fumam haxixe em narguile de porcelana, à meia luz. Alessandra se aproxima e um Xá da Pérsia lhe cede uma piteira. Há vários tubos e todos fumam conjuntamente. Ela aspira a erva com essência de rosas e se une ao grupo. Eles riem e se tocam, contudo cleópatra permanece alheia, movendo-se com languidez. Ouvem Pink Floyd: “hey, teacher, live your kids alone…”

Em vez de se retirar, o cocheiro solicita uma piteira e senta ao lado da rainha egípcia que veste uma serpente com olhos de esmeralda no braço esquerdo; ela não o percebe. O cocheiro, entorpecido, experimenta o tabaco pela primeira vez

Um jovem guerreiro da dinastia Ming o saúda em inglês:

‘Wellcome! O narguile simboliza a serenidade, a hospitalidade e a harmonia’ – foi isto o que disse, entretanto o velho não entende o inglês. Compreende, isso sim, a cortesia do guerreiro. Sorri, terno, exibindo os dentes mal cuidados. Tenta abordar a rainha em português, o único idioma que conhece

‘Sabias que Marco Antônio tinha quatorze anos a mais que tu?’

‘Júlio César tinha trinta a mais’ ela responde e  continua aspirando o haxixe. Comenta, algum tempo depois, sem se voltar para ele:

‘Prefiro essência de laranja, entretanto em Portugal preferem as rosas’

‘É verdadeira a devassidão que te atribuem?’

‘Tão verdadeira quanto minha origem egípcia; na verdade sou grega e reinei no Egito por pura circunstância; compreende a analogia? – ela não se voltou por um momento sequer

Ele está deslumbrado com o ambiente, a música, o fausto, a juventude e com Cleópatra. Ela usa uma coroa de esmeraldas; ele tenta passar a mão pelos cabelos ondulados, ousando, talvez, o seu canto do cisne. Ela se levanta, faz um breve movimento de quadril e cabelos e sai

À porta os mesmos homens que a trouxeram a conduzem, suavemente, de volta à liteira, então a erguem e se dirigem ao portão principal do castelo

O velho agora observa de longe. Cleópatra finalmente o cumprimenta com os cílios longos. E parte. Ele acompanha devagar como se houvesse bruma.

Lá fora, uma mulher montada em um camelo arreado com montaria de pedras finas aguarda os primeiros acordes da Sagração da Primavera para entrar no baile…

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