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Archive for julho \30\UTC 2012

baile

Falo de mim, a dor está passando. Já posso assentar minha mão sobre o peito. Aquecer aqui. Este peito, o chapéu de palha, um sorriso pálido, aquela máscara que se esfacela. E é imperativo que se quebre porque me percebo no salão de baile onde já não há música, e estamos trancados. A orquestra se retirou sem que eu percebesse, e tudo o que vejo são homens e mulheres debruçados sobre mesas, a baba escorrendo pelo canto da boca, inchaço nos olhos e, no pescoço, colares de serpentinas já amorfos, tiras coloridas de um papel barato.

Lá fora, entretanto, amanhece um sol laranja que se movimenta pelas frestas da janela bem devagar e, tingindo paredes, peles e vestimentas, faz erguer do chão e flutuar entre nós um fulgurante prisma de cristal.

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sinfonia

Os desejos que não saciei, beba nos bares; cante na noite com a voz da garganta.  Para os santos sem velas, levante altares.  As frases não ditas, os beijos ficados por dar, jogue-os para cima – e abra as mãos em concha. Para todos eles construí um viveiro aqui em casa.

Falas de desertos e  delícias.

Minha aproximação te faz cantar. A tua, nos confirma os dois.

Não vamos nos enganar elegendo amores onde não há nós. Vamos viver a vida onde ela está; a vida é o bastante. Desafiemos o mundo glorioso e cruel.
Quando nos pedirem juntos, nos afastemos. Ao duvidarem de nós, nos aproximemos. Livres de especulações, miradas e desejos alheios.

Porque fomos sempre os acordes da canção que não se executou, o violino sufocado pelo baixo, a caneta sem uso sobre o papel em branco.

Apesar disso, por isso mesmo, nos provocamos este silêncio ensurdecedor.

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o balão

A janela aberta emoldura um mundo inteirinho limpo. Aqui dentro, constato a faxina necessária, mas vou me levantar e procurar o balão que sequer desencapei no junho passado. Quero lançá-lo e vê-lo subir fora da temporada dos balões.

Vem! Vamos fechar a rua para o trânsito dos automóveis e abri-la para o tráfego dos animais. Desligar as máquinas, acionar os vizinhos.

Acender o fósforo e fazer o fogo. Acompanhar o balão sem considerar princípios da física ou outro conhecimento qualquer – bólido se alevantando do chão.

Afrouxar os cintos, enlaçar as mãos.

Vamos dizer: passeio.

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dita

Me disse o Zé Maria, depois de bem matutar: é, seu menino, a vida é mesmo assim: uns têm dita; outros, caganita.

Franzi a testa, como faço pra escutar. E tibunguei no riacho.

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A vó recebeu alta da UTI antes do previsto. Vai retornar ao quarto do hospital e está bem sacudida. Em casa, os meninos vão enchendo a sacola florida pra levar ao hospital: a dentadura da vovó, os cílios postiços, as unhas vermelhas, a peruca prata, a peruca ruiva, o olho de vidro, olha a perna encostada no guarda-roupa, não esquece os pedacinhos da vovó!

Sacola cheia, conferem item por item: perna, dentes, olho, cílios, unhas e cabelos. Tudo para não provocar a língua da vovó que, esta sim, anda sempre com ela e não poupa o ouvido de ninguém.

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borboleta

Chegou ao consultório em crise hipertensiva. Assintomática. Amanhã fará 80 anos. Perguntei o que estava sentindo. ‘Nada de grave’, respondeu. ‘A hipertensão é de fundo emocional e estou ansiosa pelo aniversário. Minha pressão é uma borboleta muito jovem, viu doutor? Basta eu sentir qualquer emoção mais vibrante, ela bate asas e voa, voa, voa, até alcançar a cumeeira da casa. Ainda não morri porque não tenho medo de altura. E adoro voar’.

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pecado

Aos 81 anos ela entrou no consultório com um bom dia discreto. Vestia saia até o joelho, camisa de listras azuis, rendilhado na gola e nos punhos. Sapato fechado. Desde sempre magra, comentou na consulta passada e na anterior. Entregou o papel do dextro, que mede a glicemia. Estava elevada. Confessou pão francês com manteiga, bolo de fubá e doce de caju. Lembrei-a da dieta e dos perigos da hiperglicemia. Ela falou vou melhorar, e se desculpou, infantil. Procedi ao exame. ‘Essa mancha não me preocupa, senhora’, tranquilizei-a e ela fechou os botões da camisa. Aviei a receita, estendi a mão, encerrei a consulta e brinquei: ‘Vai em paz e não peques mais’. Ela me olhou com olhos de flecha: ‘Peco muito nao doutor’. Levantou, se firmou na bengala, deu dois pequenos passos em direção `a porta, se voltou devagar, me olhou novamente e falou com discreto sorriso: ‘Eu só peco um pouquinho quando venho aqui. E você sabe’.

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