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Archive for the ‘A Hora Espraiada’ Category

Amei uma vez dizendo isso em lua nova. A lua que a gente não vê mas sabe que existe; olha-se para o céu e nada está ali, ou parece estar. Nada que se possa confirmar pelos sentidos aloprados, nada a fotografar, o avesso da ciência que exige radiografia pra se confirmar; como um membro que se dói por dentro em anestesia; uma dor fantasma. Amei de um jeito que só precisava de mim pra existir, portanto com o dobro de chance de fenecer, eu tocando sozinho. Amei em silêncio quando menino e, adulto, amando outra vez, abri mão de testemunhas porque então dispensava o que necessita de testemunha para parecer real. Fechei os olhos inclusive para o invisível da lua porque não podia correr o risco de me inebriar. Precisava aspirar apenas aquele amor sem cortinas, adjetivos ou gestos exagerados.

Este amor ainda vejo aqui, se puxar o cordão. Ainda agora o vejo, cruamente, estrias expostas, confetes e cinzas de um carnaval.

 

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Abaixo, outro fragmento de A Hora Espraiada, coletânea de pequenos textos aleatórios (?) que escrevi há anos e, vez em quando, revejo e refaço. Em 2010 postei aqui dois fragmentos. Estou às voltas com o curso da Noemi – que recomeçou -, a escrita de As Linhas Tortas, revisão de antigos textos, e, pra relaxar, tenho voltado à esta Hora… que foi importante pra mim quando a escrevi pela primeira vez, tanto tempo faz.

A literatura tem tomado cada vez mais espaço em meu cotidiano. Por enquanto tenho conseguido dizer SIM.

Um abraço

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Ainda não é fácil abrir as cortinas e iluminar a cena, uma vez que a estrutura trincou quando perdemos aquele canal de comunicação, os tubos romperam; até ali tudo era passível de reconstrução. Quando acabou, quando começou a acabar, o que falávamos para nos explicar, o que queríamos compreensível, surpreendente e novo caía no chão feito estalinhos de São João. Se não me movimentasse, nossa vida seria uma eterna festa junina fora de época. O que nos uniu ficou ameaçado por essas atitudes que só queriam mudar, entender e, pasme, permanecer – nós, àquela altura, conhecendo a inutilidade de permanecer. Acabou no momento em que o que falávamos para nos entender e cogitar cumplicidade deixou de ser um movimento construtivo para se transformar em um carro que estanca depois da primeira marcha, engasgado – e os mosquitos invadiram a janela, em bando, nos impedindo de manter o curso. O que poderia ser solidariedade transformamos numa acusação recíproca sobre quem deixou a janela aberta; e perdemos um longo tempo desnecessário. O estrago foi considerável, mas não o suficiente para me impedir de retornar e propor este passeio por uma estrada vicinal. Desconhecida.

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Olhei para o amor e não o reconheci. O amor me reconhecia?! Voltei alguns passos para trás à busca de nitidez e continuei indagando: este desejo é de amor, ou queremos apenas a língua curiosa dentro das nossas bocas?  Esta língua é capaz de coisas para as quais eu não teria autonomia. É ela quem entra sem pedir licença, e vai perscrutando, invadindo, salivando, candeeiro na mão, como se eu fosse um desbravador, e lavrasse terra ou cruzasse os mares do Sul. Quem sabe, singrasse, foguete, o espaço, transmutando os anéis de saturno em mucosas avermelhadas, chegando finalmente ao céu da boca. O céu. O paraíso inatingível que através da língua pode-se finalmente alcançar. É ela quem agora me conduz, toda leme. Faz-me cócegas. Bendita seja. Calada fique. E não se fala mais nisso.

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Você conhece bem meu bom humor. Acordo sorrindo, quase. Não sabe do resto. Desconhece a noite que enfrentei, portanto não pode compreender porque sorrio de manhã. Tampouco imagina o que quero ao despertar, o que espero, a que me entrego, ao que não me dou e a quem não me mostro. A quase inércia, os bocejos e o profundo desencantamento é que me dão este humor perigosamente linear, porque suficiente, bem vindo e mal compreendido.
Mais não quero. O além é do que me defendo. Assim, o falso brilhante.
Saiba, contudo, que em um cruzamento qualquer, em um encontro aparentemente arbitrário onde este todo disforme se equilibra em uma unidade que se faz ponte, não resisto ao impacto e compreendo, participante, o enredo deste carnaval.

Então, é no meio da folia que recolho o sorriso, descarto o brilhante e, finalmente grave, levanto os olhos, estendo a mão e me ponho em marcha.

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