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Archive for setembro \30\UTC 2012

paixão

Outra vez a paixão.

A graça, a inquietação diante do espelho, o lixo empurrado pra debaixo do tapete e, da janela, o aceno da montanha-russa. Três loopings no escuro, só pra começar, movimentando cometas no céu de estrelas, várias cadentes, todas ensandecidas. E, no ponta-cabeça, seus braços estirados no vazio.

Paixão é um grave. Torna-se aguda no desempenho, mas ruge em contralto no peito. Digamos que você a credencia com a gravidade do Pavarotti e a interpreta com a destemperança de Callas, você a Carmem.

A paixão traz na valise tantas promessas e tamanha vitalidade, que qualquer pequena ameaça promove imediata cianose na alma, seguida da falta de ar que, desta vez, sim, te levará a nocaute. Por isso tantos telefonemas, tantos emails, tantos torpedos, e as esperas, as esperas, as esperas. Pelo telefone, os emails, a campainha, as mensagens, os sinais de fogo. Sobrevivência.

Uma sentença sempre pronta pra explodir: Abram estas janelas, que eu preciso respirar!

Que não é dita, porque paixão é para ser vivida na poluição, os olhos ardendo e a boca seca. Ou não deveria, mas são poucas as que resistem a uma lufada de ar. Ar livre é perigoso, paixão tem pavor de espaços abertos e olhares externos. Uma folha de arruda atrás da orelha esquerda.

A maluca, além da fumaça, solicita óculos escuros, descongestionante nasal, cortinas fechadas, mudança de repertório no Ipod e uma miopia colossal. Nada muito diferente de neon, taquicardia e adrenalina terá qualquer importância, e, ok, um tempo naquela vidinha medíocre, naqueles amigos às voltas com relações acomodadas, há muito se fazia necessário. O lema permanecerá a frase com a qual você fuzilou, dias atrás, a amiga racional e descrente: O amor entorpece os acomodados, mas a paixão mobiliza os incomodados; tá?

Será assim que iremos rasgar o manto diáfano da mediocridade.

E segue, apertando a bolsa na axila, o sapato de salto, óculos de sol, lenço vermelho no pescoço e a saia muito justa lascada atrás.

É quase certo que paixão é pra ser vivida de copo na mão. Será com ele, alguns comprimidos de lexotan, duas ou três canções desesperadas e aquela única amiga que sobreviveu a seu bombardeio (‘afinal, ele está ou não está interessado em mim?’) que você enfrentará este mundo hostil. Sim, porque passada a solidariedade inicial, ninguém vai ter paciência de participar deste tour-de-force a seu lado – você já deve ter percebido que as pessoas não são propriamente um primor de sensibilidade. E mesmo esta companheira sobrevivente correrá o risco de evaporar quando você finalmente abrir seu coração: ‘afinal, ele está me amando, ou não está?

Diante de tamanha insegurança, você se sentirá flagrada pelas garras da lei. Todas as suas (antigas) qualificações sob júdice, ‘sou uma farsa e ele vai acabar descobrindo’. Seus temores correndo sem segredo de justiça, a um passo da revelação. Em outros tempos isso não seria grande coisa, afinal você também aprendeu que a língua do povo é contumaz traiçoeira. Neste momento, porém, qualquer avaliação de sua pessoa passa pelo cajado deste juiz implacável, e atender a suas exigências vai se tornando uma gincana exaustiva.

But, sempre um but, um belo dia bate a saudade daquele pijama esgarçado que foi parar no fundo da gaveta desbancado pelas langeries de última geração. Vai  lembrar que aprendeu a amar com a Maria Bethânia: explode coração! mas está na hora de recorrer ao sempre jovem Nelson Mota: ‘A vida vem em ondas como o mar…’ e dar uma surfada por aí.

Como Santa Rita de Cássia não dorme no ponto, você consegue desmarcar o jantar dessa noite e, sem inventar nenhuma desculpa espetacular, vai direto ao ponto:

Aluguei ‘As Delícias De Viver Só’, e tô a fim de assistir sozinha.

Só hoje, viu? – conclui, com voz de ninfeta resfriada, quase por vício.

Começou a se montar a rebelião. O filme dessa paixão vem à cabeça, de trás pra frente, e detalhes da cenografia, antes despercebidos, tomam corpo, diálogos negligenciados adquirem nexo, e figurantes inexpressivos começam a ameaçar os atores principais. Tudo levará a crer que você não era unicamente a primeira atriz, mas a própria autora deste vibrante roteiro.

Vai evocando detalhes e palavras até perceber, por exemplo, que o ‘mea culpa’ da noite passada era absurdamente equivocado – um bom vasodilatador peniano a teria poupado de acrobacias perfeitamente dispensáveis.

– Eu não acredito! – berra em fúria, Poliana-menina, equivocada até o último cachinho de cabelo.

Então, o doce pássaro da liberdade invade a janela, sobrevoa o quarto, dá um rasante em seu ombro com sardas, e alguma tranqüilidade vai chegando e procurando lugar entre os lençóis. Você respira pela primeira vez desde o verão.

Poderá, então, desligar a TV, acarinhar o travesseiro vazio, se alongar na cama, e hibernar pelos próximos dez anos quando, em outro festivo dia de sol, vai abrir a janela e perceber que o parque de diversões retornou à rua, e ela, a montanha-russa, voltou a acenar outra vez.

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a hora exata

Para estar ali naquele exato segundo foi necessário atravessar uma noite relativamente insone, o que o fez permanecer na cama além do habitual, postergando, entre sonolência e pequenos confortos, o momento de despertar.

Foi necessário prolongar os alongamentos, espreguiçar, permissivo, sentar na cama, e tomar sem pressa três goles da água na cabeceira, e esfregar com o polegar direito uma ranhura no vidro do copo, parecida, a princípio, com caca seca de nariz.

Ainda sentado, precisou abortar pensamentos invasivos – que o manteriam inerte fixando a porta do guarda-roupa em folias da mente – e, assim, estar acomodado no vaso às 7.16 e não às 6.25, horário das quartas-feiras.

Para estar ali naquele momento exato foi fundamental se demorar no chuveiro quente desafiando a recomendação do dermatologista quanto ao banho rápido e a água fria para manter a hidratação da pele. Foi crucial economizar o tempo a ser gasto com o condicionador, correndo o risco de deixar os cabelos secos e vulneráveis ao vento da rua, e abrir mão do iogurte suíço e das fatias de mamão, aí, sim, ocupado em não prolongar o atraso amontoado.

Foi ainda providencial não embarcar no primeiro ônibus, compatível, porém cheio, permitindo-se subir apenas no terceiro, menos abarrotado, dois lugares visíveis na parte de trás, próximo à porta de saída.

Necessária absoluta precisão do tempo – esse artesão – aliada a diminutas e ingênuas escolhas, quase lúdicas, para que estivesse presente ao acontecimento definitivo de sua existência, exatamente às 8 horas, quatorze minutos e vinte e quatro segundos, instante em que, para ele, o tempo finalmente

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Não é qualquer relacionamento que sobrevive a uma viagem. Viajar é a oitava maravilha; boa companhia é a nona. Ao decidir com quem embarcar, desconsidere grau de parentesco, tempo de relacionamento, intimidades virtuais ou afinidades fisioculturistas. Os códigos são outros, e aquele irmão gente boa, ideal para um classicão no Pacaembu, pode se revelar mala sem alça do lado de lá do Atlântico; até do Tietê.

Sei de um casal apaixonado que desfez os planos de lua de mel na Grécia após um simples final de semana no Rio. Com bom senso, optou por quatro dias em Águas de Lindóia, onde as saídas de emergência são mais acessíveis. Gente de juízo procede assim, embora os verdadeiramente sábios aproveitem desencontros na Maravilhosa para devolver alianças à vitrine; sem chance!

Com amigos a coisa funciona igual.

Não é porque você faz o circuito saúde pelo universo orgânico com a saradinha, que um mergulho no Ganges estará indicado. Saradinhas costumam ter não-me-toques-não-me-reles e o Ganges, bem, você já deve ter ouvido falar. Também pega mal cair de boca na Quinta Avenida ao lado do amigão com quem você vive criticando o consumismo americano. E, cá entre nós, um amigo consciente vale mais do que aquele Ipod de última geração; ou não?!

Algumas sugestões:

Nunca mais de quatro – você incluído -, a não ser que a ideia seja alugar uma VAN para descer a serra, virando à direita depois do túnel, na Imigrantes. Aí é outra história, e pode encher o carro naquela de quanto-mais-melhor, vamo-vê-o-mar, e quem for podre que se quebre; discrição é pros fracos!

Jamais com menores de 18, nem para um final de semana na Disney. A menos que sejam seus filhos – noblesse oblige – e este será outro motivo para caprichar na companhia – um adulto medicado, evidente. E, dos 16 aos 25, só quem tiver aprendido a falar alguma coisa além de: ‘tipo um colchão e um travesseiro, vou zoar por aí, tô aqui de boa’, e, faça carreira imediata, se alguém gerundiar: ‘em Paris quero estar passando um dia inteiro no Louvre’; socorro!

Todos independentes entre si. Nada de programas coletivos o tempo inteiro; quer dizer, talvez em um ashran na Índia e, ainda assim, indico uma escapada, absolutamente só, para fumar aquele cigarrinho escondido no fundo falso da mala, que Shiva não abra o terceiro olho, hare, hare, hare!

Fuja de quem exagera na mala e pede ajuda pra fechar, levantar, descer, e correr atrás do trem que chegou no horário.

Desvie de quem nem olha o cardápio no restaurante – ‘não estou com fome’ – e fica beliscando no seu prato. Se acontecer, antes de deletar o contato, empurre o prato na direção do comensal, cruze os braços e o encare com olhos de fogo; Deus vai te perdoar porque já viu esse filme – e procedeu igualzinho.

Com quem teme correntes de ar, embarque apenas para o Piauí, no máximo Ceará, e fora da temporada de chuvas; para o agreste, talvez; o sertão. Mesmo em Salvador, vão perceber um ventinho frio na orla, e convidarão pra parte interna do boteco, você adorando a vista, a lua e a brisa da praia. Estes não fazem nada sozinhos e você deve acompanhá-los sem reclamar; são amigos, esqueceu? Quanto à orla e à maresia, o Farol da Barra não vai sair do lugar, e você nunca foi chegado a torcer um pescoço, dá um trabalho danado e estamos na Bahia; para quê o esforço?

Hipocondríacos em geral não são boas companhias de viagem porque o mundo virou um grande criadouro de vírus e bactérias e eles não terão outro assunto durante toda a temporada, atchim, saúde, atchim, saúde!

Aqueles que mal entram no navio e já vão perguntando onde estão as lojinhas são terríveis. Não porque convoquem companhia pra empreitada – são super independentes -, mas porque voltam excitadíssimos e, mal te encontram, abrem as sacolas, aos berros, arrancando as ‘pechinchas’, naquele momento em que você se passava pela criatura mais elegante do cruzeiro, ao lado da figura perseguida desde o check in, a discrição em pessoa.

Meu vizinho de frente embarcou com uma vegetariana pra África, a quem tencionava abater entre tambores e archotes. A última vez que trocaram palavra foi à mesa do quiosque, quando um simpático nativo serviu miolo de macaco, na cabeça fumegante do animal. OK, foi um tanto selvagem, mas ela esperava um suflê de chuchu na savana africana?

Outro, tentando ser agradável, convidou o chefe, ateu fanático, para um tour pela Europa – você conhece um ateu fanático? O chefe se irritou tão profundamente com a quantidade de igrejas no roteiro, que o demitiu quando ele entrava de joelhos no santuário de Fátima; olha o pecado!

Poderia ir mais longe, são tantos os percalços do caminho, mas, quer saber?! embarque sozinho pra Marte – tão na moda quanto Dubai  – e só reúna a galera, três semanas depois, para olhar fotografias e receber, cada um, seu quinhão de areia vermelha.

Permanecendo em terra firme à sua espera, mantendo íntegros os laços de carinho, fizeram por merecer’.

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Acabo de ver no facebook a capa de Assim Você Me Mata, a coletânea de contos da qual faço parte, com lançamento em outubro na Balada Literária de São Paulo. Achei a capa um barato, cheia de cores, sugestões e significados, bem de acordo com a temática ‘brega’ dos contos. Se você está no face, dê uma conferida.

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vicinal

Ainda não é fácil abrir as cortinas e iluminar a cena. A estrutura trincou quando perdemos aquele canal de comunicação, e os tubos romperam; até ali, tudo passível de reconstrução.

Quando começou a acabar, o que falávamos para nos explicar, o que queríamos compreensível e surpreendente caía no chão feito estalinhos de São João – se não me movimentasse, nossa vida seria uma eterna festa junina fora de época.

O que nos uniu ficou ameaçado por essas atitudes que só queriam mudar, entender e, pasme, permanecer – nós, àquela altura, conhecendo a inutilidade de permanecer.

Acabou no momento em que o que falávamos para nos entender e cogitar cumplicidade deixou de ser um movimento construtivo para se transformar em um carro estancado depois da primeira marcha – os mosquitos invadindo em bando as janelas, nos impedindo a passagem. O que pediria solidariedade transformamos numa acusação recíproca sobre quem deixou a janela aberta, e perdemos longo tempo desnecessário.

Acontece que retorno e, de banho tomado, cabelo escorrido, sugiro viagem por uma estrada vicinal desconhecida – aquela lá.

O sol já vai se pondo e o orvalho é certo. Mansamente, primavera.

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A tia estava feliz. Começou o namoro com um moço brincalhão, caixeiro-viajante.
Dona Leitinha, a língua maior do que a fome do mundo, veio insinuando:
‘Não te incomoda esse moço viver sempre por aí, viajando sozinho?’
A tia não bateu pestana:
‘O risco que corre o pau corre o machado, senhora Leitinha’.
E fechou a janela, pra se manter feliz.

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cais e caos

Os afetos que agora tenho eu persegui, abri janelas, enfiei o pé na porta, escalei os sótãos, perambulei pelas vigas, subi aos vazios e desci repleto. Desfrutei ali e assim de impossível liberdade, resgatando a chave. Isso me abre pastagens, me credencia, e concede um prazer de salto no escuro em caos de relâmpagos. Quando me canso, duvido ou me escuto é que faço contas, calculo danos, estufo o peito e inspiro a vaidade das conquistas; sabendo que vou expirar irremediável vazio.

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