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Archive for the ‘Belém’ Category

os de belém

Belenenses não têm pressa.

Eles gostam de andar sem camisa e de sandália de dedo. Elas usam sombrinhas ao sol.

Comem peixe frito com açaí e tapioca do Pará. Maniçoba bem fervida, e tomam tacacá final de tarde. Chupam mangas caídas  das mangueiras, tuneis verdes pelas ruas. São morenos e castanhos, cabelos lisos, roxo nos lábios. Convocam a Virgem de Nazaré e os Pretos Velhos, velas e defumador. Tomam banho cheiroso, perfume de chega-te a mim, olho de boto por baixo da camisa. Todo o patchuli.

Belenenses comem em barracas de rua, e têm o  tucupi e o pato. Cupuaçu.

O círio onde ardem.

Vão ver-o-peso e o por do sol avermelhando nas docas. Gostam de barulho e buzinas. Belenenses dançam e comemoram, a música alta. Tecnobrega. Alto. Bebem cerveja gelada. Sorvete de açaí, bacuri, taperebá, e tem uns índios. Andam na chuva respirando phebo. Eles cumprimentam e sorriem. Gostam de bater papo e fazer a sesta, alguns são poetas. Falam galhinha, alhi e lhinda. Ao final exclamam: égua-te!

E dizem, sorrindo, depois que tu esperaste meia hora na fila do caixa: ‘Meu amor, não tenho troco, passe depois, tá? Por favor, o próximo!’

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Em Belém, com Barrigão e Tanquinho.

Sim, eles mesmos. É só dizer que vamos cruzar o Tietê e o Tocantins, Barrigão já se assanha, e começa a falar consigo, saltitando e contando nos dedos: bacuri, cupuaçu, açaí, pato no tucupi, tacacá, cerpinha, maniçoba, bolo de macaxeira, ai, ai, ai!

Tanquinho intervém, ligeiro: sem exagero, né Barrigão? que tal experimentar uma salada verde de jambu e alfavaca, geleia diet de cupuaçu, uma boa caminhada na Praça Batista Campos, marombar na Academia do Pelé…assim, até dá pra encarar duas colheres de arroz paraense e uma porçãozinha pequena de caruru do Pará, na dona Dica…o problema é que tu és exagerado demais…

Barrigão faz ouvido de mercador. Sai correndo porque sentiu o cheiro fumegante de tucupi na panela, e nem se deu ao trabalho de explicar pra Tanquinho que se o tucupi é extrato da mandioca, e mandioca é tubérculo respeitado por qualquer nutricionista de valor, o ideal seria tibungar num caldeirão bem cheio, se lambuzar inteiro na goma do tacacá, e ficar mergulhando pra lá e pra cá com os camarões.

Não falou porque não teve paciência; mas é  assim que é. 

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Parou de ventar e o calorão subiu. Minha mãe, olhando pras mangueiras inertes à falta de vento, comenta consigo: quando morrer eu não posso ir pro inferno porque sou muito calorenta.

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A sobrinha me procura, preocupada
Tio, como a gente faz pra desenvolver baixa estima? meu excesso de auto estima não está me fazendo muito bem.

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Eu e meus irmãos tomando vento e cerveja.
Ele diz: estou perdendo a visão e a memória.
Ela arremata:
Ainda bem que são os dois. Logo vais esquecer que estás cego.

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Baía do Guajará - da Casa das 11 Janelas

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UMA SEMANA SANTA

COMPLETE VOCÊ:

Na quinta lavou os pés, sexta não bebeu o sangue, sábado esmurrou o judas, domingo, bacalhau e chocolate, na segunda…

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Amo profundamente minha irmã. Estamos aqui no terraço, eu, ela e Gio, sua amiga desde o comecinho. Mais vejo Gio mais a quero bem. Está ventando o vento da baía do Guajará , no céu nuvens carregadas umas, carneirinho branco outras, vai chover daqui a pouco.

Silvânia me pergunta de um texto que escrevi sobre Belém em 2009, e me pede para postá-lo novamente. Ela mal frequenta o blog, portanto vou atrás.

Foi este:

“Belém é uma cidade morena. E sua. Cheia de cheiros, Belém. Patchuli, tucupi, phebo, maniva, pimenta. Belém não é verde como muita gente pensa, embora no centro da cidade as mangueiras formem tuneis verdes de onde deixam escapulir as mangas sobre os carros, só por diversão.

Quando morei aqui colhia manga pela janela do quarto com um coador de café enrolado no cabo da vassoura. A gente pobre catava as mangas e as comia com farinha, a fome. A gente rica fazia o mesmo, por puro gosto. Hoje não sei mais como é. A única manga que vi despencar nestes dias caiu exatamente sobre o carro de minha irmã e não vi que destino teve.

Morei aqui por oito anos, no começo da juventude. No Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré travei conhecimento com uma formalidade que desconhecia no interior do Maranhão, de onde vim. Aprendi a levantar cedo e a zelar pelo uniforme. Plantei uma mangueira. Em minhas manhãs aspirava pinho.

Foi aqui que cursei a Faculdade de Medicina até o quinto ano; o Internato fiz na Beneficência Portuguesa de São Paulo e de São Paulo nunca mais saí, tamanha a paixão.

No Teatro da Paz, assisti aos meus primeiros espetáculos e conferi todas as apresentações do Projeto Pixinguinha, acompanhado do pai que trabalhava na mesma Praça da República que abriga o Teatro. Eu o esperava guardando lugar na fila de jovens que se fazia à porta. Por ali passaram, no nascedouro, Simone, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zezé Mota. E pude ver de perto artistas consagrados como Regina Duarte, Tarcisio e Glória Meneses, Elis Regina, Gal Costa. Só nunca pude foi tomar um refrigerante no Bar do Parque, ao lado, porque aquele ambiente ‘marginal’ não depunha a favor de quem trilhava a free way e desconhecia estradas vicinais. Muitos anos depois, sentei ali com uns amigos, de férias na cidade, mas aí já havia passado tempo demais. O Bar do Parque era apenas mais um lugar aprazível para se tomar uma cerveja e refrescar o calor.

Do Círio de Nazaré é impossível esquecer. Poucos espetáculos são tão emocionantes. Milhares de pessoas (hoje contam 2 milhões) saem às ruas para louvar a Virgem de Nazaré, padroeira da cidade. É uma festa religiosa e pagã, até pela dificuldade em articular tamanha multidão em torno de uma homilia formal. Trata-se, então, de um congraçamento dos paraenses entre si e de quantos afluírem para a cidade nesta data. Para se envolver neste encantamento não é necessário ter alguma fé ou processar qualquer religião. A sinergia entre as pessoas é o verdadeiro milagre.

Nesta altura há um ‘paticídio’ por aqui , porque da mesa mais simples à mais sofisticada, o pato no tucupi reina soberano, e o cheiro da mandioca prensada, o jambu, as pimentas envolve a cidade em uma atmosfera idílica. O Círio de Nazaré é uma festa visceral, sensual, um brinde aos sentidos. Preciso ver isso de novo.

Fiquei ausente de Belém por muitos anos, desde que meus pais voltaram para o Maranhão, que passou a ser novamente meu quartel general.

Um tempo passou. Com o avançar da idade, eles precisaram voltar para a cidade grande e, há três anos, voltei a frequentar o Pará. Ainda estou tomando chegada. Agora tenho olhos de turista – e assim sou tratado. As pessoas, gentilmente, querem me mostrar as belezas e apontar o progresso. Querem que eu não sinta tanto calor e que não falte verdura à mesa, já que agora me alimento como um paulistano. Insinuam um açaí com peixe frito no Ver-O-Peso, mas temem pela minha digestão. Me perguntam se está quente demais para encarar uma maniçoba, entretanto se esbaldam com a dificuldade em debulhar o caranguejo toc-toc. E se regozijam quando saio sozinho, final da tarde, e vou à calçada de meu antigo colégio tomar o tacacá. Ser olhado assim é rejuvenescedor.

É extremamente zeloso este povo que é um pouco meu. Tenho duas sobrinhas que nasceram aqui, meu irmão casou com uma paraense há vinte e muitos anos.

O tempo divide, não há dúvida, mas algumas coisas serão para sempre: um som, um aroma, um paladar. Uma madrugada em que, chegado da rua com meu irmão e alguns primos, sentados no chão do terraço do apartamento, olhei as mangueiras enfileiradas à frente e temi perdê-las de vista. Por descobrir, naquele momento, que era isso que deveria ser feito.

Muitos anos depois, escrevi em minha coletânea “O Rio Que Corre Estrelas”:

‘No momento da partida, quando romperam laços, ajuntei pedras.
E as depositei uma a uma no alforje que atei à cintura.
Pela vida afora e em momentos diversos, com mão precisa, depositei-as no chão.
Para aliviar o fardo e demarcar a rota.
Uma a uma, por delicadeza.
Em distintos sítios para que, no retorno, a trilha não me conduzisse em linha reta a um único lugar.
Quando acontece de nos encontrarmos pelo caminho,
aliso cada uma com a mão calejada, retiro o limo e  a arremesso longe, longe, no limite de mihas forças.
Alinho-me e, em movimento, aguardo, sem me preocupar com isso, nosso próximo encontro’.

Um abraço.

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