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Archive for março \30\UTC 2013

ressaca

Receita pra ressaca:

Uma jarra de água de coco (de vidro transparente ou cristal), mormaço, mergulho no mar, silêncio, discreto segredo e boas lembranças.

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outono

O outono chegou com seus pinceis e a luz.

Agora a iluminação será de baixo pra cima, detalhes, veremos o tom e as matizes, sem omissão ou exagero. O sol civilizado, a temperatura sem os excessos que gelam as mãos ou fazem suar. Aqui temos um jovem senhor longilíneo e asseado; barba feita, unhas aparadas, o banho tomado.

Passado o verão, paixão vermelha, hora de usufruir esta serenidade fúcsia. Não há histeria no outono, as vibrações porta dentro. O verde fulgurante unicamente dentro da folha, e o vermelho abrasivo apenas no interior da veia.  Eles explodirão na primavera, mas, por enquanto, tecerão internamente.

O outono é uma garota vestindo um short de losangos alaranjados e camiseta branca; os cabelos lisos vão em rabo de cavalo, e ela trota. Ou caminha, depois da ducha, assoprando bolas de sabão, provocando uma beleza que não esbarra pra observar. Mistura-se às bolas, transmutam-se e passam a flutuar levemente coloridas até desaparecer pelo oco dos cânions, dos abismos, as esquinas.

Pode gear por aí; uns nevoeiros, talvez. Nada grave. É que quando espreguiça, o outono bolina o inverno adiante, fosse um arauto seu. Faz o mesmo com o verão, quando espreguiça pra trás, e então os dias quentes.

Daqui a pouco folhas secas no chão. Na rua onde moro haverá dias de tapete nas calçadas.  Gosto do atrito crocante das folhas sob os pés e sob as patas do Bento, que vai comigo.

Os dias e as noites terão a mesma duração; eu penso nisso.

O outono, fosse lâmina do meu tarô:  TEMPERANÇA.

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És muito liberta,

Eu não sou.

És sadia,

Tenho cá minhas doenças.

Sabes amar,

Tenho dúvidas.

Sabes deixar,

Tenho esperas.

Dizes me ver

Me disfarço, 

 

E por não acreditar que me vias,

Te surpreendo.

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na casa dos m.a.w

Quando flagrou o olho de Brisa, a siamesa lilás, fixo no vaporeto, mamãe não teve dúvida: uma paixão de arregaçar a alma. Vinha notando o assanhamento há dias. Ontem à noite flagrou a gata enrodilhada no cano do aparelho, roçando o pelo contra o metal. O marido, no terraço ao lado, lê ‘Os Intelectuais na Idade Média’.
Mamãe fecha o Roth, bota Brisa no colo, eleva as duas patas da frente, e fala, olhando-a no olho de amêndoa: ‘Querida, aqui nós temos uma casa linda, ração de primeira, brinquedos da melhor qualidade, carinho que moveria um transatlântico. Mamãe e papai falam sânscrito e lêem os russos no original, porém quanto a sexo, forget about, viramos essa página. Você é sensível às frustrações, mami entende, porém perceba que não podemos ter tudo. A cidadania exige divisão de privilégios, e qualquer concepção de paraíso, blá blá blá…
Brisa, sem bater pestana, interrompe o discurso, atira-se sobre o vaporeto vermelho, e ele volta a deslizar pela sala, tremulando de contentamento – a enceradeira arroxeando de ciúme. No terraço, papai tira os óculos da cara, marca a página do livro com o polegar, volta a cabeça e estica o pescoço…

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Retomo as resenhas com O rio que corre estrelas, de Santana Filho, que conheci recentemente. Por ter participado da coletânea Assim você me mata, da Terracota, aproveitei o lançamento para comprar alguns livros da editora, entre eles o do Santana. Como a Terracota tem passado a sua produção para e-book, tiro o atraso quando tiver o meu kindle.

O rio que corre estrelas é um livro rápido, em formato pocket tem 94 páginas, e foi uma boa curtição. Ele mistura memórias de infância com coisas inventadas, sem que fique claro para o leitor onde começa uma e termina a outra, bem a minha praia. O próprio autor fala no final do livro que “Quando me indagam a respeito da veracidade dessas memórias, respondo que nunca é tarde para ter uma infância feliz”. Essa frase define a sensação geral de leitura, enquanto acompanhamos as estrepolias do jovem protagonista.

De vez em quando aparecem uns poemas também, que no início achei que não se encaixavam bem na proposta, por serem um lampejo de adultice no meio da prosa lírica, mas um deles no final, achei ter um ponto de partida arrebatador e vou copiar aqui:

“Não pense em mim assim como se pensa,
Como percebe qualquer um que passa,
Como compra um chapéu que se vende,
Como quem ama qualquer um de graça,
Me deixe apenas ser,
Não tente acorrentar meu pensamento,
Nem julgue-se capaz de me entender.”

É um poeminha que o protagonista recita para outra personagem, que no final está cheia de sono pedindo para dormir.

Para quem quiser, o Santana Filho tem um site chamado Crônicas e Reflexões.

CapaAB_Rio_que_corre_SantanaCapa simples e bonita, que combina com o título do livro, que também achei muito bem pensado. Fico imaginando se fosse literatura especulativa, a quantidade de comentários filosóficos a respeito da adequação do título. Eu sei, estou sendo chato. Mas é impossível não imaginar um monte de debates sobre o nada.

 

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Cedinho, caminhando com Bento.

Os dois conversam à nossa frente, sem alterar o tom de voz:

‘Cara, permita que te diga: Você é o tipo de gente que não faria a menor falta ao planeta’
‘Só por quê não reciclo lixo?’
‘Não. Porque não recicla a mente’

 

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fui!

Considero perdida a batalha para o gerundismo porque ‘vou estar transferindo a ligação’ já virou osso na boca de cachorro. Entretanto, ainda sou capaz de me surpreender, veja só!
Passei em frente à vitrine e vi uma sandália que me interessou. Não parei naquele momento porque estava com pressa. Voltei dois dias depois e ela não estava mais exposta. Fui abordado pela vendedora simpática. Perguntei da sandália. Ela alongou o indicador na boca pintada, franziu a testa, refletiu por oito segundos e recebeu a luz: ‘Sim, aquela sandália marinho bem confortável. Ah, vendi ontem à tarde, não vou estar tendo no momento. Posso estar lhe mostrando outra no mesmo estilo?’
Não, não pode. Vou estar me retirando. De calo nos pés e baleado nos ouvidos.

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