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Archive for the ‘CARNAVAL’ Category

BELO

Outro domingo de calor e céu abrasivo no nordeste do Brasil. Neste, é carnaval. A terra racha, o chão queima, a mão desliza pela testa para interromper o suor, depois joga fora com o manejo sonoro dos dedos. Faz o mesmo para se livrar dos catarros. As crianças brincam de quem faz mais barulho. E riem alto de dentro dos seus calções, o peito nu.

O gado é magro, o cavalo trôpego e os jumentos bodeados. Aos homens falta água, o de-comer e dentes.

Eles vão chegando um a um em volta do coreto que não chegou a ser, quem foi que mentiu?!

Chão de barro. Dois vieram de carroça, três de jegue, um de bicicleta. Pedaços de fitas coloridas pelo corpo, um amarrou na canela, aquele no pulso, o outro em volta do pescoço, gravata borboleta, a rigor, soubesse o que é. Em cima da cabeça este trouxe uma coroa feita com tampinhas de cerveja, o outro nem fechou a braguilha, espera a festa desde a noite de ontem, quase cansou, está trôpego, não se sabe se ri ou se …

Eles se olham, se observam, o magro de bigode ralo tira a remela daquele que tenta amarrar o cadarço do tênis gasto que ganhou anteontem. Sorriem com os caninos, batem uma testa na outra, que coisa é essa.

Atrás, aquele toca a corneta, o palhaço do circo que se desfez no largo acolá assopra bolhas de sabão, ressuscitadas cores, não estava gasto o canudo?

Os poucos que sabem ler soletram carnaval, sílaba por sílaba. E cantam alto, porradas no peito, passarinhos se calam.

Um deles, mal adentrado nas letras e nada afeito a leviandades, ouve atento o chamado colorido de suas carnes secas: belezas, por deus do céu, belezas!

Belezas.

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Sábado de CARNAVAL

Acordei com o dia amanhecendo, liguei a TV e acompanhei boa parte do desfile da Vai-Vai. Cá entre nós, não sou dos mais entusiastas do carnaval de São Paulo – acho que falta ‘atmosfera’; será?! – mas a emoção do maestro João Carlos Martins, o homenageado, me contaminou. Acho sua trajetória, e seus percalços, elementos de uma ópera flamejante. Ali, regendo a bateria da Escola, ao som da multidão que recontava sua trajetória no ritmo do samba-enredo, sentei na cama para acompanhar. E aplaudir. Bonito, bonito!   

No momento estou olhando pro céu à espera do dia ensolarado que a meteorologia prometeu. Diante da garoa que acompanhou o dia e noite de ontem, duvidei um tanto, mas o Reinado do Momo não permite exatamente a efusão do Lado B de cada um? Por quê o SOL não surrupia um esplendor da Mangueira e surpreende essa nuvarada que quer impedi-lo de CAIR NA FOLIA?!

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CARNAVAL II

Quando criança, ia às matinées, o calor de rachar; não era exatamente o caldeirão onde eu gostaria de ensopar, mas estava em compasso de espera, cozinhando o galo, ou melhor, esperando o frangote virar galo, e, rapaz, como demora! Então, dá-lhe índio, apache, pirata, é muita tribo até anoitecer e iluminar o salão.

Uma vez, lá no interior, quando já não usava fantasia e frequentava a noite, houve um concurso para escolher o casal de folião mais animado, imagine a agitação. Adivinha quem foi pras cabeças?! Isso mesmo, eu, um chapéu de palha e Margarida, minha partner. Você não me dará os parabéns quando eu te descrever o júri: dois diretores do clube, meu pai, a mãe, dois tios, uma tia, dois vizinhos de lado, Iraceli, que havia sido minha babá, o padrinho e meu irmão mais velho; que tal?! Papai, ao lado da banda, era todo entusiasmo com um copo de whisky na mão: ‘Aquele magrelinho ali de chapéu, aquele do chapéu…êta cabra bom!’. Era eu. Levamos o prêmio; o que era mesmo, Margarida?!

Coroa de lata?! Deixa disso, Margarida!

No ano em que cheguei a São Paulo, sem conhecer praticamente ninguém ali, fui passar o carnaval no Rio de Janeiro. Simples assim: se estou tão perto do ‘maior carnaval do país’ nada mais elementar do que correr para lá e entrar no cordão – mesmo que eu jamais tenha, sequer, colocado o pé na cidade. ‘Raciocínio-juventude’ é o nome disso. O único compromisso agendado era assistir ao desfile das Escolas na Marquês de Sapucaí, lembra dela? Fui. Chapei. O resto do tempo passei saracoteando por Copacabana, Ipanema, feliz da vida porque, finalmente, estava no olho do furacão. Detalhe: fiquei hospedado na Barra da Tijuca e toda a agitação carnavalesca acontecia na Zona Sul, portanto pegava um ônibus na Barra, no começo da noite, descia em Copacabana ou Ipanema e ficava flanando a noite inteira – sozinho – esperando o dia amanhecer para pegar o ônibus de volta. Tudo isso a seco porque na época eu passava uma noite inteira com um copo de cuba libre até ele virar chá mate. Copacabana, principalmente, garantia festa o tempo todo. Ruas cheias, fogos, música, blocos, uma vibração que acendia tudo e eu mal via a noite passar. Cinema, puro cinema.   

Voltei cheio de gás.

Com o tempo percebi que a maioria dos conhecidos em São Paulo saía da cidade durante o carnaval. Para descansar. Praia, fazenda, interior, retiro. Levei algum tempo para admitir que essa festa pudesse ser vista apenas como um feriado dos bons, quatro dias de pernas pro ar – eu que vinha do ‘pernas pra que te quero!’. Mais tempo ainda levei para mudar o enredo e abandonar o salão. Acho que o Canto do Cisne foi no OITO DOIS QUATRO, quando, de última hora, levantamos um Baile à Fantasia no sábado de carnaval, uns sete anos atrás; oito?! Foi bom demais. Teve de tudo: Bam-Bam e Pedrita, ciganos, toureiro, espanhola, múmia enrolada no papel higiênico, príncipes e princesas, havaiana, pirata e a freirinha mais sapeca de que sem notícia; (será que ela vai pular o muro do convento outra vez?)

Lá se vai o tempo.

Os últimos carnavais tenho passado distante do batuque. Cruzei o oceano. Meu folião se aposentou. Outro dia fiquei pensando com meus botões em que momento é que a gente, sentado à mesa do clube, se levanta, entra na pista, cai no meio do caldeirão e, dedos pra cima, riso amarelo, vai engrossando o caldo. Sorri comigo mesmo porque, olhando de cima – e de longe – aquilo parece surreal, e a primeira cara que você faz quando cai na folia é de uma patetice sem igual.  Para avalizar esse surto é que foi inventada a cerveja, pode ter certeza.

Hoje, também para mim, carnaval virou um feriadão bom para usufruir longe do tambor e dos confetes; ‘Contigo en la distancia’, diria uma amiga que, aliás, mudou para o Rio.

Este ano estarei por aqui.

……………

……….

Bom, sei lá, se você se animar de repente, se o repique trepidar, a saudade bater, quem sabe a gente possa sair por aí, botar a máscara, pintar a cara, seguir o bloco e rasgar a fantasia porque minha mãe vem dizendo há muitos anos, com toda a sabedoria: ‘Onde foi casa sempre será tapera.’

Então:

Quanto riso, oh, quanta alegria…

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CARNAVAL I

Daqui a pouco é carnaval, e, de novo, vou percebendo as mudanças que o tempo traz. Depois que abandonei meus projetos sacros (lembra que já contei?) caí de boca no salão naquele esquema varre varre varre vassourinha…. eu morava no nordeste e o axé baiano ainda não havia destronado o frevo, portanto…à sombrinha!

A coisa começava logo no Reveillon. Depois da meia-noite o clube abria para o Grito de Carnaval. O salão enfeitado de serpentinas caindo do teto em tal quantidade que era necessário abrir caminho com as mãos como se estivéssemos entrando na floresta. Confetes pelo chão, e as fantasias, os ‘disfarces’.  A orquestra dava o primeiro sinal (orquestra?! sei, sei…) e todo mundo caía na pista, percorrendo aquele grande círculo que, basicamente, é a coreografia de um baile de salão, você já participou, não?! A gente se olha, se beija e se molha de chuva, suor e cerveja… A impressão é que alguém está mexendo um imenso caldeirão com a colher de pau seguindo sempre a mesma direção. O caminho de Meca, quem sabe… que, aliás, nunca se alcança…sempre voltando ao ponto de partida, coisa mais esquizóide, mas, vixe, como era bom!

Evidente que alguém sempre se metia a fazer o caminho contrário, contra a corrente, mas é da natureza humana aspirar a diferenciação e, as vezes, a Colombina (ou o Pierrô) havia ficado para trás, olha o perigo, uma volta inteira no salão pode levar tempo demais, e o demônio está a postos, quem não viu?

Este ano não vai ser igual aquele que passou, eu não brinquei, você também não brincou… onde foram parar as marchinhas? Com certeza muito longe de Salvador. Se é verdade que hoje a garotada já nasce com o gene da informática, é igualmente verdade que o baiano da capital nasce com o DNA do asfalto e do batuque…tira os pés do chão… e, incrível, contamina qualquer criatura que, mesmo descendente da aristocracia inglesa, esteja por ali nessa estação. Exige-se muita saúde, jovialidade e desapego ao corpinho para desfrutar comme Il faut um carnaval na Bahia. Principalmente pelo day after, pelas weeks after, melhor dizendo. Conheço gente que precisou de uma semana inteira para reverter a paralisia dos lábios tantos foram os beijos…e alguns mais desavisados que necessitaram de igual período para colocar os pés de volta no chão com alguma estabilidade. Uma conhecida resolveu casar ali mesmo com um alemão que beijava muito bem e separou antes da Semana Santa quando descobriu que sem os ruídos do axé ele só usava a boca pra comer salsichão e esbein cozido. Acontece.

Voltando aos meus bons tempos, findo o Reveion, começava a espera. Nas tertúlias de domingo, todo o janeiro e fevereiro, lá pelas tantas trocavam o Brotinho Legal pela Máscara Negra. Saía o Calhambeque do Roberto e entrava aquela Canoa que não podia afundar…se a canoa não virar, olé-olê-olá, eu chego lá…(calma, não sou eu que tô velho, o nordeste é que era conservador…) e voltava o caldeirão fumegante onde a bruxa cozinhava em fogo brando o prazer, o descompromisso e a imortalidade.

Voltarei ao assunto.

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