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Archive for janeiro \30\UTC 2012

Recebi esse texto – de autor desconhecido – e não resisti a trazê-lo aqui. Olha que coisa:

‘A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.

A natureza das coisas: gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?“.

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as “coisas” nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios” (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha..

Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: “Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já.” E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.

Na literatura, a “coisa” é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!“.

Devido lugar: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)“. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. “Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração“, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira “coisíssima”. Mas a “coisa” tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré (“Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar“), e A Banda, de Chico Buarque (“Pra  ver a banda passar / Cantando coisas de amor“), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou.  Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “Coisa linda / Coisa que eu adoro“.

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, “são tantas coisinhas miúdas“). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (“ô coisinha tão bonitinha do pai“). ”Todas as Coisas e Eu” é título de CD de Gal.  “Esse papo já tá qualquer coisa… Já qualquer  coisa doida dentro mexe.” Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: “Alguma coisa está fora da ordem.”

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal e coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai.” Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à  toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: “Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.” E, no verso do poeta, “coisa” vira “cousa”.

Se as pessoas foram feitas para serem amadas e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas?

Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más. Quer dizer…

Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida“, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Portanto, procure sempre fazer a coisa certa’.

ENTENDEU O ESPÍRITO DA COISA?

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os 2

Depois de passar boa parte da manhã analisando dados, ele tira os olhos do computador, descansa os óculos na mesa e pergunta pra ela, que toma sol no jardim ao lado e massageia discretamente os pneus estacionados em ambos os flancos:

‘Que gasto é esse num tal Saradinha´s Food?’

‘Ah, querido, aproveitei a promoção e comprei um pacote de alimentação light q eles tão lançando; entregam amanhã. Tudo absolutamente equilibrado, medido e avaliado pra duas semanas, almoço, lanche e jantar, não é ótimo?’

‘Ótimo não, fantástico. Mas que tal parar de lançar dinheiro pelo estômago e fechar um cadiquinho a boca? Tão mais simples, não? Prometo fazer o mesmo com a minha carteira.’

Foi a vez dela botar os óculos de sol e puxar o encosto da cadeira:

‘Ah, como você é estraga-prazer’

Levantou discretamente amuada e rebolou até a geladeira amarela a poucos passos dali.

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SÃO PAULO recebe como MÃE e trata como PAI.

Há que merecer SÃO PAULO.

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proust

Depois de alguns meses sem estar com ele, retornei, e olha as coisas que reencontro:

‘Todo o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que, sendo a imagem o único elemento essencial na estrutura de nossas emoções, a simplificação que consistisse em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, percebemo-lo em grande parte por meio de nossos sentidos, isto é, continua opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não pode levantar. Se lhe sucede uma desgraça, esta só nos pode comover em uma pequena parte da noção total que temos dele, e ainda mais, só em uma pequena parte da noção total que ele tem de si mesmo é que sua própria desgraça o poderá comover. O achado do romancista consistiu na ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isso é, que nossa alma pode assimilar.  Desde esse momento, já não importa que as ações e emoções  desses indivíduos de uma nova espécie nos apareçam como verdadeiras, visto que as fizemos nossas, que é em nós que elas se realizam e mantém sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas, o ritmo de nossa respiração e a intensidade de nosso olhar’. 

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O lançamento de ‘O Rio…’, no sábado, foi além de minhas expectativas mais arrojadas; rolou uma grande festa. Compareceram amigos novos e antigos, futuros amigos, e até alguns que só me conheciam através do blog. Senti-me realmente à beira-rio, em dia de sol, cercado por pessoas alegres e dispostas a usufruir do momento; e a gente se divertiu o mais que pôde.

Santa Clara aceitou de bom grado o café que Silvânia preparou bem cedo pra ela e, negando as previsões daqui, só deixou chover depois que juntou todo mundo no porto, digo, na livraria. Eu não sabia nem que Clara gostava tanto de café nem que minha irmã e ela eram íntimas assim, mas, ok, eu não sei de um bocado de coisa e nem por isso elas deixam de acontecer todos os dias.

Mas de uma coisa eu sei: é muito bom celebrar em conjunto uma conquista importante. E quando a gente percebe a reciprocidade do prazer, a disponibilidade de cada um e o bem querer perpassando tudo…hosanas!

‘O rio’ ganhou o seu curso, abandonou a nascente, lá vai ele ali. Fico daqui espiando, mas espiando cada vez mais de longe, deixando- correr, porque, missão cumprida, é hora de voltar a mexer na terra e tentar levantar outra estrada. Eu só acredito em caminho.

Sinta um abraço.

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                                      hoje só amanhã

 

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devera

‘O senhor não vem almoçar? já é quase uma’.

‘Ih, Vera, agora sou artista, e artista é todo atrapalhado…não tem hora pra almoçar, nem pra dormir, nem…’ ela resmungando baixinho: preferia quando era médico…

‘Calça uma meia de cada cor, sai escrevendo de madrugada com carvão pelas paredes, não admite ser…’

‘Não me diga que o senhor vai pendurar um girassol na lapela feito o outro lá…’

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