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Archive for the ‘Barrigão e Tanquinho’ Category

Chegamos de viagem e, pra agradar Barrigão, usarei expressão feia e antiga: locupletados. Verdade. Pelo menos no tocante ao garoto. Barrigão deu carta e jogou de mão, como diria Esperança. Pintou e bordou a saramanta, diria mamãe.

Diga se não. Em Belém foram poucos dias pra tamanha fome – e sede. ‘Sede de jogo’, como  gosta de falar, pra não assustar Tanquinho, sempre a postos. Em apenas três dias ele foi de Arroz do Pará à casquinha de caranguejo e maniçoba, passando pela torta de bacuri, sorvete de cupuaçu, até desaguar nas cervejas artesanais com direito a uma lingüiça de metro que, quando cortada, libera o queijo borbulhante injetado no miolo; um pequeno vulcão de colesterol. Tanquinho escondeu o rosto com as mãos e pediu água de coco. Não havia. Então se levantou e foi caminhar à beira da baía com as mãos nos bolsos da bermuda, respirar ar puro e trabalhar as articulações; uma gaivota branquinha passou voando e ele quase sorriu.

‘Amanhã acordamos cedo e vamos caminhar na Praça Batista Campos’, decidiu sozinho.  ‘E na volta, uma fatia de pão integral com cottage e um suco de laranja, a boa, simples e velha laranja’. Barrigão não comungou da ideia, e só levantou da cama pra encarar um suco de graviola acompanhado de biju recheado com presunto, outro com queijo da fazenda e um terceiro com doce de goiaba, pra rebater o sal. Duas fatias do bolo de macaxeira que, cá pra nós, tava mesmo irresistível.

Tanquinho não esmoreceu nem se deixou cooptar: ‘ele compensa o exagero no almoço; hoje vamos de salada verde e sushimi de atum’.

‘Sushimi na Amazônia, Tanquinho? Me compre um bode!’ – Barrigão caçoou e se dirigiu pra dona Dica, onde pediu ‘a nível de degustação’ vatapá  e caruru do Pará. Unhas de caranguejo.

Sem se dar por vencido, Tanquinho ficou na calçada fazendo alongamento e atualizando planos: saindo daqui vamos dar uma corridinha na Doca e apreciar o pôr do sol.

Como lesse seus pensamentos, Barrigão se voltou pra ele, ofereceu de longe uma colherada do caruru e piscou um olho em silêncio. A boca cheia. Feliz.

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Em Belém, com Barrigão e Tanquinho.

Sim, eles mesmos. É só dizer que vamos cruzar o Tietê e o Tocantins, Barrigão já se assanha, e começa a falar consigo, saltitando e contando nos dedos: bacuri, cupuaçu, açaí, pato no tucupi, tacacá, cerpinha, maniçoba, bolo de macaxeira, ai, ai, ai!

Tanquinho intervém, ligeiro: sem exagero, né Barrigão? que tal experimentar uma salada verde de jambu e alfavaca, geleia diet de cupuaçu, uma boa caminhada na Praça Batista Campos, marombar na Academia do Pelé…assim, até dá pra encarar duas colheres de arroz paraense e uma porçãozinha pequena de caruru do Pará, na dona Dica…o problema é que tu és exagerado demais…

Barrigão faz ouvido de mercador. Sai correndo porque sentiu o cheiro fumegante de tucupi na panela, e nem se deu ao trabalho de explicar pra Tanquinho que se o tucupi é extrato da mandioca, e mandioca é tubérculo respeitado por qualquer nutricionista de valor, o ideal seria tibungar num caldeirão bem cheio, se lambuzar inteiro na goma do tacacá, e ficar mergulhando pra lá e pra cá com os camarões.

Não falou porque não teve paciência; mas é  assim que é. 

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