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Archive for março \23\UTC 2012

Abaixo, fragmento de O Rio Que Corre Estrelas, que não entrou na versão final do livro publicado em janeiro passado.

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Minha mãe está chorando e ao mesmo tempo em que chora me agarra, vai me agarrando, ferindo, tatuando, removendo; busca me corromper, a minha mãe. Em seu movimento de me reter, aponta o caminho da volta, o des-nascimento, secreto desejo. Entra em ebulição e toca cornetas, chuta móveis, abre latas, grita uma ópera, carnavalesca e passista de uma escola de samba. Então,  me propõe as entranhas, os anexos e seu útero confortável.

Subitamente permissiva, abre cervejas, ouve Bethânia, considera os Beatles, o cabelo comprido, jeans surrado e as bocas de sino. É longe do mar, mas uma onda gigante se alevanta por aqui.

Vai se dizendo, minha mãe:

“- Se não quiser não vá. Uma viagem se desfaz até no aeroporto. A gente escapa de um avião no momento em que aquelas mulheres nos apontam as saídas de emergência. No segundo em que, óbvias, nos informam sobre um trajeto que conhecemos desde a compra da passagem. Quer um exemplo maior da mesmice que te espera?

Fique um pouco mais porque sinto que alguma coisa em mim está se quebrando, algo estremece sob os pés da casa. Uiva. Ou mia, feito  gatos prisioneiros de um pulmão asmático. Uma casa em que os ruídos da noite deixam de ser familiares. Os indiozinhos vão invadir finalmente, você bem que me avisou desde menino.

Insone em meu quarto confortável, sobressalta-me o ranger de vergaduras que não há. Calo-me, esperando o pior; não é que me cale, verdadeiramente, fecho-me, ostra. E um ódio sem juízo congela tudo por aqui; solidão.

Pego linhas, tecidos e agulha de crochet. Vigio com os olhos no relógio de madeira que, da parede, tomou todo o quarto. Espero que me toque o telefone e me digam que ele está sofrendo. Que ele me reafirme isso. Que não o sirvam durante a viagem, que não o deixem com fome, ou que o deixem. Desejo que Deus o proteja. Não o bastante para que se esqueça de mim, prescinda de mim; que o proteja e não me desampare, não me vá enlouquecer!

O passarinho escapou pela janela fechada.

Finalmente o tédio. O tédio que só é quebrado por esta recorrente pancada.  Na barriga, talvez. Contrações. Ele me soca, eu me contraio,  me embalando. Um embalo de cadeira de balanço à beira do abismo. Então é isso: acho que vou parir outra vez.  Que este seja de larga memória. Para que não esqueça os olhos acesos sobre mim, a mão puxando a saia para que não me ausente, o batom entregue na mão para me agradar, minha boca avermelhando diante do espelho, o vestido de baile em cima da cama, prenúncio de festa, de noite ausente. Os olhos pedindo que eu não vá ou ao menos que o leve comigo. A sombra que me acompanha da cozinha para a sala, da sala para o quarto, o banheiro, o toucador, toalete, cremes que vão deslizando dos dedos para o rosto, cabelos soltos, sapatos de salto. Suas mãos curiosas percorrendo vidros de perfume, o aroma do quarto, a desordem do armário, meu cheiro escolhido por ele, o beijo em seu rosto, a promessa da volta.

Agora é sua vez. A festa é sua. Aqui, a lavanda. Prometa-me a volta, por favor”.

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Bom dia!

Naveguei muito no RIO QUE CORRE ESTRELAS. Em vários momentos me senti em minha infância também. Palavras que me fizeram sentir, participar, e o que mais me emocionou foi conseguir ver o pequeno San como sempre imaginei que foste: muito peralta e sensível. Só mesmo você para dançar (nadar nesse rio) com as palavras.

Espero ter conseguido dizer tudo o que senti.

Um abraço forte.

Cláudia

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floradas

Plantei A para colher amoras, florou laranja. Tentei B para buganvílias, recolhi lagartos. Do C esperava cravos, aqui gerânios. Com urtiga que brotou do O preparei unguentos com U e os espalhei na pele de lascívia e de Lorena, um amor de lá; imenso Z de ilusão.

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Rico, o cachorro da Silvia, mordeu o dedão do seu pé esquerdo pra defender um osso caído no chão. A unha, lua branquinha desse dedo, virou, na hora, quarto minguante.

Depois do Pronto-Socorro, ela tem uma lua nova no dedão do pé esquerdo. No direito continua lua cheia.

Rico não uiva porque há séculos deixou de ser lobo e já não entende de luas. Apenas de ossos e silvias.

Ainda assim, continua enluarado; a Silvia foi quem falou.

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Atendi a mulata de 75 anos, viúva há quatro, rosto bom e triste, de luto, ainda. Perguntei, curioso, tentando ser solidário:

‘Ele esteve doente?’

‘Imagine, doutor! Meu marido era um coco da bahia, todo ele. Quando despencou do pé, foi uma vez só’.

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Ontem à noite fui abduzido pelo passado, e ele, vívido, botou no mesmo site toca-disco e Ipod, tocantins e são paulo, encontros à mesa de jantar e encontros virtuais.

Pensei em Rilke: eu sou uma árvore ante o meu cenário.

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