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Archive for dezembro \31\UTC 2012

2013

Bem aventurados os homens de BOAS MANEIRAS.

                                    Votos de PAZ!

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os de belém

Belenenses não têm pressa.

Eles gostam de andar sem camisa e de sandália de dedo. Elas usam sombrinhas ao sol.

Comem peixe frito com açaí e tapioca do Pará. Maniçoba bem fervida, e tomam tacacá final de tarde. Chupam mangas caídas  das mangueiras, tuneis verdes pelas ruas. São morenos e castanhos, cabelos lisos, roxo nos lábios. Convocam a Virgem de Nazaré e os Pretos Velhos, velas e defumador. Tomam banho cheiroso, perfume de chega-te a mim, olho de boto por baixo da camisa. Todo o patchuli.

Belenenses comem em barracas de rua, e têm o  tucupi e o pato. Cupuaçu.

O círio onde ardem.

Vão ver-o-peso e o por do sol avermelhando nas docas. Gostam de barulho e buzinas. Belenenses dançam e comemoram, a música alta. Tecnobrega. Alto. Bebem cerveja gelada. Sorvete de açaí, bacuri, taperebá, e tem uns índios. Andam na chuva respirando phebo. Eles cumprimentam e sorriem. Gostam de bater papo e fazer a sesta, alguns são poetas. Falam galhinha, alhi e lhinda. Ao final exclamam: égua-te!

E dizem, sorrindo, depois que tu esperaste meia hora na fila do caixa: ‘Meu amor, não tenho troco, passe depois, tá? Por favor, o próximo!’

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novelo

Não sei se acho divertido ou patético quando ouço: criança é assim, criança é assado, criança é cozido. Como se adultos fossem interplanetários ou de outra natureza, e as observassem por um telescópio distante. Como se o fio da lã, longo ou miúdo, não fizesse parte do mesmo novelo.

No que me diz respeito, quero mais é me movimentar para frente, para trás, e não perceber grande estranhamento ao voltar a cabeça para um lado ou outro.

Quero mesmo é que, de mamando a caducando, jamais deixe de me reconhecer nesta  espécie – fio da trama.

Viver talvez seja unicamente uma precipitação da eternidade. E a eternidade desconhece infâncias, inocências, juventudes, maturidades…

O tempo é este.

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O casal parou no meio do caminho para repousar. Estavam ambos cansados de fugir. Abrigaram-se num estábulo, à beira de uma estrada deserta, e logo a mulher sentiu os primeiros sinais. Foi uma parada providencial, o momento e o lugar apropriados para a criança nascer.
Nessa noite, sob a luz vívida de uma estrela, a mulher sofreu intensamente as dores do parto. A madrugada ia alta quando, entre seus gemidos abafados, se distinguiu o choro do recém-nascido.
Para não repetir o erro, procuraram restos de madeira que havia por ali, separaram dois pedaços, preparando o ritual. Foram rápidos. O marido, carpinteiro, tinha muita prática.
Crucificaram o menino ali mesmo. Depois juntaram os animais e seguiram viagem.

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Ontem, passando pela Visconde de Sousa Franco, fim de tarde em Belém do Pará, cruzei com um homem velho, vestindo uma bermuda branca – que poderia ser uma samba-canção – camiseta branca amassada, meias e tênis. Vergado, andava devagar, e tinha um curativo de gazes no braço direito. Parecia perdido na avenida, embora um semblante tranquilo. Talvez levasse no braço do curativo um scalp para aplicação de soro; talvez, não é certo.

Acho que se apaixonou pela enfermeira, ontem de folga, e não suportando a ausência ganhou as ruas. Minha irmã, caminhando comigo, perguntou, grave: ‘Ele estava internado, ou a enfermeira é de domicílio?’

Eis a questão que me empurrou para os corredores do labirinto.

Digamos internado. Em hospital, ou clínica de repouso? No primeiro caso, doença da idade; no segundo, é a alma que dói? Ou o contrário: na casa de repouso o emplasto para a dor do desamparo?! Melhor ainda: tudo acertado de comum acordo com a família. Habita um quarto branco e arejado, com leve perfume do jasmim mantido próximo à janela, protegido dos ventos, hein?!.

E a enfermeira que o acometeu, moça laboriosa e doce, ou dissimulada e fria? É certo que se trata de um armador, cujos navios irrompem da Amazônia para o mundo – veja como pisa no chão!

O ferimento no braço, desgaste da pele seca, folhas de outono, ou beliscão da desmiolada? E ele desconfia de nada, ou sabe de tudo e se finge de morto para usufruir indecências?

Se fugiu de casa ou do hospital, já deram por falta? Ele é do tipo que enche uma sala, ou mal preenche uma casa de botão?!

Existe um cachorro farejando a porta à espera?

As pernas cambotas, ele foi um cavaleiro galhardo ou são deformações ortopédicas?

Neste momento onde me ocupo, que é feito dele

e do meu sossego?

Pera lá:

Ontem, passando pela Visconde de Sousa Franco em Belém do Pará, cruzei com um homem velho, vestindo bermuda branca, camiseta branca amassada, meias e tênis. Na avenida, abarrotada de gente, não havia ninguém PONTO FINAL.

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pintor

Nasceu para o que se tornou, mas foi nascido para usar a beca e portar o anel. A mãe quis, o pai aplaudiu, o professor disse sim, eis o comando! Foi bom aluno. Gostou de saber sobre a vírgula, diferenciá-la do ponto e perceber a respiração do texto, embora jamais tenha compreendido a natureza da raiz quadrada – se raiz é seiva, onde a matemática?

Interessou-se pelas folhas dos livros e seus cheiros para além das informações, e gastou tempo apalpando-os antes de lê-los. Deleitou-se com o movimento de ir à papelaria, escolher lápis de cor, folhas e celofanes para encapar cadernos nas tardes mornas. Para ele, sem conhecimento, esta era a única atitude subversiva, palavra essa! Subversiva, sim, porque delatava o prazer, e o prazer é, de todas, a explosão mais subversiva.

Dedicava-se a encapar cadernos e livros, acompanhar besouros e formigas, e destampar panelas, aspirando calores numa selvageria mansa. Também gostava de chuva e doce de caju. Principalmente acompanhava pessoas e cores quase sempre pardas, vez ou outra vivas, naquele percurso – tudo passarinho, ali um rouxinol; uma mulher que planta agachada, menino esfarelando terra, piabas serpenteando, e o grande rio.

Permaneceu indo e vindo e duvidando que tivesse nascido para usar a beca e deter respostas, todo assim perguntas.

Quando encontrou as tintas e os pincéis, a exultação o deixou humano, como quem, de repente, rompe. E danou-se a colorir as telas.

Continuou sem compreender, mas passou a matizar as sombras, deixando aflorar o que na lavoura estéril permaneceria semente; e se tornou fecundo.

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baratas e cupins

A tia, de namorado novo, e gostando.

Quando chegaram do sorvete, a mãe comentou:
‘Ele parece entusiasmado, minha irmã’

Ela passando o polegar pelas unhas:
‘Se cupim não der e barata não roer…’

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