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Archive for maio \31\UTC 2012

cambraia de linho

Ela entrou portando bengala e oitenta e nove anos. A coluna ligeiramente angulosa, o olho curioso sobre mim, um jeito à vontade. Puxei a cadeira pra ela sentar. Ela escorreu uma mão de cambraia pelo meu jaleco branco.

‘Como vai a senhora?’

‘Assim assim. Isso é que nem um vaso de planta, doutor. Quando a flor tá aberta, tô na rua. Quando murcha, vou pra cama esperar a próxima florada. Ainda não parei de florir, o senhor vê?’

Vejo sim. E inspiro, inspiro, inspiro…

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pérolas

Pérolas aos povos,
aos poucos,
aos anchos,
aos moucos.

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Música. Há música no ar. Já não é a chuva desabada. Violinos, talvez. Ou violões em noturnas serestas.

Violões, sim. Aqueles que, à distância, apaziguavam as noites atribuladas da infância, me permitindo mover na cama, reconhecendo, com a pele de braços e pernas, a tessitura delicada do lençol e o aroma arrojado do sabão que os mantinha limpos.

Ao me permitir este discreto momento de paz e conforto, começava a tecer a colcha da liberdade e a tomar intimidade com um mágico prazer impossível de explicar, tão fundo e visceral.

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Aqui, o comentário de Domingos ao post em sua homenagem. Escrito no dia 08 de março de 2010.

‘Meninos… nada me deixou mais feliz, nesses tempos de difícil transposição, do que entender que nem tudo foi perdido e que com a nossa singular e pouco virtuosa participação nesse mundo de Deus, pudemos conquistar a consideração de quem realmente nos é marco e referencial na vida. Se pudemos desenvolver bem nosso papel, uma parte pode ter sido graças ao engenho e arte de onde e como as coisas se deram ou da genética latina, quem sabe?, (embrulhada por natureza), mas com certeza o melhor veio daquele que sempre nos dirigiu em cena, nos estimulando a ser melhor e a buscar dentro de nós o melhor que poderíamos oferecer de nós mesmos. Por isso sem nenhum constrangimento posso afirmar que conviver com vcs, em especial com Sanzoca, meu melhor amigo e a quem reputo amor, admiração e respeito, foi dos melhores presentes que recebemos da vida e que sempre nos deu norte, prumo, além de muita alegria…

Ah… como eu amo voces !!!’

 

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Depois de uma enfermidade que roubou grande parte de sua alegria, Domingos se foi…pra voltar a sorrir.

Abaixo, um texto que escrevi pra ele em março de 2010, pálido retrato de uma convivência vibrante.

Amor e Paz.

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Muito antes do Google existir, eu já recorria a uma enciclopédia repleta de informações.

Tenho um amigo, Domingos, a quem minha mãe chamaria, em suas lembranças de colégio religioso, Consolato Aflictorum. Grafia provavelmente errada (tão parco o meu latim), que ele de imediato corrigiria se o consultasse antes de fazer essa postagem; mas quero surpreendê-lo aqui.

Domingos tem resposta (e solução) para tudo. Do caminho mais fácil para chegar (o GPS foi inspirado nele) à substância que tira nódoa até de baba-de-moça. Foi ele quem descobriu que um punhado de nabo é providencial para limpar o shoyo na camisa branca.

Sábado passado, quando uma taturana me ferrou a mão (é ferrão que se diz, Domingos? picada?), foi para ele que liguei a fim de me informar sobre a velocidade da toxina; é que, logo depois da picada, meu braço começou a doer inteiro.

– Qual o jeitão dela? Ah, não se preocupe, esta não é a lonomia obliqua, a mais venenosa.  Toma uma cervejinha e relaxa, que não vai dar em nada.  Por precaução, fica sabendo que saiu um novo produto para queimadura que, patatipatatá, e é tiro e queda.

Domingos é médico por graduação (e talento),  mas também – se necessário – responde como advogado (dos mais orientados), corretor de seguros, investidor financeiro (inspiradíssimo), engenheiro e até maestro. Um dia destes, tão logo Maria Bethânia reclamou de Jaime Alem o andamento da banda em um certo momento do show, ele, ali mesmo, da mesa, ergueu os braços evocando o compasso solicitado pela artista. A coisa retomou seu fluxo e a baiana seguiu balançando o tabuleiro. O povo aplaudiu.

Se estou inseguro com algum texto e resolvo ignorá-lo, é ele quem me explica o que efetivamente eu queria dizer e assim, me traduzindo para mim mesmo, salva o material da lixeira, mantendo acesa minha chama. E quando o veterinário enfatizou que nossa cachorra não duraria uma semana, foi ele quem lembrou a falibilidade humana, e Nicole ainda passou três anos com a gente.

Conhece todos os personagens de ficção de minha infância (eu no interior do Maranhão, ele na urbanidade de São Paulo), lembra episódios de TV a que assisti – e não encontro testemunhas – e ainda recita trechos inteiros dos Lusíadas com a naturalidade de quem boceja.

Tem noções de numerologia – moro numa casa 5, ótimo para comércio – e entende tudo de carros; ligo para ele da Concessionária antes de ligar o motor.

Se tenho facilidade para ouvir as pessoas é porque sou cachorro no horóscopo chinês.  Afetividade contrabalançada pelo vigor de escorpião, meu signo solar; ele me explicou, à mesa do Mário, final de tarde.

Tão logo o mundo tomou conhecimento da crise acometendo gregos e chineses, foi ele quem melhor explanou as características de cada povo, às quais atribuir os seus destinos.

O segredo do molho de tomate é a altura do fogo, a espessura da panela e nenhuma pressa em sua cocção.

E, de quebra, é a pessoa ideal para se ouvir no momento em que a receita desandou e você espera o mundo desabar na cabeça. Ele fará apenas você mudar de lugar – e apontará o SOL.

Está claro meu privilégio. Este amigo é parte de minha vida particular, mas o trouxe até aqui para revelá-lo, porque criaturas assim são, verdadeiramente, de utilidade pública.

– Falando nisso, Dominguinhos, pra capivara agridoce é Chardonnay ou Sauvignon?!

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tupinambá

Quando moça, tia Clara teve um cachorro chamado Tupinambá. Aonde ia, Tupinambá ia atrás. No banho, a esperava na porta do banheiro; à mesa, ele ao lado de sua cadeira e, à noite, ambos embaixo do poste de luz, contando estrelas.

Num fim de tarde bem morna, tia Clara falou, olhando pro céu: ô Jesus, só queria encontrar um moço que gostasse tanto de mim quanto Tupinambá.

O tio chegou.

Cinquenta e dois anos passaram. O tio se chama José, mas só os de casa sabem porque o chamamos Tupi.

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