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Archive for janeiro \30\UTC 2013

No post abaixo, o retorno do menino, narrador de O Rio Que Corre Estrelas, à fazenda de sua infância muitos anos depois. Este texto não faz parte da edição do livro publicado em 2012.

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Volto lá tantos anos depois. Não há mais estrada de barro. Os buracos estão cobertos e os atoleiros deram lugar a um asfalto precário. Não há mais porque deixar o carro embaixo do pé de manga, subir no trator ou tomar os animais para seguir viagem, porque nada é intransponível para o automóvel, e já não existe o que eu sabia de nós.

Sobre aquele rio caudaloso, pequena ponte de madeira, e ele não passa de um riacho que chega a secar no verão. Desço do carro para observar: um olho d´água. Olho para cima e revejo os coqueiros sem conseguir imaginá-los outra vez na horizontal formando a passagem pelo rio, e os calafrios, e as noites.

Não há mais aventuras. Cadê a bravura do meu pai? Era deste mar, quase um aquário de peixes raquíticos, que nos defendia feroz? Ele sabia disso na ocasião? Se sabia, por quê deixou acreditar no que acreditei, tantos idílios e temores? Ou de nada ele sabia, urdia a própria vida conduzindo sem mistério o que puxava pela mão? Acho que era isso, natural que fosse assim, entretanto não consigo evitar o incômodo. Incômodo que daqui a pouco vai se transformar em compreensão, no momento seguinte em resignação; se tudo continuar dando certo, em maturidade.

Sigo em frente na estrada de asfalto esfumaçando ao sol. Ar condicionado ligado, motores silenciosos, os sentidos confortáveis. Houve um dia, neste caminho, a casa do Gigante Zorka Bogatir no alto de uma montanha colossal. Ao perceber agora este pequeno acidente geográfico, constato que a casa, escolhida a esmo, em nada se diferencia das outras tantas casas de taipa, gente comum, paredes marrons, resultado de um barro recolhido no chão lamacento e jogado com força e raiva na tela à frente para cumprir a labuta do dia. Este, o castelo.

Chegando à porteira da fazenda, desço do carro batendo a porta, pisando com força no chão, esmurrando memórias, procurando imagens dentro de mim. Em busca de uma emoção que ao me sensibilizar traga de volta referências, me humanize, rejuvenesça, coisas assim. Ressurreição, quem sabe.

Fico à espera, e não preciso esperar demasiado. Em pouco tempo todo este exercício estético perde qualquer importância. Numa reconstituição orgânica ergue-se a aquarela, e o que vejo é meu receio de descer do cavalo por causa dos cachorros latindo no escuro, estrelas serpenteando no céu uma taboa de pirulitos, minha mãe entrando na casa, ditando ordens, mandando fechar o portão, acender as lamparinas, abrir as janelas e varrer o pó. O pai, descontraído e jovem, fazendo mil perguntas sobre porteiras, criações, sementes e chuvas. O Berto tomando o rumo da pequena casa onde fica o motor, e com a naturalidade dos gestos cotidianos, fazendo a luz.

E neste segundo, exatamente neste segundo, cruzam-se todos os fios e consigo penetrar mais uma vez no imenso bordado que somos nós.

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A carta suicida de Marcela guardo na caixa de ferramentas. As miniaturas de máscaras japonesas, na caixa de madrepérolas. Na memória, o ninho de ovos branquinhos que encontrei no pasto – sete anos tinha? Na carteira, a foto do amor que me largou quarenta anos faz. No bolso, o caroço da pinha. É aquecido no gradil costal que mantenho aceso o primeiro verso. Descobri na gaveta do faqueiro de prata a dentadura do vô Guilhermino que, palavra de honra, nem sabia ter guardado.

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Pipoca em espanhol é palomita. Pomba é paloma. Quando o milho pula na panela virando pipoca, ouço o estouro das pombinhas desenfreadas. Outro dia juntaram-se várias, explodiram a tampa de alumínio, irromperam de lá e bateram asas pela janela aberta da cozinha. Sem sal, sem manteiga nem nada. Apenas asas.

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 A dor está passando

o bloco passando ali

Cenira passando a roupa

no céu passa um gavião

um avião também passa

A paixão passou,

         virou paçoca

Marina passada!

o tempo passa

uva-passa

passageiro

passaporte

passarinho

 

                          passa não!

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Pelo meio da manhã, quando saí com os cachorros, cruzei com ela, já de volta, empurrando o carrinho de bebê vazio. Estava linda em sua juventude fresca, e usava o uniforme branco.

O frescor era apenas externo, a um olhar distraído; por dentro da pele, anciã deformada por rugas, e a grande dor. A mãe da criança dispensou seus serviços, para cuidar, ela própria, do bebê – é mãe que não consegue delegar; talvez a última. O ciúme do primeiro filho: ‘O menino se apegou demais a você’, e bateu a porta depois de devolver a carteira assinada e os sonhos de valsa.

Nos três dias que antecederam hoje, ela vagou pelo bairro, o mar ardendo no olho. Espiou da calçada o quarto do menino no segundo andar; anteontem pernoitou por ali, em silêncio, ao pé da mangueira.

Hoje acordou cedo e, de banho tomado, me cumprimentou quando eu ainda escovava os dentes na guarita. À noite sou vigilante, é pela manhã que levo os cães para passear. Falou ‘vou às compras resolver a vida’. Fechei o Bolano e atendi ao celular – minha namorada vai passar mais tarde para trazer a marmita do almoço, ofereceu almôndegas.

Só tornei a vê-la pelo meio da manhã, empurrando o carrinho vazio e tomando o rumo da casa no outro lado da rua. Estiquei o pescoço e acompanhei com os olhos. Vi quando tocou a campainha. Vi quando abriram a janela no segundo andar. Ouvi os tiros: três.

Otto, o rottweiler que eu estava conduzindo, deu um tranco na coleira e desembestou na direção dos tiros. Arrastou-me feito tsunami. A Range Rover não conseguiu frear e deixou dois riscos pretos no asfalto. Minha cabeça ficou grudada no para-choque, num alto-relevo acintoso deixando dentuço o carro. Otto, mais veloz que eu, atravessou o corpo parrudo até o outro lado da rua e, de lá, se voltou para mim com a língua inteira fora da boca, arfando o susto.

Permanecemos, eu aqui, e ela na calçada do lado de lá, num silêncio constrangedor. O carrinho de bebê, desgovernado, tomando a direção do cachorro.

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Epaminondas não sabe o que o espera após o lançamento, mas decidiu que através da janela de vidro trincado ele não olha mais. Epaminondas tem olheiras redondas e uma barba mirrada que quase já não é. As olheiras contornam olhos cansados deste horizonte de fios frouxos, papagaios rasgados e antenas de TV. Estamos no vigésimo andar e a cidade é uma nesga de paredes descascadas e metais enferrujados.

Sentou na beira da cama com delicadeza para não desmanchar o lençol de tambores e palhaços coloridos, e pegou a caneta-tinteiro, herança do bisavô, mantida na gaveta do criado-mudo. Depois, os papeis de carta desfolhados dentro da caixa de papelão e percorreu as epígrafes em itálico, ‘Amar é não ter jamais que pedir perdão,’ ‘I want to be alone’,Mas que seja infinito enquanto dure’, até chegar ao ‘Play it again, Sam’, onde começou a escrever a carta para ninguém – (o plano de voo?).

Não há lua na nesga de céu, não há estrelas, mas o guarda-noturno apitou lá embaixo pela segunda vez, está ali. Epaminondas jamais o viu, mas sabe que ele escorrega de casa pela janela do quarto para ganhar a liberdade de apito, bicicleta e vento no peito; desejo de flanar pelas ruas claras do vapor de mercúrio, chuviscos no rosto.

Está iluminado o Epaminondas, e entra pela janela entreaberta leve aroma de banana esmagada com garfo em prato fundo de leite, a infância que não envelheceu. Acelera a escrita porque irá se lançar depois que o vigia apitar pela terceira vez; o sinal para plainar sobre a cidade, dentro da noite aberta, nessas asas de isopor que vem construindo em segredo desde a primeira insônia.

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