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Archive for setembro \25\UTC 2011

um dia perfeito

O que é um dia perfeito? Despertar devagar e sem sustos, a mulher aqui, o caçula de dentes branquinhos no meio dos lençóis, céu azul entrando pelo vidro, 16 graus, cheiro de terra molhada, a bicicleta acolá; domingo sem compromisso?

Sim.

Talvez.

Também.

Um dia perfeito é o que sucede a visão da caça. Não, não sou caçador, sou neurocirurgião, e nos cruzamos ontem à tarde quando levava Aruk para caminhar. Eu estava vergado ao lado da azaléia limpando os rastros do cão quando ela passou às minhas costas; olhei com o rabo do olho, depois com os dois olhos acesos porque reconheci o chamado. Ela vestia um moleton vermelho, tênis branco, ouvia o Ipod e corria sem exagero numa marcha cadenciada. Pouco a frente diminuiu o passo e se manteve em uma caminhada vigorosa, que acompanhei com facilidade – fiz o serviço militar num regimento de paraquedistas e mantenho alertas as articulações.

Três quadras depois de subir a pequena ladeira à esquerda, entrou na casa ao lado do ipê amarelo acionando o portão automático, e pude ver o rosto por trás dos óculos de sol: redondo, branco, lábios rosados; me olhou sem interesse e sumiu pela porta principal.

Com a anterior também foi assim. Nos esbarramos na calçada à saída do Trianon, na Paulista; eu vinha de uma rápida passagem pelo parque e ela mal me diferenciou da turba que transitava por lá. Quando arfava embaixo do meu tórax, entretanto, me olhou com olhos eloquentes e miseráveis, e assim permaneceu até eu completar a esganadura do pescoço vincado, rompendo a correntinha onde balançava uma discreta lágrima de ônix.

Alguém que não sou eu esteve em todos os jornais daquela vez; os mais profissionais o trataram por psicopata serial aludindo a casos semelhantes, e os populares não deixaram por menos: ‘o tarado da zona sul’ – medíocre assim, vulgar, e tão recorrente; a estética acompanha todos os procedimentos humanos, não poupa ninguém, porém diferencia uns dos outros quando revela – ou não – a criatividade; e vivemos em um mundo que fomenta, solicita, exige e forja a criatividade.

Um dia perfeito pode ser o que estilhaça o vidro do sossego e nos deixa a postos. O amor entorpece os acomodados, mas é o gosto pela caça quem desperta os incomodados, e eu sou todo incômodo algumas manhãs; é nestas manhãs que a pele se contrai e eriço o pelo dos ombros. Aruk descende de caçadores dos pântanos da Inglaterra, e eu pertenço a secular linhagem tropical; uma dupla bastante considerável.

Minha mulher traz o café na cama: frutas, queijo branco, iogurte, geléia de abricó. O ovo quente passou do ponto, é sempre assim, mas permaneço calado porque Suzana é sensível e tão delicada. Com Júnior raspamos soberbamente o tacho. Cinco anos, o garoto mais bonito que vejo por aí, cabelo liso escorrendo pela sobrancelha larga, e uma boca que é cereja de estação; além dos dentinhos de marfim; um trio respeitável, nós.

Para sobreviver e permanecer viável, um homem precisa edificar sua cidadela, e sou um homem senão feliz pelo menos em paz; a medicina me proporcionou grandes conquistas; da matéria e do espírito.

Coleciono selos e cartões postais desde a infância. Suzana confeccionou ela mesma duas caixas para guardá-los, e só não usou o scrap com o qual vem personalizando o que encontra pela frente porque prefiro mantê-los sem nenhuma adjetivação além do que expressam por si.

Profissionais da saúde mental, filósofos e outros menos perniciosos escrevem coisas sobre este hábito de colecionar, e muitos descem a aspectos pouco confiáveis da personalidade do colecionador; fala-se muita inutilidade. As inutilidades ditas nos domingos talvez sejam as mais inofensivas porque acompanham macarronada e vinho, encontros esporádicos e leituras dos cadernos de amenidades nos jornais. Nos dias de semana os noticiários sobrecarregam as pessoas de falácias e insanidades; aos domingos, os incautos (e os ingênuos, os influenciáveis, os comuns) apenas repercutem, sem o furor do ineditismo. Ultimamente falam do cirurgião que molestava pacientes após administrar doses extras de anestésico para procedimentos corriqueiros. Raras imagens são tão pueris como estas divulgadas, à exaustão, por aí. Um senhor de cabelos brancos beijando com escrúpulo e delicadeza as pernas, os lábios e o ventre de mulheres que transitam entre sono e vigília é de um abandono praticamente angelical. Quando o vejo, vejo um menino brincando escondido com a boneca da irmã, cheio de pruridos por este desejo inadequado. Não é inteiramente digno de pena porque é antes patético, contudo alguma coisa se enternece dentro de mim e me faz fechar a tela do computador ou mudar de canal. Penso que a sofisticação do criador desconhece limites, e a escrita certa por linhas tortas é, de fato, uma máxima considerável, embora o que parece torto para criaturas medianas deva ser reto e cotidiano para criadores astuciosos. A convicção com que pessoas se dedicam a expressar mediocridades é, esta sim, digna de pena. E castigo.

Confirmo que dentro da caixinha de fósforo que mantenho na gaveta do criado-mudo, o vagalume emite delicados sinais de luz. Levanto-me com entusiasmo e alongo o corpo o mais que consigo, são 9 horas, eu vou lá. Ontem nos cruzamos às nove e trinta; ela também percebeu, eu vi, eu me lembro. Ainda tenho meia hora. Ela também; meia hora.

Trinta minutos é tempo suficiente para

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O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos cães de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro…

Ah, a opressão de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse
Com o zumbido ou murmúrio monótono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos cães polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar lá em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como pão ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensações,
Isto…

(Tuas mãos esguias, um pouco pálidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,
Como e onde a tesoira e o ideal de uma outra.
Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço.
Recordo para ter em que pensar, sem pensar.
De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo.
Olhaste conscientemente para mim, e disseste:
“Tenho pena que todos os dias não sejam assim” —
Assim, como aquele dia que não fora nada…

Ah, não sabias,
Felizmente não sabias,
Que a pena é todos os dias serem assim, assim:
Que o mal é que, feliz ou infeliz,
A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo,
Consciente ou inconscientemente,
Pensando ou por pensar
Que a pena é essa…

Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas,
Molemente estendidas.
Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti.
Que será feito de ti?
Sei que, no formidável algures da vida,
Casaste. Creio que és mãe. Deves ser feliz.
Por que o não haverias de ser?

Só por maldade…
Sim, seria injusto…
Injusto?

(Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo.)

(…)

A vida…
Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar.

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joão e maria

Não me venha com esse olhar pidão porque aqui em casa não tem a babaquice de mamãe e papai, cadê meu filhinho ou vem cá com a titia…foi logo nos primeiros dias de convívio que abortei essas intimidades…promiscuidades, poderia dizer, porque não tenho medo das palavras

Também não se espante com meu vocabulário nem com minha verve; sou um cocker inglês e caçador, infelizmente nascido nos trópicos, nobody  is perfect,…escuta, você perdeu a língua ou só consegue mesmo miar?! por aqui somos todos poliglotas, ainda não percebeu?

Parece que você não gostou de mim; problema com os felinos?

Problemas, eu? faz-me rir…apenas me irrita a dissimulação, e conheço bem tua trupe; não vou embarcar nessa vybe de gatinha manhosa. Erasmo, tô fora!

Ainda nem te vi direito…

Então fica esperta e bota reparo

Eu não queria vir pra cá, viu? foi ela que me escolheu, por quê este mau humor? você não gosta dela?

Coisa mais infantil, gostar ou não gostar. Tô aqui há milênios, e eu mesmo ajudei a elaborar os códigos. Quanto à Marina, pelo menos não usa perfume adocicado e tem mãos de massagista tailandesa. O mesmo já não posso falar dele, o maridão. Sabia que detesto esse papo de maridão? Não parece coisa de mulherzinha? ‘Vou preparar uma sopa bem quentinha pra esperar o maridão…’ Help me!

Ele é rude com você?

Que tatibitate, gata! Você pensa que entre essa gente também não rola uns cruzamentos nada haver? Aquele lá é o verdadeiro SRD, reconheci no primeiro dia

SRD?!

Sem raça definida, apelido de vira-lata; você é lenta, hein?!

Você, ao contrário, deve vir de boa cepa. Que pelo! acho que nem sabe com quantas letras se escreve a palavra pul-ga

Marina é um inseticida de Armani, e ele um macho provedor; trata-se de uma combinação bastante utilitária

Você deve se alimentar muito bem…

Acertou em cheio: eu me alimento bem, eles comem gostoso, percebe a diferença?

E quanto a jóias, gargantilhas, braceletes?

Prefiro minha parte em patê de tutano…ça vas sans dire…

Pelo que entendi, Moisés também dorme na suíte do casal, onde vou dormir. Você não tem medo de ficar sozinho aqui fora?

Por quem me tomas, gatinha?! Sou eu o velho lobo do mar, e Moisés é caso perdido. Ele tem esse nome porque sobreviveu a uma inundação no canil quando era filhote, espia só; foi a única proeza razoável nessa vidinha besta. De resto, trata-se de um bobão puxa-saco que não discrimina um colo do outro e está sempre abanando o rabo. Já tentei ensinar as regras do bem viver mas o figura é realmente EMO; desisti

Você não gosta dele tamb… desculpe, não queria falar em gostar…

É por causa de babacas deste tipo que se criou a balela de fidelidade canina, amor incondicional, pau pra toda obra. Um figura diferenciado como eu é obrigado a chafurdar na mediocridade. Admito que sua tribo seja mais sofisticada do que a minha, embora você…

Por favor, por favor, não me ofenda; vocês machos são tão descuidados com as palavras…

Discutir a relação no primeiro dia é demais, a madame não acha?

Nossa, você é bala na agulha…

Se vis pacen par bello

Poderia traduzir, por gentileza?

Se quer paz prepare-se para a guerra

Sabia que adoro esse tipo nervosinho? Se continuar rolando desse jeito entre a gente – ops! – você tem tudo pra ser meu oitavo marido; o primeiro que entende latim, o segundo que sabe latir e o terceiro que fala demais

Rodada a garota, hein?!

Vivida, bebê, seria mais adequado; são sete vidinhas, esqueceu?

Sei, sei…

Verdade que cão que late…

Não falei que você não me enganava com aquela carinha de filha-de-maria?!

Hum…hum…

Marina, Marina…temos aqui uma boa de uma bisca…isso é que eu chamo de comprar gata por lebre

Será você quem vai atirar o primeiro osso?!

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É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tinta com o dinheiro da casa e queima os moveis para que o modelo não sinta frio. Sem algumas dessas ações criminosas, não se pode fazer nada direito

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Juntei Kevin (Precisamos Falar Sobre Kevin – Leonel Schriver) e o Pequeno Príncipe ( O Pequeno Príncipe – Saint Exupery) e os levei ao aniversário de João (O Diário da Queda – Michel Laub). Repeti – a meu modo – a cena fundamental deste último livro.

Está no post abaixo.

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Kevin cheirou a meia antes de enfiar no pé e calçar o tênis; tudo azedo e adequado. O jeans surrado dançava em suas pernas finas e, na camiseta, a estampa do querubim tocando flauta figurava esmaecida pelo uso frequente. Olhou-se no espelho e deu um tapa na franja que tentava descer pela testa, depois cuspiu em ambas as mãos e as escorreu pelo cabelo deixando-o rente à cabeça redonda: ok, it´s me! – franziu o nariz. Meia hora depois chegava à esquina onde combinara com o Pequeno Príncipe; iriam juntos ao aniversário de João, o babaca gói que senta ao seu lado no colégio. O principezinho já o esperava, soprando bolas coloridas de sabão, borboleteando de um lado para o outro no meio do passeio. Percebendo Kevin se aproximar, correu ao seu encontro:

– Como marcamos às quatro, desde as duas me dedico a ser feliz – e continuou cantarolando, chutando o vento e fazendo bolinhas em torno dele.

– Vamos parar com essa frescura, Pepê, que eu não tô pra brincadeira – Kevin interferiu estourando uma série de bolas vermelhas –  e pra que essa alegria toda se tua candidata ficou em terceiro lugar no concurso, e nem se lembrou de te citar?!

– Mas a que ganhou era tão graciosa; ela cativou a platéia, e você sabe que a gente se torna eternamente responsável…

– Outra insanidade dessas e te despacho de volta pra quitinete espacial.

– O essencial é invisível para os olhos, Kevin, você não vê?

– Fale por você, seu cegueta. Pra mim só é essencial o que eu posso enxergar; ainda assim visão e tato nem sempre concordam sobre o que interessa.

– Nossa, Kevin, acho que você nunca leu o Exupery.

– Você também nunca leu Lionel Schriver, nem por isso deixei de te convidar pra essa balada de hoje. Acorda, ô babacão! – e estourou uma fornada inteira de bolas azuis e lilases.

O príncipe ainda tentou aludir aos campos de trigo, entretanto o cabelo grudento do outro não permitia esse tipo de comparação, e o monarca extraterrestre desistiu de enfiar fé na misericórdia. Enfiou o canudo no bolso da calça e atravessaram a avenida pelo meio das buzinas, chegando ao prédio do aniversariante duas quadras acima.

Todos os meninos já estavam ali. João baixou os olhos diante de Kevin, e depois os levantou lentamente porque aquela figura loira de cara rosada, embora surpreendente, era de alguma forma familiar, e exalava bom tempo. Ao cumprimentá-lo, João se aproximou de seu ouvido para segredar qualquer coisa, contudo Kevin os separou com um gesto vigoroso e seguiram rumo à mesa dos doces – na verdade um mero bolo de chocolate e algumas coxinhas massudas. Ali, a molecada fazia grande algazarra à volta da pipoca, e de olho no Sangue de Boi, ansiosos pelo momento de lançar o aniversariante treze vezes para cima, celebrando sua entrada na vida adulta. O assustado João tentou mais uma vez chamar a atenção do novo companheiro, mas ele falava alguma coisa sobre rosas, raposas e baobás com Priscila, a rainha do deserto que, consideravelmente alterada depois de algumas taças do vinho, julgou estar diante do Pequeno Polegar, e se assanhara toda. Não encontrando saída, João se entregou a azáfama dos coleguinhas que simulando uma rede de bombeiro começaram a lançá-lo para cima, coreografando um jogo de peteca ao pé do Muro das Lamentações.

Durante doze vezes o pequeno foi arremessado e recolhido, arremessado e recolhido, chegando inclusive a auferir algum prazer na brincadeira bizarra. Entretanto, na décima terceira vez, a cambada retirou os braços no retorno, abrindo completamente a rede. O príncipe, se percebendo sozinho no meio do salão, recolheu igualmente os bracinhos e levou as duas mãos ao rosto, cobrindo os olhos e falando consigo: não quero nem ver! – foi fatal!

Ploooft! a sala tremeu.

‘Caiu um lençol’, Kevin gritou antes de desaparecer pela janela dos fundos, seguido por toda a corja.

Na boca entreaberta do aniversariante estatelado no chão a frase que não chegou a dizer ao pequeno infante, quando ainda apresentava todas as costelas em seu devido lugar: ‘você deveria ter lido o Michel Laub…’

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Quando eu vejo você
Com seus olhos de vaca
Com seus grandes olhos de vaca
Com seus olhos de vaca triste
Menina triste do meu amor

Quando eu vejo você
Com sua gargalhada descarada
Seu cabelo de muito vento
De mau tempo, de mau tempo
Com seu tempo, seu sentimento

Com seu dengo, meu amor

Sinto todo o amor
Sinto todo o terror
Do negror destes tempos

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