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Archive for junho \27\UTC 2012

Na rua com Bento, ficamos atrás de duas senhoras que, andando devagar, ocupavam toda a largura da calçada.

Disse a da esquerda:

Preciso ir urgente num médico de ouvido porque tô perdendo completamente a audiência. E bateu com os dedos em ambos os ouvidos `a procura de som.

A da direita, bem acima do peso:

Estive no ortopedista semana passada. Ele disse que tô perdendo toda a babinha dos ossos; por isso é que me dói tanto os joelhos.

Bento sorriu com o rabo. Elas retribuíram o sorriso. Atravessamos a rua para não incomodar o passeio. E seguimos.

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desejo (exercício)

Não esquecer que venho de tempos selvagens, e essa natureza. E minimizar a frustração de ser criatura, quando me queria criador. Desfrutar da travessia a despeito do abismo acolá. Compreender que o meio, este passeio e trabalho, justifica o fim. E fazer do meio, da travessia, da viva chama, polaroides de eternidade.

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Estou lendo A Vida Modo de Usar, do Georges Perec. É um livro interessante e criativo. E, interessante, essa palavra que a gente nunca sabe exatamente o que quer dizer, aqui se aplica bem. O que chamo de interessante é, assim, uma passagem de olhos, sabe? um meio sorriso, um certo agrado, uma descoberta, alguma percepção. Interessante não quer dizer exatamente bonito, nem bom. Muito menos agradável. Ou valoroso. Não. Interessante quer dizer unicamente: é isso aí!

Olha ese trecho da abertura (ele chama preâmbulo): o puzzle, apesar das aparências, não se trata de um jogo solitário – todo gesto que faz o armador de puzzles, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro. 

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cedinho

Gosto de dias cinzas e chuvosos, entro cedo neles. Se é quarta-feira, ainda antes das sete estou na padaria, sanduíche quente de queijo branco, leite espumando no café, o olho na rua, transposta a parede de vidro. Gosto dos passos ligeiros na calçada do lado de lá e dos guarda-chuvas abertos e pretos. Gosto dos cachecóis respingados, dos narizes rosados e adoraria chapéus. Folheio ‘A Contadora de Filmes’, que o Roberto indicou, e é tudo suave: o livro, a xícara de leite e café, o aroma do queijo, o pai recapitulando informações para o filho a caminho da escola, a vitrine de doces, as gotas inclinadas da garoa na rua, as lanternas dos carros, a cidade que, espreguiçando na moldura, ainda não rugiu nem afiou as garras.

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as meninas

No terreiro, ao lado da cozinha de sapê, Ana Bolena fia o linho, enquanto Beija corta as cebolas para a maniçoba e o muçuã, sentada à mesa de jacarandá. Mônica, picando o alho e os cheiros verdes, reclama deste nome contemporâneo, em desacordo com a cortesã européia vibrando embaixo do bustiê cor de sangue. O calor de janeiro e os fogachos.

‘Apenas você, Zélia, reluta em aceitar: sou a própria Madame de Pompadour que retornou para assumir seu posto e fazer outra faxina em Paris. Só me falta descobrir onde foi parar Luis XV, se é que não emboiolou de vez.’ – e peneira o xerém com toda a graça, requebrando as cadeiras e morrendo de rir. ‘Bota reparo na fuselagem’, arremata, com uma mão na cintura, depois deixa a peneira sobre a mesa e levanta a  jarra com o suco de taperebá, ‘quem vai querer?’.

Xica confirma com a cabeça e oferece a taça alongando o braço coberto de ouro e diamantes, sem tirar os olhos da galé no lago acolá, presente dele, e Camilla chega afobada, estancando ao pé do limoeiro enfeitado com lacinhos em papel de seda – Ana confeccionou um a um.

‘Esqueceu de acionar o trem de pouso?’, Zélia provoca, mexendo na lenha, aumentando o fogo, cozinhando o tucupi para regar o pirarucu e o tucunaré, meu Deus como é bom!

Uma lufada de fumaça preta avança do fogão e Camilla recua para proteger o vestido branco que lhe desce aos pés, presente de Elizabeth `as escondidas de Diana, pouco tempo faz.

‘Mania de cozinhar nesse fogão de lenha. Vocês parecem mulher de harém à espera do sultão. O tempo urge, donzelas!’

‘Deixa de discurso e senta para aferventar o jambu. Os patos tão no fogo; depois, junta as carnes com a maniva pra pegar sabor’. E elevando a voz: ‘Vem bater tua plumagem por aqui, Camilla, caminha!’.

Zélia tem autoridade na palavra e sabe o que quer. Camilla, contudo, também tem verve e não admite ser mandada: ‘Abaixa as asas, Zélia, senão vou acionar as turbinas, e você não tá com teu cinto de segurança afivelado’.

‘Deixem disso, meninas’, Marylin atalha, soprando longe a fumaça que tira da piteira de marfim, tornada violeta pelo açaí acabado de sorver. O olho no galho mais alto do limoeiro enfeitado, onde Flap, o papagaio aviador, assobia o Happy Birtday, enlevando-a, e ela lembra do enorme bolo de aniversário, da voz de mormaço, do olhar extasiado de John e sai bailando devagar até o fundo do terreiro. Ali, a orquestra de mariachi ensaia o Besame Mucho que Zélia pretende dançar daqui a pouco quando entrar por aquela porta o seu par.

Flap, como pilotasse um Boeing sobre o Atlântico, tem o comando dos folguedos no sarau, e pensa em cabines, bússolas e estrelas.

São todos eles aguardados: John, Antônio, Henrique, João Fernandes, Bill, Ovídio, Charles, ah como é bom esperar a felicidade! Um acordeom distante entoa acordes de valsa vienense e a própria Zélia rodopia no terreiro, apertando contra o peito a tigela onde está o creme de cupuaçu pelo qual Bernardo é capaz de pôr em risco família, poder e empáfia.

Camilla, contagiada pela euforia tupiniquim, a acompanha, abraçada a um belo arranjo de antúrios confeccionado em plástico resistente, ideia de Marylin, assustada com os mosquitos que fazem corte `a vegetação tropical, disseminando enfermidades inadequadas ao idílio.

A mesa é posta, a toalha de renda branca esvoaçando ainda, os sabiás saracoteando canções sobre o sapê, sabiás-laranjeira, alguns, talheres de prata, margaridas colhidas agora, dois castiçais de cristal, elas são o reverso do comum, aqui os caranguejos para o toc-toc, as ferramentas de bater, e sobre a arca de veludo grená, o velocímetro e a bússola que guiará os machos até onde estão. O rádio da vó Serena sobre a cristaleira toca um tango de Gardel. A sintonia do rádio está prejudicada, entretanto tudo é canção por aqui, ali o cafezinho do São Benedito, o Antônio de pernas pro ar, a cabeça na água, a trabalho, e As Meninas, do Velasquez, pendurado no mourão, adornado por resistente moldura em veludo na cor do abacate.

Súbito, um trote e um tranco no recreio. Logo a poeira dos cavalos invade o quintal, erguendo uma nuvem do chão, e todas se entreolham, aflitas, mas já? Ninguém ainda se lavou, nem penteou os cabelos, palitou os dentes, engomou as anáguas, que fome é essa, Senhor?

Vai assentando o pó, e elas recuam devagar, assustadas, abanando o rosto com as mãos para enxergar melhor; quem são essas daí, e que modos estes?

Ana Bolena levanta da fiandeira e vai ao encontro das outras, emparedadas, mas já pisando com força no chão, as botas pulsando no barro, compondo aos poucos um círculo de serpente à medida em que as amazonas apeiam, igualmente devagar. E, desfeita a nuvem de pó, vão reconhecendo uma a uma as mulheres, nenhuma delas convidada para esse banquete:

Hilary vem `a frente portando a bandeira americana a meio pau, seguida por Jackie vestindo o chapéu em shantung lilás, JC, como é lindo!, Marylin observou, siligristida. A Senhora Fernandes de mãos dadas com a Senhora Cabral, a rainha cintilando a coroa e uma face de pouquíssimos amigos. Todas elas juntas e, lá atrás, Diana, fustigando a sombrinha de tafetá contra o ombro, fulmina Camilla, indignada com o excesso de peso da rival e a arquitetura nada harmônica do seu rosto – ‘Então era essa curiquinha?’

As de cá se dão as mãos, altaneiras.

As de lá avançam, portentosas.

O céu, há um segundo azul, torna-se chumbo, e Flat, abrindo mão do seu posto, anuncia, com voz de comando: ‘Tripulação, portas em automático!’, e escapa, batendo as asinhas salpicadas de strass.

As mulheres se postam frente a frente como fossem dançar uma quadrilha, acendendo braseiro nas ventas. Bocas e olhos numa concentração de touro subindo ladeira, pelos eriçados, e os punhos. Um relâmpago descerebrado faz enorme risco no céu e a tempestade vermelha desaba em fulgurante jato sobre a tela inteira.

O radar meteorológico havia previsto bom tempo.

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fotografia

Uns dois anos atrás, estava na Estação das Docas, em Belém, e comecei a fotografar minha mãe, sentada `a mesa, tomando sorvete; ela fazia caras. Pelas tantas notei que um homem, a poucos metros, acompanhava com um meio sorriso e algum interesse. Deixei pra lá.

Certa altura, minha mãe e minha irmã foram ao banheiro e ele veio falar comigo. Pediu licença e foi logo dizendo: ‘o que você está tentando captar com a câmera faz muito tempo que está aqui’ – e tocou com o indicador a minha testa. Prosseguiu: ‘agora é só passar daqui pra cá’ – e desceu o dedo da testa pro meu peito. Depois saiu.

Quatro passos adiante, se voltou: ‘também pode fazer o caminho contrário; não sei por onde você começou’.

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querida sara,

agradeço sua umidade nessa tarde ardida tão seca. sobre a recusa das flores, preciso esclarecer que não aprecio esse roubo da natureza. apenas você [como sempre] basta.

agradável sua visita nesse domingo insípido, aliás, todos os domingos minhas ilusões tiram folga e esse mal estar acumulado me força olhar para o ridículo dessa peleja diária. estava afundada na cólica desses farelos quando você me salvou com seu instinto de vida.

bom passar o tempo sob & sobre seu corpo, ouvindo a música dos seus gemidos.

se puder, volta para me salvar no próximo domingo também.

beijos

Anna S.

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