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Archive for outubro \31\UTC 2011

reynaldo jardim

O que se odeia no índio não é apenas o espaço ocupado.

O que se odeia no índio é o puro animal que nele habita. O que se odeia no índio é a sua cor em bronze arquitetada. A precisão com que a flecha voa e abate a caça; o gesto largo com que abraça o rio; o gosto de afagar as penas e tecer o cocar;

O que se odeia no índio é o andar sem ruído; a presteza segura de cada movimento; a eugenia nítida do corpo erguido contra a luz do sol. O que se odeia no índio é o sol. A árvore se odeia no índio. O rio se odeia no índio. O corpo-a-corpo com a vida se odeia no índio.

O que se odeia no índio é a permanência da infância.

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Estou postando abaixo um fragmento da história que venho escrevendo: As Linhas Tortas.

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Em Minha Querida Sputnik:

Muito tempo atrás, na China, havia cidades circundadas por muros altos, com portões enormes, suntuosos. Os portões não eram apenas portas que permitiam a entrada ou saída das pessoas. Eles tinham uma grande importância. As pessoas acreditavam que a alma da cidade residia nos portões. Por isso, até hoje, na China, há uma porção de portões maravilhosos ainda de pé.

As pessoas levavam carretas aos campos em que se travaram batalhas  e coletavam os ossos descorados que haviam sido enterrados ou que se espalhavam por ali. A China é uma bonita região, um monte de antigos campos de batalhas, por isso nunca precisaram buscar muito longe. Na entrada da cidade, construíam um portão imenso e o vedavam com os ossos dentro. Esperavam que, homenageando-os dessa maneira, os soldados mortos continuariam a proteger a sua cidade.

Quando o portão era concluído, levavam vários cachorros, cortavam suas gargantas e borrifavam o portão com seu sangue. Somente misturando sangue fresco com ossos exangues, a alma antiga dos mortos reviveria magicamente.

Escrever romances é a mesma coisa. Juntam-se os ossos e faz-se o portão, porém não importa o quão maravilhoso se torne, só isso não o torna um romance vivo, que respira. Uma história não é algo deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico para ligar o mundo deste lado ao mundo do outro lado.

– O que está querendo dizer é que devo partir sozinha e encontrar o meu próprio cachorro?

Concordei com um movimento da cabeça.

– E derramar sangue fresco?

Sumire mordeu o lábio e refletiu.

– Eu realmente não quero matar um animal, se puder evitá-lo.

– É uma metáfora – disse eu – Não precisa matar de verdade coisa nenhuma.

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sofia

Minha irmã tinha uma cachorra chamada Sofia, a quem amava bastante. Sofia morreu nesse final de semana que passou. A secretária do veterinário deu o telefone de um cemitério de animais. Minha irmã ligou.

A moça que atendeu informou que ali era a residência dela, nada a ver com cemitério. A irmã insistiu: ‘foi a fulana quem deu seu telefone’. A outra: ‘eu tenho vários bichos porque adoro animais, mas o quintal de casa é pequeno. O da vizinha, ao contrário, é enorme, então, quando algum dos meus morre, eu pulo o muro e enterro no fundo do outro quintal. O problema é que essa vizinha é muito chata e não gosta de bicho, por isso só dá pra fazer o enterro de madrugada, quando ela está dormindo. Se você quiser, vela um pouco mais a cachorrinha e aparece aqui lá pelas três da manhã, que a gente dá um jeito, tá?; e, olha, as velas deixa por minha conta; é promessa’

Minha irmã agradeceu e desligou o telefone. Resolveu não ir; parece que o muro era alto demais, e ela tem medo de altura.

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trampolim

– Você acha que estou bem assim?

– Ótima

– Ótima como?

– Do jeito que você está

– De que jeito estou?

– Você está legal; tudo certo

– Certo, como?! Você nem me viu direito…

– Como não? Vejo você há anos, esqueceu; quatro, cinco?!

– São seis, mas não é isso que estou perguntando. Você não acha que engordei de uns dias pra cá?

– Não, não parece

– Não?!

– Não. Por que? Engordou?

– Puxa, honey, aqui nos quadris, ó; essa calça nem me serve mais, você não percebeu?

– Aí nos quadris, foi?  Não, não tinha percebido

– Como não? Tô até barriguda, espia. Põe a mão aqui

– Imagina, você tá show

– Show?  Tô um monstro, meu! Foi a lasanha de ontem, tinha molho demais.

– Não exagera.

– Engordei, cara. Faz favor de olhar pra mim? Não tô aí na porcaria dessa revista. Estou aqui na tua frente, ó, ó, ó

– Ok

– Aqui, honey, tinha a bunda redonda, agora tá meio oval; olha isso…

– Qual o problema?

– Todos os problemas; não se faça de desentendido

– Por enquanto estou tentando me fazer entender

– A cara, que era oval, agora tá arredondando. Tô sofrendo uma metamorfose e você aí de olho nas motocicletas

– …

– Minhas pernas ainda estão legais

– Muito legais

– Também não exagera! Já foram melhores, mas ainda dão pro gasto

– Ô se dão!

– Você tá me achando fora de forma, não é possível; assume, vai

– Vamos andar no Villa Lobos. Te garanto que dois meses depois você vai se sentir ótima e teu jeans vai entrar mais fácil do que faca na melancia

– Dois meses depois, é? Então você acha mesmo que estou gorda?! Faca na melancia?! Ah, Nando, como você é dissimulado, como você é falso. Por que não assumiu de início que está me achando gorda, nojenta, baleia?

– Calma aí, honey, quem está dizendo isso é você…

– Olha, seu Fernando, eu quero que o senhor se dane, que o senhor se exploda, porque não tenho mais a menor paciência com você. Sempre querendo acabar comigo, sempre tentando me denegrir. Gordinha é sua avó, ouviu bem? Você nunca me enganou com este jeitinho compreensível, superior, filantropo

– Acabou?

– Não. Ainda não acabei, mas vou te dar uma chance, você não fala nada?

– Falo sim. Pra mim acabou. Quer que eu repita? Acabou, transbordou, explodiu! Quer que eu vá além? Você é maluca e eu não tô de saco cheio dos teus quilinhos a mais, mas dos teus neurônios a menos. Acreditar em tuas fantasias é prerrogativa da loucura, mas querer que eu embarque nessa, aí, hoooney, é subestimar demais o meu bom senso

– Muito bem, Sr Fernando, agora estamos falando a mesma língua. Quer dizer que além de gorda e louca o senhor também me acha burra…

– E o mais difícil é distribuir estes três atributos numa escala razoavelmente sequencial

– Seja mais claro, professor

– Agora ficou mais fácil; já sei o que deve vir em primeiro lugar

– Não me faz de idiota senão te sento a mão

– Isto mesmo: loucura, na segunda fila. Desequilíbrio. Consequência direta da falta de investimento neuronal, que ocupa a pole position. E, veja bem, o excesso de molho na lasanha de ontem não tem rigorosamente nada a ver com isso

– Você tá tentando tirar uma com a minha cara, ô imbecil!

– E nem precisei hierarquizar os dois gramas a mais. Eles sempre estiveram no terceiro escalão, sua tola

– Olha aqui, meu caro, dispenso sua pseudosuperioridade, sua pseudogenerosidade, seu pseudodistanciamento das elucubrações dos simples mortais, essa racinha inferior que vos persegue

– Você está pseudo demais. Eu, ao contrário, cansei deste tom eternamente over, sempre vários acordes acima, sempre representando um sentimento, uma emoção, uma rejeição ou seja lá o que for, que ao vivo e sem cores você não consegue alcançar

– Só faltava essa. Agora você vai tentar me convencer que a desprovida de emoção nesta história sou eu

– Emoção de almanaque é o que não te falta

– Duas semanas sem álcool e já no direito de cagar regras

– Você ainda está aí, ô menina?!

– Sabe de uma coisa, Nando? Apesar dos estragos que o álcool provocou, acho que no fundo esta merda toda te fez muito bem porque moralista e bacaninha como você é, sem uma dessas mazelas humanas você seria um nazistinha insuportável

– Você está falando um bocado de asneira, mas não deixa de ter uma certa razão. Se não houvesse um cara doente como eu ao teu alcance, você seria obrigada a dar de frente com tua própria doença, e não sei o quanto de saúde existe aí dentro pra te fazer sobreviver a este encontro explosivo

– Novamente a doente sou eu

– É confortável ficar em três por quatro quando se tem um outdoor ao lado. O problema é que o outdoor foi encolhendo e agora os holofotes irão se voltar para aquela fotinha no canto da tela

– Cara, tô fora. Você não vai me ofender. Estou inteira. Diante dos seus, meus desequilíbrios são novela das seis

– Glória, estamos nos fazendo muito mal…

– Não me chama de Glória que eu não gosto. Depois, este papo de que estamos nos fazendo muito mal, pra mim, é história pra boi dormir. Desculpa de quem quer se mandar sem queimar o filme e ainda sair de bacana

– Pense o que você quiser

– De saco cheio!

– Estamos nos fazendo muito mal, mas, pombas, se a gente se gosta, ou já se gostou, por que não podemos tentar nos fazer… muito bem?

– Porque talvez a gente não consiga nos fazer muito bem

– Porque talvez você não me ame o bastante pra encarar essa empreitada, isto sim. Fala isso, Nando. Fala isso, cara, talvez eu me aquiete. Com certeza vou conseguir dormir esta noite

– Pena, mas isto aqui não é um roteiro escrito por você. Não vou me comportar como o personagem dos seus devaneios. Sou o Fernando, beirando os quarenta, tentando me livrar de alguns vícios, tentando voltar a caminhar sobre minhas pernas, precisando fazer coisas orgânicas como caminhar, comer legal, respirar melhor, fazer sexo; e outras, nem tão orgânicas: aumentar os dividendos, sanar uns compromissos, rever a família, e por aí em diante

– Nesta concepção, amar é orgânico ou material?

– No caso seria utilitário

– O amor é quieto?

– O amor é quieto mas se assusta

– O amor é cinza?

– Não é colorido o amor?!

– Ah, não sei; parece que você tem medo das cores

– Acho que não; mas podemos desligar a estroboscópica, que tal?

– Nando…

– Estou amando você, Glória

– A mim?!

– …

– Você pirou de vez, honey

– …

– De onde tirou essa ideia de que está me amando?

– Francamente não sei

– Por que você me parece tranquilo?

– Estou meio cansado

– Ah, entendi. Isso mesmo. Você não disse que me ama. Disse: estou te amando. Equivale a: estou comendo uma lagosta, estou andando de bicicleta, estou mergulhando no mar. Tudo passageiro, com data pra acabar. Não é gerúndio o apelido dessa farsa?

– Não gostaria de me amar com data marcada, hein?

– Data marcada, eu?!

– Prazo de validade?

– Malucou de vez?

– Poxa, Glória, já que não tem outro jeito, podia ser divertido

– …

– Acho que você é que tem medo deste amor. Você não acredita na eternidade, não é? aliás, faz bem.

– Nando, você realmente não me…

– Psiu, relaxa, fica em paz. Sem sustos. Eu também não te amo tanto…

– Você o quê?

– Pula comigo?!

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Falo de mim; aquela dor está passando. Já posso assentar minha mão sobre o peito, já posso descansar a mão; quando, menino, descansei o queixo na mão fechada e botei o cotovelo no muro, ainda não sabia: perde-se a inocência no momento em que se debruça para interpretar a vida; a vida comporta unicamente o ato de viver. Hoje estou aqui e vejo: meu peito, o chapéu de palha, um sorriso pálido, aquela máscara que se esfacela. E é imperativo que se quebre porque me percebo no salão onde já não há música. A orquestra se retirou sem que eu percebesse, e tudo o que vejo são homens e mulheres debruçados sobre mesas, a baba escorrendo pelo canto da boca, inchaço nos olhos e, no pescoço, colares de serpentinas já amorfos, apenas tiras coloridas de um papel barato.

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sem ar

Carregando o peso do mundo, Linda escreveu a carta. Ela não sabe que as linhas tortas nem sempre traduzem a escrita soberana do Deus, e assim, teima em acreditar que é de sua autoria o texto com o qual pretende botar um ponto final e enterrar de vez isso aqui, esse espectro que velamos juntos para ocupar o tempo. Tempo que não usufruímos nem concedemos, neste amor resistente às correntes de ar.

O texto é seu, suas todas as palavras, entretanto é minha a tinta com a qual escreveu essas barbaridades. Decidiu partir, se sentindo culpada ao reconhecer a minha asfixia; Linda tão honesta, e tão incapaz de perceber o quanto me dedico a cimentar orifícios, cerrar janelas e impedir que a mais leve brisa se intrometa por aqui.

E então nos sufocamos.

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