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Archive for novembro \26\UTC 2011

Você sabe que eu atendo em um Posto de Atendimento ao Idoso, e deve imaginar o quanto é rica essa experiência. Acompanho diariamente uma valsa de salão (às vezes samba-canção, maracatu, às vezes bolero, sertanejo, até mesmo rap, outras vezes silêncio).

Maria Paulina tem mais de oitenta anos e escreve. A cada três meses leva pra mim algum de seus escritos, e gosta que eu leia para ela ouvir. Leio com prazer. Esta semana ela chegou com um poema que escreveu pelo meu aniversário (faz isso todo ano).

É este:

Dr José S Santana Filho

Feliz Aniversário!

Mais um ano que passou
E passou bem de repente

Porém não ficou mais velho,
Ficou mais experiente

Homem com tanta bondade
A idade não alcança
Quando partir deste mundo
Mesmo que tenha cem anos
Vai jovem como criança

Sua profissão tão linda
Que a muitos favorece
Desejo-lhe muita sorte,
Tudo de bom que merece

Continue assim bondoso
Para a muitos alegrar
Quando chegar lá no céu,
Os anjos vão festejar.

                                  ‘Com simpatia’

                                                  Maria Paulina

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– Alô!
– Que bom que você atendeu. Tá podendo falar?
– Tô no aeroporto, de saída pra Manaus, lembra?
– Claro que lembro. Quero te pedir um favor
– Diga
– Na verdade, vou te confiar uma missão especial
– Ôba!
– Pesquisei na Internet e descobri uma fulana que tá vendendo aquela novela          inteirinha em DVD
– Aquela?
– Exatamente. Nem tô acreditando. Quero que você dê uma checada pra mim, e veja se não é alguma roubada…
– Certeza que ela conseguiu passar pra DVD? Essa novela é do tempo de Adão cadete…
– Então! É isso mesmo que eu quero que você descubra
– Beleza! Me passa o contato por email, ok? Última chamada pro meu voo
– Brigadíssima. Beijinho. Boa viagem!

  

– Alô
– E aí, muito calor em Manaus?
– Do jeito que o diabo gosta
– Olha, entrei em contato com a tal fulana. Mandei um email pra ela e disse que meu marido está na cidade e vai procurá-la
– Só pra confirmar: teu marido sou eu, acertei?
– Evidente. E você acha que eu escolheria outro?
– Acredito que não. Ainda hoje, depois da reunião, ligo pra ela, ok?
– Tô roendo as unhas. Dos pés. Olha, o pé de jabuticaba tá brotando…
– Mesmo? Ele não tava morrendo?
– Ressuscitou, querido. Não é um bom sinal?
– É capaz. Te ligo à noite; vou voltar pra sala de reunião
– Vai lá. Ôi, tá ouvindo?
– Diga!
– Você ainda é o meu Indiana Jones…

 

– Ainda bem que você ligou. Não agüentava mais
– Peguei o endereço e passei em frente. Tô acabando de vir de lá
– Jura? E que tal?
– Meio favelão, viu? Nem me atrevi a descer do carro nesse horário
– Ah, meu Deus! Barra pesada, assim?
– Não é propriamente o Palácio de Versailles, mas amanhã, de dia, vejo melhor
– Ih, querido, se você achar perigoso, deixa pra lá…esse negócio de Internet…
– Fica fria que Indiana não pretende voltar de mãos abanando
– Meu herói! Acredita que os passarinhos tão comendo as jabuticabas antes que eu consiga pegar?
– Humm, você já foi mais esperta…
– Sabe o que eu sonhei na noite passada?
– Vou saber agora
– A gente ainda era casado. Você voltava pra nossa casa. Chegava aqui com os cinquenta DVDs da novela, botava todos os passarinhos pra correr, colhia as jabuticabas, e a gente vivia felizes para sempre…
– O resto da vida chupando jabuticaba e assistindo novela…Não foi pra evitar isso que a gente resolveu dar um tempo?
– Foi só um sonho, bobo.
– Ótimo, vou dormir. Amanhã teremos um longo dia
– Teremos. Com certeza. Boa noite!

 

– Oi!
– Você não ligou ontem, que aconteceu?
– O diretor alemão me alugou o dia inteiro. Cheguei quebrado ao hotel
– Nenhuma novidade?
– Na hora do almoço liguei lá. Sondei se poderia conferir os discos antes de comprar. Ela não está acostumada com isso, desconversou. Garantiu que estão em bom estado. Fiquei cabreiro
– Querido, qualquer coisa é melhor do que nada. Essa novela tem um valor afetivo muito grande pra mim, você sabe. E na íntegra, nem posso acreditar!
– Eu sei. Amanhã daremos um jeito nisso
– Escuta, e a voz dela, que tal?
– Nada muito civilizado. Selvagenzinha, talvez. Pisa duro, a fulana, viu?
– Jura?! Bom, pouco semedá. Ela tem um tesouro dentro de casa
– Olha o exagero
– Eu também já tive um, mas entreguei pro Alibabá
– OK, preciso desligar. Te dou notícia.
– Querido…
– Um beijo!

 

 Diga lá!
– Achei que nunca mais fosse falar contigo. Onde você esteve todo o final de semana?
– O diretor alemão resolveu descer o rio. Passamos a noite na caça ao jacaré. E o domingo inteiro pescando
– O IBAMA não proibiu a caça ao jacaré?
– Para os gringos, tudo. Para os brasileiros, a lei.
– O domingo inteiro pescando?
– Precisava ver a euforia do gringo quando fisgou um tucunaré
– E os DVDs, ainda nada?
– Juci deu um pulo em Parintins e ainda não voltou
– Juci?! Quem é Juci?
– A moça dos DVDs, ora essa…
– Ah, Jucicleide, a selvagenzinha…
– Essa mesma. Mas, me conta aí, e as jabuticabas?
– Na mesma. Os passarinhos continuam dando olé!
– Bom, a gente vai se falando…
– Escuta, até quando você pretende ficar por aí?
– Até concluir minha missão, esqueceu? Indiana rides again.
– …
– Agora só saio daqui com esses discos. E quero te entregar em mãos.
– Humm…e o calor?
– Uma delícia, garota, uma delícia!

 

– Alô!
– Faça-me o favor! Duas semanas sem dar sinal de vida…
– O diretor alemão se encantou pela Amazônia e resolveu conhecer a floresta. Me levaram junto
– Duas semanas no meio do mato?!
– Você acha muito? Por acaso se esqueceu do tamanho daquilo lá?
– Que notícia você me dá dos meus discos?
– Pedi pra Juci regravar a segunda parte inteira; tava uma merda.
– Você esteve com ela, então?
– Sim, fui até o estúdio de gravações
– Estúdio? Mas aquilo não era um favelão?
– Tô querendo ser gentil…
– E…que tal ela?
– É como te falei. Um tanto selvagem. Lábios roxos. Tipo açaí. Uma delícia!
– Você provou?!
– Provei?! …Ah, o açaí, evidente. É o que não falta por aqui
– Escuta. Parece que a jabuticabeira tá secando outra vez
– Cuide bem dela. Preciso dormir. Estou exausto.

 

– Fala!
– Eu posso saber o que está acontecendo por aí?
– Você não recebeu os DVDs?
– Como assim?
– A Juci te enviou pelo correio
– Mas você não vinha me entregar em mãos?
– Achei que você tinha pressa
– Pelo visto você é que não está com pressa nenhuma…
– …
– Mais de um mês enfiado nesse buraco. Não me diga que você passou esse tempo inteiro refazendo os discos com a JUCI
– Mudança de planos, darling.
– Se eu soubesse que essa missão te daria tanto trabalho, nem tinha falado sobre isso
– Não fale assim. Foi tudo providencial. E ainda hoje, mais tardar amanhã, você terá sua novela, na íntegra, a seu dispor, olha que show!
– Resolvi trocar a jabuticabeira. Aquela lá não foi pra frente mesmo. Passei no CEASA e trouxe uma já com as frutinhas. Precisa ver
– Vai demorar um pouco porque resolvi dar uma esticada
– Esticada?
– É. Cruzei o Atlântico.
– Eu bem que desconfiei. A novela foi só uma desculpa. Você viajou com a JUCI?
– De onde você tirou essa idéia? A Juci é selvagenzinha demais, não falei?
– Você está aonde, afinal?!
– Em Berlim, querida. Lembra do diretor alemão?!

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desculpentão

Detesto ficar com cara de ‘sinhá mariquinha cadê o frade’, mas usar a expressão é bem divertido, e a cara de minha mãe.

Se pergunto onde fica, por ex, a Muçulmânia, e me informam q ‘muçulmânia não é um país, ignorante!’, digo, baixando os olhos: ‘desculpe, então’; se ela me diz que não está ‘esperando’, está barrigudinha de chope, vou logo dizendo: ‘desculpe, então’. Este suco não é de graviola, é de taperebá? ‘desculpe, então’.

Desculpentão é que nem aquela roupa que quebra todas, tipo ‘bate,enxuga,revira e veste’. Sempre à mão (e à boca).

Achou tudo isso uma grande bobagem? ‘desc…

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Estou revendo Clarice. Lispector. E, de novo, é a primeira vez. A mesma estupefação, e aquele êxtase; essa mulher não acaba nunca. Puxa vida, Clarice!

Meu texto O Rio Que Corre Estrelas vai entrar na gráfica, virando livro, estou assim… E hoje é meu aniversário. Escolhi Clarice pra traduzir este momento. Aí abaixo um fragmento de A Paixão Segundo GH.

E como ela também escreveu: AMÉM, pra todos nós! 

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Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque – porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.

E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.

E eu tenho. Eu sempre terei. É só precisar, que eu tenho.

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Abaixo, trecho inédito de As Linhas Tortas, que venho escrevendo.

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Abaixo, mais um trecho de As Linhas Tortas:

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