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Archive for junho \29\UTC 2011

a tia

Há vinte anos não via a tia; ou via mal. Agora a vejo passar do outro lado da rua, e seguro a custo o impulso de atravessar o passeio e ir ao seu encontro; sigo-a, então. Suas costas alinharam – onde está a corcova?! – e ela aprendeu a pisar no chão. Ainda usa bengala, e pintou de ruivo os cabelos; estão parcos e ameaçam acompanhar o vento, por suave que sopre.  As pernas em arco passaram por algum alongamento, e por onde cruzava um elefante, hoje, se muito, um gato angorá. O vestido de algodão salpicado de borboletas coloridas bate na dobradiça posterior dos joelhos e ela exala discreta alfazema; não usa meia no sapato fechado. Eu poderia apressar o passo e enlaçar a tia, repetir palavras que a obrigariam me olhar com olhos de espera. Tamanha integridade, porém, me faz estacar às suas costas, e a deixo seguir, livre das promessas inúteis; toda livre de mim.

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pessoa

Ó sino da minha aldeia, dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma. E é tão lento o teu soar, tão como triste da vida, que já a primeira pancada tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto quando passo, sempre errante, és para mim como um sonho, soas-me na alma distante. A cada pancada tua, vibrante no céu aberto, sinto mais longe o passado, sinto a saudade mais perto.

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Fui passar o reveion de 2007 com minha mulher na praia das Toninhas, em Ubatuba.  Laura é mística e está sempre consultando gurus e afins pra descobrir o local ideal de passar aniversário, virada do ano, páscoa e coisas do tipo. Não dou bola pra isso mas dou muita bola pra Laura, então acabo acompanhando ela nesses, vamos dizer, devaneios.

As dez e pouco da noite saímos da pousada pra umas cachoeiras adiante do município de Ubatuba no sentido SP-Rio onde a gente devia tomar um banho de água fria embaixo da lua crescente, e passar uma poção totalmente junk do pescoço pra baixo (mistura de amoníaco com álcool, raiz de sei lá o quê, folha de arruda, gengibre, babado hiper forte).  Achei que ia ser um programa bacana, discreto, a dois, caliente.

Nada disso. Minha Laura não é a única garota ligada no cosmos, tinha um monte de laurinhas e huguinhos no pedaço. Até fila tava rolando. Pensei: ninguém foge do carma, e o carma do paulistano é mesmo a fila, até pra se enfiar embaixo de uma cachoeira gelada. Uns quarenta minutos de cerveja depois, precisei dar uma viajada: de boa – pipizão. Na sequência, em vez de voltar pra fila tive um desejo maluco de atravessar a pista e caminhar na praia do outro lado. Aí, pirou geral.

As últimas coisas que me lembro é que cruzei com uma gata bacaníssima saindo do mar com uma prancha embaixo do braço e uma tatoo de sereia no umbigo. E depois um objeto nada identificado piscando uma luz amarela que, parece, só eu vi. Pirei e fui ficando meio zumbeta. O objeto me aspirou feito vaporeto no máximo

Voltei pra casa dois dias depois, com alguns hematomas pelo corpo, certamente devido a abdução que sofri do tal objeto – Elba Ramalho tem toda razão. Fui levado a um universo pra lá de sideral e lamento não lembrar de alguns detalhes fundamentais pra argumentar com as más línguas que insinuam coisas com relação a essa historia – vai saber pra quê.

Laura nunca duvidou de mim mas pelo sim, pelo não, também não quis mais passar o réveillon em Ubatuba. Por mim, tanto faz, tô com Laura e não abro; se quiser Maresia a gente vai, não é morzão?

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Olha pro céu, meu amor
vê como ele está lindo
olha praquele balão multicor
como no céu vai sumindo

Foi numa noite igual a esta
que tu me deste o teu coração
o céu estava assim em festa
pois era noite de São João

Havia balões no ar
xote, baião no salão
e no terreiro
o teu olhar, que incendiou
meu coração

 

                             luiz gonzaga

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amores 25

A 25 de Março é o portal do paraíso. Você pode ser o máximo, mas a 25 é o excesso. Passei outro dia e constatei: tá tudo lá. Do indispensável ao absolutamente supérfluo – ênfase nestes, evidente.

Não se meta a discutir consumo se nunca bateu perna pela 25, mesmo que Miami seja seu corredor de casa. E, se realmente nunca esteve por ali, evite palavras do tipo: penduricalho, balangandãs, kitsh, fake, peruagem, pedraria; você não faz idéia do que se trata.

Tá sem peito? na 25 tem. Vai de peruca? vi de marylin incandescente a vermelho fogo.  O carnaval chegou? é por lá que desfilam pierrôs e colombinas. São João a caráter? bigodões, chitas e chapéus de palha – com duas tranças vermelhas pras meninas e uma pena de peru pros rapazes.

A amiga rica personaliza o cartão que acompanha as flores com uma mont blanc bacanuda? Na 25, igualzinha, por um quarto do preço e você ainda encontra simpáticas flores de plástico, que duram muito mais; e se alguém falar mal, engate um discurso sobre os novos tempos, a falta de tempo, o tempo perdido regando, ou convoque o mosquito da dengue, se sobrar tempo.

Está sem a louis vuitton pra embarcar naquele cruzeiro até Punta, com o maridão cansado de guerra?! estava, minha senhora! na 25 tem de monte e em vários tamanhos – dá pra levar da frasqueira ao malão de compras; só não embarque pra Paris porque eles tão de olho nas imitaç…digo, na 25 – e desde quando você dá bola pra empáfia parisiense?!

O irmão da Pati conheceu uma menina fantástica negociando, eloquente, com um elegante empresário de calçada, e chapou. Belos seios, cintura fina, bumbum vigoroso, unhas compridas, boca vermelha e cada cilhão!

Paixão à primeira vista. Embarcaram quatro dias depois pra um fim de semana na Ciudad del Este. Não deu muito certo. Ela retornou completamente desmontada, mas ele, usufruindo da garantia, foi devolvendo os acessórios pela extensão da rua até a coitada virar uva-passa.

Nada grave. Subindo a ladeira porto geral ele cruzou com uma antiga vizinha, a mais feiosa do bairro, que visitava a 25 pela primeira vez; uma grande alma. Ele não titubeou. Cumprimentou a garota e se ofereceu para acompanhá-la nas compras. Pretende, daqui a umas quatro horas, subir a mesma ladeira com a Angelina Jolie e tentar ser feliz outra vez.

A loja onde ele próprio entra jeca-vai-à-feira e sai digno de Angelina fica no segundo quarteirão, calçada da direita, de quem vem do Mercado Municipal.

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interatividade

Complete a narrativa:

Relógio não uso mais…

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georges perec

O conde de Gleichen foi feito prisioneiro num combate contra os sarracenos e condenado à escravidão. Ao ser posto a trabalhar nos jardins do serralho, a filha do sultão apercebeu-se dele. Julgou-o um homem de valor, afeiçoou-se a ele e ofereceu-se para lhe facilitar a fuga caso a quisesse desposar. O conde respondeu-lhe que era casado; o que não despertou na princesa o menor escrúpulo, acostumada que estava com o rito da pluralidade de mulheres. Logo se puseram de acordo, fizeram-se à vela e aportaram em Veneza. O conde foi a Roma e contou a Gregório IX todas as particularidades do seu caso. O papa, diante da promessa que o conde fez de converter a sarracena, concedeu-lhe dispensa para ter as duas mulheres.

A primeira ficou tão transtornada de alegria com o retorno do marido, fossem quais fossem as condições nas quais este lhe era restituído, que aquiesceu em tudo e manifestou à sua benfeitora toda a extensão de seu reconhecimento. A história nos conta que a sarracena teve filhos e que amou os de sua rival como se fossem seus. Que lástima não tivesse dado à luz um ser que semelhasse com ela!

Em Gleichen, pode-se ver o leito em que essas três raras personalidades dormiam juntas. Foram enterradas no mesmo túmulo, no mosteiro dos beneditinos em Petersburgo. O conde, que sobreviveu às duas mulheres, mandou colocar no sepulcro, que seria em seguida o seu, este epitáfio, que ele próprio havia composto:

Aqui jazem duas mulheres rivais, que se amaram como irmãs e amaram a mim de igual maneira. Uma abandonou Maomé para seguir seu esposo, e a outra correu a lançar-se nos braços da rival que o trouxe de volta. Unidos pelos laços do amor e do matrimônio, só tivemos um leito nupcial durante nossa vida: e a mesma pedra nos cobre agora após a morte.

Um carvalho e duas tílias, como é devido, foram plantados junto ao túmulo.

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