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Archive for abril \30\UTC 2012

chuva

Quando fui menino tive medo da noite; dos caçadores de coelhos, dos saqueadores, dos ladrões de galinha e da mulher que levava a lamparina na cabeça. Mas quando chovia eu dormia em paz. Achava que, com chuva, nenhum deles sairia de casa. O caçador ia lustrar a espingarda, o saqueador ia classificar moedas, a mulher do ladrão prepararia galinha ao molho pardo pra ele e a chuva apagaria a lamparina da outra lá.

Até hoje, quando nem sou mais menino, chuva de noite é acalanto.

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primos

 

Primos são um caso a parte no álbum de fotos.

Tios a gente olha pra cima, mais íntimos que possam parecer; para os sobrinhos, alguma autoridade; irmãos a gente olha da própria altura e os ama no ninho, mas não é incomum se distribuir entre o mais velho, o caçula, o do meio, onde cada posição se acompanha de uma postura; o amor e os seus trabalhos.

Primos são pareceiros, como diria Esperança, e ninguém deve nada a ninguém.

Não a toa se escolheu esta palavra para batizar o parentesco. Números primos são aqueles divisíveis apenas por si ou pela unidade (familiar?). Quando uma realização é realmente impactante, como a tratamos? Obra prima. E se a família tem vocação para o drama (e qual não tem?) quem estaria apta para levá-lo à cena? A prima-dona, evidente. E cada família tem a sua – ou as suas, e pluralizo porque elas se alternam periodicamente, e se materializam pelas gerações, uma Callas no DNA.

No começo do mês, em São Luis, convivi novamente com a prima-dona dessa geração: Rose.  Arauto das esquisitices familiares, essa prima aprimorou um talento inato para contar histórias, nossas histórias. Seu humor descontraído, inteligente e ferino não deixa nada fora de foco, e se, na volúpia, algum detalhe escapou, Junior, todo menino, se apossa da lanterna e joga luz em cada personagem da fotografia. Tudo assim, sem nenhum peso, nenhum truque, nenhuma intenção a não ser a confirmação de que somos artistas da mesma trupe, e, pegos na descontração do camarim, de calças na mão, morremos de rir – as mãos enlaçadas.

A gente até namorica entre primos, não é? Adolescência, redes, balanço na mangueira do quintal, passa-anel, esconde-esconde na noite sem lua, pés que se roçam, e os rubores. Experimentos de afetos; treinamento intramuros para a revolução hormonal a caminho; novos desejos esperando lá fora.

Nesta mesma temporada revi alguns que não via há décadas; acho que Rosa nem era loira da última vez em que estive com ela. Camila é nossa representante em Buckingham. E Ozirinho tá a cara do pai.

Primos são fotogramas de infância e juventude. Quando os encontro, compreendo a tridimensionalidade do tempo. Da meninice à maturidade, tudo gira numa grande angular, intersecção de cenas e memórias que não param de fluir. E refluir.

Eu escreveria com meu primeiro lápis de ponta afinada, sentado no chão de cimento queimado da casa de nossa avó Dona: primo, prenda, primavera.

 

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Chamei um homem de 81 anos, mas o paciente que sentou à minha frente parecia bem mais jovem. Falei:

‘Não diria que o senhor tem essa idade, seu José’.

‘Não tenho mesmo, doutor. Naquele tempo o governo oferecia um abono pra quem tivesse filho e meu pai me registrou muito antes deu nascer. Era costume. Quer dizer: quando o menino nascia, quatro, cinco anos depois, já tava registrado no cartório, com nome e tudo. Só pro doutor entender: lá no norte, quando o moleque nascia, já tava existindo há muitos anos’.

Pensei cá comigo: desconfio que o senhor já existia milhões de anos antes daquele registro antecipado.

Aparentemente antecipado, Seu José.

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Meu passarinho se foi, doutor, o bigorrilho morreu. Foi meu companheiro durante anos, mas não resistiu à essa troca de penas do outono. Nunca mais o bichinho vai cantar e acordar o dia. E eu e a casa ficamos tudo mudo junto com ele.

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perversa

Bela e desleal

parece a tal

Falsa e rabugenta

ninguém aguenta

Trepa no hospital

sensacional

Treme no jardim

não faz assim

Trama de novela

parece aquela

Talhe de faquir

fugiu daqui

Cara de azeviche

da cor do piche

Beijo de açaí

bulina aqui

Loura de farmácia

buquê de acácia

Geme de preguiça

sobrou malícia

Língua de coral

fenomenal

Porte de gazela

inflama a tela

Pluma de galinha

selvagenzinha

Cores de aquarela

é toda ela

(volta já praqui, pra que fugir?)

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Ela tem oitenta anos, pouco dinheiro e um riso bom. Eu a atendi essa semana. Lá pelas tantas perguntei o que ela fazia pra se divertir. Ela falou que gosta de música: ‘e não gosto de música orientada, não, música acanhada. Gosto é de música alta, daquelas que a gente escuta com o corpo todo. É pra despertar a alegria. Na minha idade, doutor, a alegria já anda meio surda’.

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à palavra

Quando escrevo, sou levado pelo apreço à palavra e pela necessidade de expressar um sentimento, uma impressão, lavar uma roupa que sujou, cuspir uma espinha que não desceu, reviver uma experiência, elaborá-la ou, simplesmente, deitar-lhe cores; um pincel, a palavra.

Farol. E com que frequência ilumina o que eu sequer sabia habitar aqui.  Escrever é alquímico, é luz e sombra. Quantas vezes vou usar a palavra para me esconder – e a traio com outra mais conveniente – e, então, a verdadeira se atira no papel e me desmascara sem pestanejar; resta -me estender-lhe as mãos.

Entristece-me o descaso com que as vejo tratadas por aí – o detrator distante de saber que é a ele mesmo que avilta. Palavras são como neurônios e sinapses, quanto mais, melhor (nem precisam ser ditas, mas devem existir). É por não conhecê-las e, portanto, não perceber a diferença que há entre apatia, tédio, preguiça, melancolia, luto e tristeza, que hoje tudo virou depressão, assim mesmo, sem cor, sem nuances.

As palavras são misteriosas, e eu as reverencio com zelo de artesão. É preciso lustrá-las bem. Então as vigio. E me ausento para, atrás da cortina, perscrutá-las, e olhar devagar para elas. Sem formalidade, apenas encantamento. É imperioso deixá-las livres. Escravizá-las é, como para os humanos, o pior castigo.

Mas, atenção, cuidado com seu canto de sereia. Palavras não são santas e, ao perceber o encantamento, nos tentam confundir com toda a beleza. Tramam entre si, e vêm à passarela as mais sedutoras, sugerindo um parágrafo inteiro de idílio. Quem resistiria a um bacanal com cântaro, lápide, crepúsculo, sapoti, candelabro?! A-ca-lan-to.

Força! Há que se resistir ao contra-senso de alinhar estas beldades, em detrimento do laboro para a qual as convocamos.

É necessário domá-las; domar é diferente de domesticar. Sem rudeza, faz favor. Elas são belas, portanto frágeis. Que faço, então? As recolho na palma da mão, as acaricio, tiro-lhes um cisco do olho e só as devolvo ao papel quando se acende a lamparina – palavra mais bela!

Não precisamos de mapa – inclusive porque na maior parte do tempo não temos idéia para onde vamos. Mas vamos juntos, a mão e o barro, ao encontro da aventura que se revela ora a nossa frente, ora profundamente dentro de nós.

Choramos, às vezes; rolamos de rir, outras tantas; nos debruçamos sobre abismos, sobrevoamos canyons, descemos ao caos. Surpreendemo-nos e, esta, a melhor viagem.

Quem é devoto da palavra, dela não escapa. Ela é exigente, redentora e libertária.

Portanto afirmo: é através desta senhora, toda juventude e frescor, que o disforme oco que me habita encontra meios de se expressar, livre do meu comando todo vicio. E assim desalojado, sou obrigado a produzir mais e melhores palavras para formatar este mosaico que vai arrebentar em mim. E me cobrir de panos, uma outra vez.

Para que tudo recomece e eu permaneça vivo, aceso, bulindo.

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