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Archive for fevereiro \28\UTC 2013

meninos nós

Mário Quintana finalizou, todo manso e ainda doce: ‘e nunca me perguntes o assunto de um poema; um poema sempre fala de outra coisa’.

É para essa outra coisa que me volto. É para trazê-la à luz que escrevo. Se não à exuberância da luz, às nuances e aos contrastes. Vasculho porões, cantos, dobradiças e sombras, fosse menino curioso e assustado desmontando rádios e insetos. Não para denunciá-los, apontar o dedo, devassar porões e insetos. Nada! Acender um fósforo,  assim vergado, sobre os tornozelos, posto em sentidos. Concedo-me a escrita com permissividade – aqui lápis e papeis. E o desejo. Seria inútil escrever, não houvesse em mim algum organismo – e o permissivo desejo.

Gilberto Gil não esconde: ‘Uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz ‘lata’ pode estar querendo dizer o incontível’. A subversão convocando; e eu andava de calça curta e estilingue na mão caçando passarinho no meio do mato, fazia domingo, mormaço, e estava só.

Eu me perderia fatalmente.

Mas a vejo passar. As mãos estendidas feito o varal onde as estampas ao sol. Estendo igualmente a mão, e vem  Clarice, muito menina, ainda tenra, num vestido de chita gasta, os pés descalços.

Ela diz, sem destempero ou eloquência, como quem rema canoa no lago: ‘Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu’.

Puxando meu braço, agora com firmeza, e mantendo mãos enlaçadas, ela nos faz afundar os pés na poça dágua à frente e, depois, trotando alegre e grave, me deixa ouvir – seus cabelos assanhados, um fio de cada cor: ‘O que salva é escrever distraidamente’.

Escrevi sem parar de correr no meio da quinta: ‘lamparina, clarice, lamparina’.

E assoprei a flama.

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cru

O meu amor é cru. Meu amor é feito do que não foi usado das compras excessivas para as férias de verão. Ele deseja te aquecer com a lenha cortada para o fogo que você se negou a usufruir. É ele o que apaga incêndios destes gestos perdulários, trocando lâmpadas queimadas. Este amor tira água do poço e bebe da moringa numa doçura funda. Desconhece vendavais e gestos exagerados, adjetivos e exclamações fraudulentas; e quando chora, fertiliza a terra.

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Na dúvida
assanhe-se
acenda-se
consulte-se
espraie-se
escove-se
até se cumprir

 

Na métrica
dilua-se
ejete-se
alpendre-se
requebre-se
guitarre-se
até musicar

 

Na guerra
fornique-se
exponha-se
recolha-se
belisque-se
floreie-se
volte pra si

 

No sangue
espade-se
dilua-se
injete-se
lambuze-se
vermelhe-se
até escorrer

 

Na folha
assanhe-se
dilua-se
fornique-se
ejete-se
injete-se
jubile-se
mergulhe-se
console-se
destrua-se
refaça-se
reflita-se
duvide-se
lambuze-se
digite-se
até escrever.

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Tangerino quer dizer vaqueiro, tocador de boi. Quando criança, chamava tangerina de tanja: ‘Gosto de tanja amarela e doce’, dizia, íntimo. Se Agostinho demorava na ordenha da vaca, a mãe falava: ‘Até Agostinho voltar, morreu o boi e quem o tange’.

A gente tangia a vida como quem abana o fogo num fogão de boa lenha – o abano de palha trançada.

Galinha d’Angola era angolista, cocá, guiné, tô-fraco, capote. Além de elegante, angolista voa, mergulha e requebra.

O galo garnisé era cheio de cor e tocava o galinheiro de crista arribada. Nós tudo caminhava juntos; ciscando, ciscando, ciscando.

Seguindo, ciscando, suando e querendo bem.

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camarim

Ela sentou o vestido vermelho e curto no banco da rodoviária. Olhou para os lados e abriu o zíper da bolsa quadriculada.

Pegou inicialmente os óculos de sol, experimentou, e quase enfia a cabeça dentro da bolsa à procura do espelho, logo ali. Gostou do que viu, presumi pelo sorriso satisfeito. Deu um jeito no cabelo mal tratado, tirou os óculos e continuou remexendo. Passou o batom de um vermelho tão vivo quanto o vestido; novamente o espelho. Cheirou o vidro de acetona de olhos fechados e guardou no bolso as embalagens de preservativo. Lixou rapidamente as unhas da mão esquerda, e abriu a caixinha dos remédios. Tomou duas pílulas de uma vez só. As outras jogou no cesto de lixo ao lado. Jogou também a escova de cabelo.

Enxugou o suor da testa no guardanapo de papel. Com a bic escreveu alguma coisa na palma da mão e ficou olhando, olhando, meneando a cabeça e movimentando essa mesma mão para um lado e outro, acompanhando com os olhos. Conferiu o porta-moedas, revirando as moedas com o indicador, e abriu a carteira de dinheiro. Carteira, batom, serra de unha, acetona, a pinça de metal, o porta-moedas, a caneta, a caixa de lenços, colocou, um a um, no saquinho do supermercado e jogou a bolsa no mesmo cesto abarrotado de lixo. Dirigiu-se até o pipoqueiro e pediu um saco grande com pouco sal e muita manteiga.

Seguiu andando descalça e desapareceu entre os ônibus da plataforma.

Quando passei em frente ao Posto da Polícia Militar no lado de lá da praça, a mulher de cabelos cor de fogo e brasa na boca descrevia em detalhes nervosos o quadriculado da bolsa surrupiada, minutos atrás, enquanto ajeitava a cinta-liga no banheiro público.

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A vida inteira imaginou-se escritor, mas nesta manhã descobriu o engano. Justo agora quando se sentia à vontade com folhas e com a tela em branco percebeu que necessita de respaldo, aprovação, julgamento. E um escritor deve escrever por coação interna, não para soar impactante, parecer inteligente ou levar o burro à sombra, aliviando a vida. Aliás, é por não ter conhecimento da vida que um escritor escreve, um escultor esculpe, e mesmo uma bailarina rodopia na ponta do pé – alheios a respostas, tudo assim perguntas e vertigem.

Falou-se em técnica – ‘Você progride a cada vez’ – mas ele toma vício por técnica, cometendo falácias, o rei segue nu e ele viu. Em um texto que se mostrava sólido avistou rachaduras e remendos, como se de um castelo enxergasse o calço segurando a torre, e avermelhou as bochechas.

Tempos atrás, o outro comentou depois de ler sua primeira coletânea de artigos: ‘Você não é jornalista, nem poeta, nem escritor, embora se assemelhe a todos. Nada pior para uma vocação do que assemelhar-se, peixe bicando o aquário sem jamais chegar ao mar. Jornalistas informam, poetas revelam, escritores se fuçam. Você passa por estas portas sem se deter em nenhuma.

Artista é quem não poderia ser outra coisa – acreditou desde sempre. Não por incapacidade de proceder, mas por necessidade de conhecer o avesso, investigar, jogar a luz, e só então se perder em todo o breu. O artista executa a arte respondendo ao impulso orgânico, quem sabe moldar em barro a loucura. Ou em palavras. Em telas, bordados, sapatilhas e pinceis.

– Romântico demais – disse o um.

– A arte tem a inutilidade de praticamente tudo – o dois.

– Sem a arte padeceríamos da solidão espiritual. – o três acudiu.

A vida inteira imaginou ser escritor.

Errou de foco e destino. Não se trilha um caminho para a escrita, não se vencem etapas, não há graduação. Labuta-se em silêncio como quem bate rede na beira do rio, ouvindo apenas o atrito na pedra.

Não será escritor pelo motivo mais raso: porque não escreve. Porque espera. E alardeia. A arte é pó flutuando à contraluz do sol: ou faz beleza ou faz tossir.

(deveria tentar ainda uma vez. existe ali dentro, em alvoroço, uma criatura que precisa – por favor – libertar-se dela. para então cumprir-se).

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Açucena, minha flor.

Se ele não tivesse dito antes eu te dizia agora: você é raio, estrela e luar. Como ele chegou na frente, não vou dizer. Porém, do meu iaiá meu ioiô você não escapa, e o graúdo que me perdoe, mas verso bom é feito rapadura, deve passar pela boca de todo mundo. Pelo menos de quem sabe o que é bom, de quem valoriza doçuras e calcinhas. E se tem duas coisas boas neste mundo são você e o Wando. Quer dizer, com a passagem dele – Deus te dê o céu, te chame lá! – sobrou apenas você, que por aqui ainda há de permanecer, pra alegria e festa do meu coração.

Um coração que se fosse de vidro tinha partido em pedaços, todo trincado pelo descaso, sua doida!. Descaso pro qual pouco ligo porque tenho certeza do teu regresso, apesar dessa crista empinada e das plumas ao vento. Açucena, a língua é o cipó do corpo, e você anda falando mais do que a mulher da cobra, minha flor!

Recebi tua carta mal criada, o cotoco da vela e os retratos, mas não pense que fiz outra coisa a não ser guardar na cabeceira da cama e esperar. Tudo isso vai voltar a tuas mãos e aos pés do Santo Antônio, onde guardas os tesouros. Sabes o quanto aprecio as miudezas desse teu jeitão. És toda miúda e isso vale muito, tu bem sabe. O mundo tão afolozado, tão arreganhado, sem segredo, sem mistério. Só tu manténs a corola e o anel, e me queimo de temer por quanto tempo vais velar essa chama.

Esse lugar virou terra de muro baixo, mas no teu castelo a muralha é alta e escalei com orgulho teu rochedo pra depois descansar a cabeça nesse regaço cheiroso. Cheiro de pano lavado a sabão, de estrume, de bosta de vaca manhã cedo no curral, de leite mugido espumando na teta, eita como é bom, e é pra lá que vou voltar, certo como há Deus no céu e um espalha-brasas no inferno pra desassossegar a calma.

Não ligue pros comentários de terceiros ou quartos, ou mesmo quintos, nem se deixe emprenhar pelos ouvidos, porque se for pra emprenhar conheço passagem mais macia do que o mostrador de brinco. E mal falei a bagaça já vou pedindo desculpa, essa língua sem cabresto riscou mais uma vez tua inocência, e a última coisa que quero é te entristecer a mudinha. Eu só tenho flores pra te dar, Açucena. Falam do pau que nasce torto, mas não comungo dessa marmota, e se insistem que cesteiro que faz um cesto faz um cento, te digo que não sou cesteiro, e mudar esse meu jeito aloprado pra não fazer mais vergonha pra tu virou questão de honra. Mãinha me ensinou desde cedo que quem tiver vergonha não faça vergonha aos outros.

Portanto, perdão se te ofendi, cachorrinha; não era meu projeto, nunca foi, jamais será. Eu sou do bem, eu sou de paz, eu sou é teu.

Só te peço que não regule além da conta este tesouro ansiado porque mãinha igualmente me ensinou que se guardar com fome, o diabo vem e come.

E entre eu e o Coisa-Ruim, que é que tu acha?

Sempre teu e à espera

Totó da Carmelina

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