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Archive for novembro \29\UTC 2012

veloz

Deve ser bom morar nessa cabecinha onde tudo está sempre mudando de lugar. Pratos, talheres, sombrinha, machado, ovos, cantigas e mesmo os abricós. Lá vai um pilão de madeira, uma máquina de fotografia, acolá a vassoura de piaçava, o frigobar amarelo, a arca de couro marrom, o submarino de prata, flanando tudo. Ontem ainda, o piano no corredor, agora no quartinho bonina que Esmeralda pintou. A orquídea azul acaba de passar por aqui a caminho do lavabo – abandonou a mesa de centro. Toquei num pensamento muito verde que acabei de enxergar, e era o oposto daquele amarelo que você havia pensado ontem, por sua vez diverso do alaranjado da segunda-feira; cansou, encheu, vazou.

Sopra-sopra um vento nessa cabecinha sua. E levanta saias, balança brincos, fazendo gangorra pro pombo lilás no fio do poste, feliz e tontinho na labirintite que o vento faz.

Se morasse por aí, dentro de sua cabeça veloz, talvez eu descolasse do chão.

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psicologia aplicada

O filho de dona Curica foi mimado ao ponto de se tornar insuportável, e assumiu a tirania doméstica nem bem nasceram os pelos do bigode.

Quando dona Curica veio chorar as pitangas com a tia, ela nem tirou os olhos do bordado: ‘quem não faz filho chorar, chora por ele’.

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eles dois

Está aprendendo a envelhecer com o pai. Antes, aprendeu a pescar, a se enxugar depois do banho – ‘primeiro tire o excesso de água, passando as mãos pelo corpo, vigorosamente’ – a dirigir o jeep, a nadar no rio e a montar a cavalo. Hoje, seus próprios cabelos embranquecendo, observa o desempenho do pai, que já passou dos oitenta.

São informações banais: ‘eu caminho vergado pra manter o equilíbrio’ – ou práticas: ‘não dá pra ir nem à esquina sem um documento de identificação no bolso’; ainda: ‘cair depois dos setenta pode ser definitivo’. Lembra de, criança, caminhar no escuro de um quarto para o outro, conduzido por ele e, hoje, a imagem é novamente essa: o pai à frente, enfrentando a neblina, e anunciando o caminho; abaixe-se, abaixe-se!

O filho caminha por outros campos, fez outras viagens, mas não deixa de contemplá-lo adiante ou ao lado, porque tudo converge para a mesma base de lançamento das asas-deltas; e quem não gostaria de terminar planando sobre o grande abismo?!

O pai aponta na fila do banco: ‘veja, todos têm um assunto na ponta da língua, só lhes falta ouvidos’; e ao ver o casal de braços-dados na calçada, claudicando a seis pés –  bengalas incluídas – morre de rir: ‘chega a ser engraçado de tão patético’. E completa, aludindo ao Drumond: ‘um homem vai devagar, mas quando lhe acomete a gota vai mais devagar ainda.’

Incrível como o estúpido da existência o diverte. Ele não se curva à criação, nem ao pano final, apenas observa, com uma bala de morango na boca; por isso dá gosto essa companhia. Atravessando, de lanterna na mão, a corda esticada, ele joga um farol incandescente no olho arregalado da morte; e continua passando, passando…posto que VIVE.

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Pombo sobre pomba: desejo

Taxa sobre taxa: governo

Pedra sobre pedra: muralha

Óleo sobre tela: pintura

                                          Sobre você: sol

 Nota sobre nota: fortuna

Barco sobre mares: viagem

Normas sobre tudo: cansaço

Água sobre fronte: batismo

                                      Sobretudo: inverno

 

 Pomba sob pombo: desejo

Guarda sob chuva: sombrinha

Ovos sob plumas: ninhada

Fogo sob flandre: castanha

 

Sobressalto: sandália

        Sobremesa: sorvete

                  Sobressalente: adultério

 

Sobrevivente: naufrágio

Sobrenome: sangue

Sobreloja: bugigangas

                                                          Sobre tudo: você

            

                          Porta para mala: bagagem

                          Guarda para chuva: sombrinha

                          Arco para íris: óculos

 

Sobressalto: grito

Sobremesa: toalha

Sobressalente: pneu

 

                                           Arco para íris: mel

              Barro para artesão: pote

 Cabo para concha: colher

 

                                                                                        Amor é degustação.

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Oito horas. Maryah levanta da cama, toma dois goles de água, prende o cabelo num coque e desce para tomar o café da manhã, preparado de acordo com a dieta que o nutricionista elaborou a partir das recomendações do médico nutrólogo, após avaliar o check up semestral.

Despacha o filho mais velho, 12 anos, para o psicólogo (problemas de identidade sexual – sonhos recorrentes com libélulas), a do meio, 9, para o fonoaudiólogo (começou trocando o S pelo T, depois o V pelo G, mas quando chamou o tio de pai não deu mais para negligenciar) e a caçula, 5, para a aula de reforço no inglês, ‘que dificuldade tem essa menina para aprender línguas!’

A copeira entrega os cachorros para o passeador de cães e recebe a personal organizer contratada para dar um trato nas gavetas dos armários desde o closet até a cozinha.

A pressa é necessária porque ainda às 10 chegará a personal stylist para definir, nessa terceira abordagem, o estilo de roupas a ser adotado no verão. Antes, quem chega é Ulisses, o coach escolhido para desenvolver com Maryah competências diversas, indispensáveis ao bom desempenho neste universo competitivo – seja lá o que isso queira dizer. Máximas deste jovem profissional:  produzir mais e melhor; encontrar formas de causar real impacto nos resultados; implementar mudanças; blindar os funcionários domésticos.

Tudo assim, difícil de compreender, contudo absolutamente necessário.

– Mas eu preciso, que se há de fazer?! – ela reflete, voltando as palmas das mãos para cima em um gracioso giro de punhos, revirando discretamente os olhos.

A manicure e o pedicuro chegam juntos, portanto agora ela se encontra sentada na poltrona, braços e pernas estendidos e à disposição dos profissionais. Visto de longe, Maryah parece se decompor em partes. Pelo contrário: ela está se produzindo, se compactando, juntando peças.

Enquanto isso, o jardineiro poda a roseira, retira três folhas secas dos gerânios e rega o jardim, apesar da chuva de ontem à tarde; é preciso permanecer pró-ativo. Aproveita e esfarela com a ponta dos dedos as flores do manjericão plantado na horta ao lado. O piscineiro há muito deixou a água no ponto de receber o personal trainer, hoje é quarta-feira, dia de exercitar o triatlo.

No final da manhã, um sobressalto: necessário chamar a decoradora porque deseja trocar o tapete antiderrapante do banheiro e ela está confusa quanto a cor. Aproveita e solicita à cozinheira que, driblando o nutricionista, telefone diretamente para o nutrólogo a fim de saber se hoje – só hoje – pode substituir a alface pelo agrião. Gostaria ainda de folhear a Caras Argentina, entretanto a personal cultural vai cobrar a leitura do Murakami, e ela ainda não conseguiu vencer a introdução, cadê tempo?

Maryah malha, almoça, (o agrião foi liberado) e conversa rapidamente com as crianças. Ao final da tarde, depois do culégio (é assim que pronuncia) o mais velho vai à aula de balet,  a do meio à terapia ocupacional e a caçula à aula de mandarim – evidente que o mundo vai ser comandado a partir da Ásia Oriental, informou o maridão.

Por volta das quatro chega o astrólogo para as projeções do semestre (2014 será especialmente introspectivo – declarou), seguido da taróloga incumbida de checar se as quadraturas anunciadas no mapa encontram ressonância nos arcanos. A numeróloga, que sepultou definitivamente sua simplória Maria de batismo, está sendo esperada para amanhã a fim de ajustar pequenas mudanças na assinatura.

O marido liga de Dubai; fechou negócio. Encontra-se eufórico no bar do hotel. Afrouxa a gravata, descalça um pé de sapato. Sugere trocar o mandarim da caçula pelo árabe – ‘grandes chances do mundo ser administrado a partir do Oriente Médio; mas, atenção, mantenha o inglês’. Ela promete ‘levar pra terapia’ (a individual, não a familiar).

As crianças chegam novamente, discretamente trôpegas. Na sequência, entra Marga, a contadora de filmes e histórias. Após esterilizar as mãos e vestir os pijamas, se reúnem os quatro na Sala de Ficção, anexa à Sala de Reuniões Familiares, um sanduíche e coca-cola para cada um. Forma-se pequena confusão. O mais velho quer ouvir pela milésima vez Minha Vida em Cor de Rosa, moderno clássico do cinema LGBT francês; a do meio pede, pulando e batendo palmas, Zogaram Mamãe do Tlem e a caçulinha implora informações mais detalhadas a respeito de outro clássico visto de relance numa reprise do telecine: Matou A Família e Foi Ao Cinema.

Maryah observa da porta, feliz. Esboça um sorriso terno, acariciando o penhoar de seda. Após rápida consulta ao serviço meteorológico – amanhã o dia começa com o tai chi no jardim – dormirá na paz do dever cumprido.

E por não ter a quem delegar os sonhos, fecha a porta, desce a cortina, retira cílios e unhas postiças, pega na caixinha de matelassê o indutor do sono e, com um movimento cansado e suave, apaga a luz para encerrar mais um dia produtivo.

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eternidade

Talvez a vida seja unicamente uma breve precipitação da eternidade.

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um concílio

– Silêncio!

Pedro bateu a chave na mesa do plenário e todos se voltaram para ele, sentado na poltrona central.

– Atendendo as solicitações de audiência, estamos aqui. Vamos ser rápidos e objetivos porque, não preciso repetir, time is money.

– Money, money, that´s the problem! – Edwiges foi a primeira a se manifestar – Serei breve. Não estou conseguindo atender minha demanda, Pedro. A galera lá embaixo não para de se endividar, e a inadimplência está fora de controle.

– Como são perdulários esses frangotes!

– Até os americanos, que sempre me deram sossego, agora não desgrudam do meu pé. Ouvi dizer que pretendem me levar para Saint Patrick, veja você. Com a solicitação dos países emergentes, terei de dançar miudinho pra descascar esse ingá.

– Isso não é nada, Edwiges. No desespero pra ser atendido, o pessoal anda enfiando os pés pelas mãos. Imagina que agora não passo um único dia sem solicitação de casamento, eu que sempre estive na pasta da recreação – interveio João.

Antônio interrompeu, visivelmente nervoso:

– Não recuse, João, por favor! Andei terceirizando meu negócio porque está impossível atender a demanda. Historicamente sempre fui dos mais assediados, mas num mundo pós Madonna achei que me dariam um refresco.

– E não deram? – Pedro pareceu surpreso.

– Qual nada! As meninas se emanciparam, algumas chegaram a presidências de Repúblicas, porém não desgrudam de mim. E, pior, continuam utilizando aqueles métodos pré-históricos. Esta semana passei quatro dias de cabeça para baixo até atender a solicitação de uma senhorinha carola do interior do Acre. A fulana tem dois dentes na boca: os sisos. Tive que tirar leite de pedra.

– E por isso você vai correr com a sela?!  Cada um com o seu B.O., meu amigo – João se levantou e pisou forte no chão.

– Há séculos desenvolvi essa labirintite – Antônio insistiu, dando voltas no pescoço.

Pedro ponderou, cofiando a barba branca:

– Realmente. Antônio vai precisar montar um pequeno staff; ainda mais que a demanda masculina também existe. Fora o terceiro sexo que, já quase o segundo, também tem lá seus projetinhos burgueses; falta de imaginação!

– Não contem comigo! – gritou Antônio de Pádua. – Minha pasta está sobrecarregada. Penso até em me juntar a Edwiges num Mata Fome qualquer; e ainda Judas Tadeu, habituado a lidar com essa gente. Convoquem Clara, que vive de sombra e água fresca. Olha aí esse pulôver no pescoço, ela mesma teceu. Veja lá se eu teria tempo pra essas veleidades.

Clara levou a mão à cintura:

– Tá louco, Antônio de Pádua? Você não tem acompanhado os jornais? Com a mixórdia praticada naquele planeta, meu ministério tem sido dos mais procurados. Veja só: alagamentos na Austrália, seca na Paraíba, tsunami na Indonésia, você caiu em cima da cabeça? Até o Brasil andou tremelicando um dia desses. E Sandy, a doce Sandy, você percebeu o quanto de repressão havia naquele corpinho?

– Mulher de pouca fé! – Atalhou José, em sua calma habitual. O trabalho enobrece a todos. E nós não somos funcionários, somos profissionais, percebem a diferença?

Pedro novamente conciliador:

– Não devemos nos dispersar, meninos. Onde está Jorge?

– Novamente atrasado. Com a desculpa que vem a cavalo é sempre o último a chegar.

Rita de Cássia é a própria mansidão:

– Na verdade, todos gostariam de estar no lugar de Pedro, com acesso direto à corte. Somos apenas moleques de recado, isso é que é.

Pedro não se impressionou; levantou discretamente a voz.

– Mas o que é isso, Rita de Cássia?  Vai sugerir insurreição a essa altura da homilia?

– Longe de mim, Pedro, mas é preciso reivindicar nossos direitos. Eu, particularmente, não tiro férias há décadas. Não falo em remuneração, falo mesmo em repouso, pois se até Ele descansou no sétimo dia. – Arrancou uma cutícula com o dente e fez singelo muxoxo.

– E eu, que faço jornada dupla?! – Interrompeu Bárbara, arrojada, a tiara reluzindo na fronte. Além de minhas obrigações por aqui ainda tenho que participar dos eventos na Bahia, no Rio de Janeiro e em toda a África, encarando fumacê e aquela biritada toda. E os batuques?! 4 de dezembro e 2 de fevereiro fico tonta, emendando uma coisa na outra. Pra não falar no Reveillon e aqueles barquinhos de isopor; vocês pensam que aprendi a nadar?!

– Se for por isso… – Emendou Jorge, chegando a caráter, todo guerreiro, bota de cano alto, bigode aparado, o cavalo branco amarrado no toco. Parou de falar, correu os olhos pela sala, cumprimentou a todos com um sorriso viril e continuou, tirando o chapéu:

– Se for por isso, tenho muito que reivindicar. Frequento os mesmos terreiros de Bárbara e sou solicitado a descascar abacaxis que enrubesceriam até Ele lá – e elevou o indicador. Essa junção de preto com branco é que causou a confusão. Em vez de deixar cada um no seu quadrado, inventaram o tal sincretismo sem nenhuma legislação trabalhista. Assim, a gente cai no duplo vínculo sem qualquer apoio legislativo.

– Fora a confusão que faz em nossa cabeça – Bárbara atalhou. – Dia destes, acordei com o vestido azul de Iemanjá exatamente quando deveria estar com o branco Filha de Maria para receber as homenagens na paróquia de Santo Antônio de Balsas, que pouco tem a ver com a tradição africana.

Jorge falou pausadamente, ainda de pé:

– Eu, que fui alfabetizado no idioma de Dante, tive que aprender numa lapada só nagô e yorubá pra não boiar na festa. No começo todo mundo se divertia com os atabaques e eu ali com aquela cara de paisagem verde. Até beber cachaça, tive que aprender rapidinho. E fumar, então?! Acha que eles conhecem um bom cubano maturado? Não, meus amigos; é no fumo de rolo.

– Você, pelo menos, é lembrado. Até Jorge Benjor fez uma musiquinha bastante razoável pra você.

Jorge pavaneou-se e cantarolou baixinho: Jorge sentou praça na cavalaria, e eu estou feliz porque também sou de sua companhia… Ele sabe que desperta grandes paixões. Conhece, igualmente, a ingratidão popular a que Tomás de Aquino se refere.

– Só se lembram da gente quando têm alguma audiência a solicitar, já reparou? E quando fazem um arremedo de agradecimento é apenas para garantir a próxima solicitação. Lembra do quanto incensaram Expedito um tempo desses? Distribuíram mais santinhos do coitado do que de candidato a vereador, e nem se deram ao trabalho de recorrer ao fotoshop. Não têm a mínima consideração aqueles lá.

– O pior é que praticamente não há renovação nesse plenário. A demanda aumenta e o número de atendentes permanece praticamente o mesmo. Do jeito que as coisas andam lá por baixo, não vejo muita perspectiva de mudança. – Rita está pessimista. Abriu o leque.

– Não vejo a hora de Teresa chegar – Edwiges comentou com humildade. – Habituada a correr com o pires em Calcutá, desenvolveu uma invejável experiência. Terá muito com o que contribuir.

– E que demora para contratá-la! Os trâmites no Vaticano estão mais lentos que a justiça brasileira.

– Coitada de Teresa, tão generosa; não sabe o que a espera!

– Vocês não imaginam o que passo com as beatas de Portugal – Vicente de Fora coçou a cabeça. Emendou:

– Os beatos são os mais exigentes. Estão sempre se arrependendo do que fizeram e do que irão fazer, sem alterar minimamente as atitudes, não é interessante? E que línguas, senhor meu, que afiadas línguas! – Esconjurou.

Pedro interrompeu as lamurias.

– Muito bem, senhores, já percebi: trata-se de uma rebelião. Sejamos claros porque urge o tempo, e ainda sou autoridade aqui. Qual a proposta, vamos lá, qual a proposta?

– Cogitamos entregar um documento em palácio, destacando todas as nossas tarefas, apresentando os resultados auferidos até o momento e ainda uma projeção para o próximo século, a continuar as coisas como estão.

– Isso está me cheirando à ingratidão de obreiros. Vocês foram escolhidos para usufruir da vida eterna, isentos de todos os impostos, longe do choro das crianças, ausentes dos almoços de domingo nas churrascarias, e ficam nesse chororô feito bezerros desmamados. Por acaso invejam a sorte dos seus clientes? Hein? Vocês são a elite da humanidade, meus senhores. Isso, por acaso, é pouco?

Silêncio.

Pedro continuou:

– Uns choram porque apanham, outros porque não lhes dão.

Voltando-se para ele, enrodilhado na túnica marrom, encostado na parede:

– Compartilha esse pensamento, Francisco de Assis?

– Os pets são o negócio que mais cresce em vários países, Pedro; jamais estive tão atarefado. Hoje tenho que atender não apenas aos irmãozinhos de quatro patas, mas também aos irmãos donos dos pet shoppings que, como a maioria dos irmãos empresários, atiram em todas as frentes.

Pedro fechou os olhos: até tu, irmão Brutus?!

– Muito bem lembrado, Chico – Interrompeu Sebastião. Dirigindo-se a Pedro – Trouxeste a calculadora?

Pedro enfiou a mão no bolso da túnica.

– Cada um destes pedintes ocupa, em média, cinco ministérios. O mesmo dono do pet shopping aciona Francisco no tocante aos animais, Onofre no que se refere a dinheiro, Edwiges se por acaso endividou, e Antônio para conciliar dilemas do coração…

– Às vezes mais de uma vez por empreita – atalhou Antônio – se tiver mais de uma mulher, situação nada incomum para aquela gente. Mas continue, desculpe a interrupção.

– Pois bem. Quantos habitantes têm o planeta ao qual servimos? Seis bilhões. Tire uns 15% que não nos molestam, por diferentes razões, e a que número chegamos?

– Pouco mais de cinco bilhões de assédios. Diários.

Pedro coçou a cabeça secular.

– Realmente assustador.

– Outra sugestão seria tu mesmo teres uma conversa franca com Ele. De homem para hom…, quer dizer, de santo para…, enfim, Pedro, sabes a que me refiro.

– Continue…

– Das duas uma: ou ele revê a constituição e dá uma relaxada, ou aumenta o contingente, porque quando foi acometido por esse furor legislativo se tornou impossível não incorrer em falta continuamente. Por outra: pode a galinha desconhecer a natureza de seus pintinhos?!

– Se liberar os prazeres do corpo já vai ajudar um bocado – Teresinha interveio, esperançosa, e se sacolejou.

– Que será dos psicanalistas?

– Outra classe desempregada para eu contabilizar – Edwiges se levantou impaciente, batendo a saia para amenizar o calor.

– Se pelo menos relaxasse o artigo dos pecados por ‘pensamentos, palavras, atos ou omissões’, não é? Onde se encontra alguém quando não está pensando, falando, agindo, ou se omitindo, alguém saberia me dizer?!

Pedro interveio prontamente:

– Vocês falam como se estivéssemos no Rio de Janeiro deliberando a respeito da descriminalização das drogas. O que é certo é certo e o que errado é errado, ora essa! Arranhem este fundamento e despencaremos todos no fosso do achismo, um passo para a devassidão geral. E não sejam burros: instaurando-se a devassidão e a anarquia, vocês perderão completamente a serventia; por acaso pouparam para a eternidade?

Novo silêncio. Ouvir-se-ia o voo de uma mosca.

Ivo, deslizando o dedo pelo rubi do anel, ponderou:

– Por outro lado, existe uma razoável demanda que se nega a recorrer ao baixo clero, e trata diretamente com a presidência. Têm outra cosmogonia e se proliferam à velocidade da luz. Ele estaria disposto a atender pessoalmente o nosso eleitorado? Trata-se da grande maioria e, por enquanto, está blindada, sob nossa direção.

Francisco tossiu, Luzia assoou o nariz, Rita abanou o leque.

Novamente o silêncio.

Pedro retomou com voz grave:

– Muito bem. Quem vai escrever o tal documento?

– Teresa D’ávila, que entende do riscado – Falaram três ao mesmo tempo.

– Por quê não Antônio Vieira, ainda mais erudito?

– Se Pessoa não tivesse pecado tanto… – Alguém lamentou a ausência.

Formaram-se imediatamente duas facções: correligionários de Teresa D’ávila contra defensores de Antônio Vieira. Dividiram a sala como nos tempos de escola, formaram círculos.

Galvão, ainda em fase de estágio, segurou o queixo com a mão:

– Até aqui, meu Pai?

– Vem pra cá, Galvão. – Convidou o primeiro grupo, sob protestos do segundo.

Cícero, que entrou de penetra com seu chapéu de couro, sorriu amarelo, exibindo dentes escuros. Refez-se e perguntou:

– Tem alguém do Ceará por aí?

Ouvidos surdos. Pedro chegou até ele.

– Comporte-se como ouvinte, visse? Tudo leva a crer que brevemente estarás sentado em plenário, mas, por enquanto, segura a peixeira. – Aplicou-lhe dois tapinhas no ombro e arrancou-lhe o chapéu.

A reunião ficou mais descontraída. Pedro abriu as janelas e o sol entrou. Pombos ganharam os ombros de Francisco, andorinhas pousaram na cabeça de Sebastião. Um sabiá laranjeira entoou hosanas.

Com delicadeza, Teresa Dávila corrigiu os modos de Francisco que, tantos séculos dedicados à pobreza, esquecera sua primorosa criação em Assis; sequer conseguia usar os talheres. Antônio Vieira seduziu a audiência recitando de cor versos dos Lusíadas, deixando Jorge pouco à vontade porque Jorge não está acostumado a fazer figuração. Rita de Cássia tirou um cisco do olho de Edwiges e soprou. Cosme e Damião trocaram doces, pirulitos e mastiguinhas, e Galvão, ainda assistente, ouviu as orientações de João Batista à questão de um devoto que o acessara. ‘A coisa por aqui não é fácil’, ponderou.

Pedro acompanhou com sorriso discreto o congraçamento. Felizmente estamos a salvo da pequeneza humana, refletiu. Solicitou um sanduíche porque há muito tinha fome. Estava certo que, depois da recreação, os pensamentos subversivos entrariam em repouso pelo próximo milênio; é com diálogo e boas maneiras que tudo se resolve.

Bem aventurados os homens de boas maneiras, refletiu.

De repente tocou o celular. Pedro conferiu: é da corte. Atendeu prontamente.

– Pois não!

– Pedro, sobe agora! Preciso falar contigo.

– Apenas um momento, meu Rei. Acaba de chegar o sanduíche que pedi. Ainda está quentinho.

– Eu disse AGORA, Pedro; deixa de embromação. Embrulha essa joça e vem comer aqui!

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