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Archive for agosto \29\UTC 2012

A palavra escapuliu da tela espalhando letra para todo lado.

O que daria MAR ganhou águas de rio, o que seria FRUTO se trincou semente, e o que seria dito se desfez em pó. Letras perdendo o prumo encanamento adentro, bêbadas e trôpegas.

Assim, o que seria AMOR reduziu-se a MEDO, o PARA SEMPRE transmutou-se em VENTO, e a FELICIDADE estilhaçou-se em mil.

Da caixinha, porém, saltaram fósforos, ELES e BÊS, reacendendo a flama. Na tela, enfim, letras capazes de escrever B  E  L  E  Z  A

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eu?

O que transita por mim

– nuvem passageira

é o Deus que há.

Mas quando é necessário saber-me

não há eu,

nem deus,

nem nada.

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animala

Pro irmão mais velho é galinha; pro mais novo, vaca. O patrão a chama de cabrita quando a sós, o ex-namorado, urubu. Pro esmoler, gata inalcançável, pra mamãe, coelhinha da páscoa, pro monsenhor, égua de montaria. Pra se defender, leoa, se quer seduzir, tigresa, pra vizinha de lado, anta, pro vizinho de frente, colibri. Dorme como gato de hotel e trabalha feito a burrinha de meu amo. Na cama, cobra na areia quente; no carnaval, macaca ensandecida, e quando o namorado disse: falas mais que papagaio, retrucou, salamandra: cansei de dar o pé, meu amor! E bateu as asas, carcará.

Águia?!

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Amanhã será o dia de coroar Nossa Senhora. Não consigo lembrar da noite de ontem, mas é certo que estive em pecado. Agora quero constatar a roupa branca, o manto azul, as asas de plumas embaixo da cama. Comigo, a memória do hino que iremos cantar de manhã, ensaiado em silêncio. A noite passada são fragmentos desalinhados. Lua minguante, vagalume na caixa de fósforo, sapos coaxando e estrelas desesperadas. Com o estilingue acertei o morcego, que despencou pânico, joguei quatro pedras na lua e desalinhei as formigas com os pés, espalhando folhas secas pelo escuro. Fiz correr o gato e despertei as galinhas batendo com muita força as mãos.  Vou dormir e atravessar a noite. Amanhã haverá a coroação. O pai nosso que está no céu me fará acreditar que haverá amanhã. Haverá os anjos e a festa. Nossa Senhora me espera de braços estendidos, pousada na nuvem de vidro, o coração em chama. Haverá a oferenda e a promessa; a penitência e a liberdade. Haverá eu.

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cavalo

Os sentimentos ternos não vou sair distribuindo assim. Do meu amor tomo conta eu, e o faço sabendo que nem sempre sei o que fazer com ele. Tento domá-lo, então.

Eis-me montado num cavalo em pelo, fitando, teso, o desfiladeiro.

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partido baixo

É do passageiro partir. Do homem de bem, apartar. Quanto a você,  partideiro, parta manga e melancia, mas não parta de mim, faz favor. Não aparte esse parto que bem antigo se deu; e nos pariu bons parceiros.

Vc é burro?

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um pintor

Nasceu para o que se tornou, mas foi nascido para usar a beca. A mãe quis, o pai aplaudiu, o professor disse sim, um comando. Foi bom aluno. Gostou de saber sobre a vírgula, diferenciá-la do ponto e perceber a respiração do texto, embora jamais tenha compreendido a natureza da raiz quadrada; a raiz toda seiva, onde a matemática?
Interessou-se pelas folhas dos livros e seus cheiros, para além das informações, e gastou tempo apalpando-os antes de lê-los. Deleitou-se com o movimento de ir à papelaria, escolher lápis de cor, folhas e celofanes para encapar cadernos; o sol aceso, as tardes mornas. Para ele, sem conhecimento, esta era a única atitude subversiva, palavra essa! Subversiva, sim, porque delatava o prazer, e o prazer é desde sempre subversivo, sabem todos.
Apreciava encapar cadernos e livros, acompanhar besouros e formigas e destampar panelas, aspirando calores numa selvageria mansa. Também gostava de chuva e doce de caju. Principalmente acompanhava pessoas e cores quase sempre pardas, vez em quando vivas, naquele percurso – tudo passarinho, ali um rouxinol; uma mulher que planta agachada, menino esfregando terra, piabas serpenteando, e o grande rio.
Permaneceu indo e vindo e duvidando que tivesse nascido para usar a beca e deter respostas, todo assim perguntas.
Quando encontrou as tintas e os pincéis, a exultação o deixou humano, como quem, de repente, nasce. E danou-se a pintar.

Continuou sem compreender, mas passou a matizar as sombras, deixando florescer o que em sua lavoura estéril permaneceria semente.

Tornou-se fecundo.

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