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Archive for outubro \31\UTC 2012

A mãe, aos 88, tem andado terrível. Egoísta, autoritária, cheia de vontade, uma metralhadora. A filha mais velha levou-a a igreja domingo passado e, para ficar alguns minutos sozinha, convenceu-a a se confessar: ‘Desabafe tudo, mamãe. Não tenha pressa’.

A mãe cobriu a cabeça com o véu e foi.

Voltou, quarenta minutos depois, em silêncio de boca, mas os olhos em frevo.

Sentou-se no banco de madeira, cabeça baixa, as mãos sobrepostas no colo.

Depois do ‘Vão em paz e o Senhor vos acompanhe’, mãe e filha deram-se os braços, caminhando até o adro. A filha perguntou:

‘E então, mamãe, como foi na confissão?’

‘O padre falou que há anos não via uma fiel tão evoluída quanto eu. Quase não me deixa sair de lá, tantos conselhos pediu. Vocês é que não têm a menor condição de me compreender’.

Fizeram novamente o sinal da cruz e a mãe apertou com força o antebraço da outra, apontando os degraus da saída: ‘Cuidado comigo nessa escada, Elisabeth, e deixa de ser tansa. Caminha, vai!’

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letras

Tirar você de letra é questão de excluir um a, um o, um eme e um erre. É pouca coisa, mas pra mim vai ser detonar o alfabeto inteiro.

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Não pense em mim assim como se pensa,
como percebe qualquer um que passa,
como compra um chapéu que se vende,
como quem ama qualquer um dia de graça.

Deixe-me apenas ser.

Não tente acorrentar meu pensamento,
tampouco enevoar o firmamento,
nem julgue-se capaz de me entender.

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os santos

Carmelita, a irmã mais velha, bem que tentou disfarçar, mas a tia viu quando ela entrou no quarto, de chamego com o noivo, um calor de rachar em plena luz do dia. A casa tinha o pé direito alto e a tia ficou pra lá e pra cá no corredor de cimento verde, suando e pisando firme no chão.

Não aguentando a espera, chegou à porta, juntou as mãos feito um megafone e falou com a boca grudada na dobradiça: ‘Cobre pelo menos a Santa Rita!’.

E foi se ter à sombra do tamarindeiro, lá atrás no quintal.

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o pretendente

Dona Mundica queria porque queria apresentar o irmão, que morava na capital, pra minha tia – ela estava ficando solteirona. ‘É o mais bonito da família, minha filha. Tu vais adorar’. 

Quando o moço chegou à cidade, dona Mundica preparou a galinha com jiló e a tia foi.

Mal botou o pé em casa, de volta, Dadá foi logo perguntando:

‘O moço é mesmo bonito daquele tanto, minha irmã?’

 ‘Bonito?! aquilo assusta mais do que a voz de esteja preso!’

E seguiu pra lavar as mãos.

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o candidato

‘Tia, ele se achava mesmo em condições de sair candidato?’

‘Ih, meu filho, tá assim de gente que se banha e não se esfrega!’.

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morcego

Tenho medo da noite, medo do que se cala.

Ao escuro, ao silêncio da noite, reagimos em casa com lampiões, candeias e lamparinas.
Minha sorte é que temos um pé direito alto, sem forro.
Subo para ali e trepo nas vigas, nas madeiras do teto.
Sento sobre pernas vergadas e vejo a vida de cima,
fugindo dos entremeios, das discussões ociosas, da falta de discussão.

Tenho medo, sim, é verdade, mas aqui em cima estou a salvo.

Assovio imitando corujas, abro e fecho os braços, sorrio com presas pontiagudas,
morcego.

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