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Archive for maio \31\UTC 2011

furor

Ele saiu do culto com a alma menos alvoroçada. Vestia a camisa de linho branco, as mangas compridas, para louvar ao Senhor. Aprendeu com a mãe – quanto tempo faz? – que se deve vestir com respeito por ocasião das visitas.

Na calçada, os irmãos se estendiam as mãos; uma família. As saias até os joelhos, sapatos fechados. Pretos, graves e corretos.

Lembrou da falecida, a mãe dos seus filhos, avó de seus netos, que grande companheira! Nunca mais comeu galinha como aquelas que a mulher levava à mesa. Hoje não se usa cuminho o suficiente, e o tempero, é todo ele baseado no sal. Foram cinquenta anos comendo galinha de boa qualidade. Quando ela se foi, desolação e tédio; onde havia vida por aí? Para quem trazer o pão, cortar a cebola, ler a Palavra? E a caderneta na farmácia, qual serventia, se ele, forte como um touro, não tomava sequer uma aspirina?

O primeiro mês consumiu se inteirando da pequena casa. Aqui as meias, ali as panelas, acolá as toalhas. Depois foi a filha caçula quem ensinou a fritar o ovo, lavar folhas verdes com água do filtro e coar o café. Às vezes vinha preparar a galinha, mas como aquelas, nunca mais.

Restaram a Igreja e os cultos. Quando percebeu que irmã Cheirosa, igualmente viúva, o olhava com delicada compaixão, uma fresta de luz entrou pelo quarto. De costas, os olhos no teto, se pôs a pensar, refletir, fazer planos – depois de consultar a falecida, evidente. Ela haveria de compreender que um homem sozinho, sem mulher, é como náufrago à deriva, a mercê dos ventos que, nesta idade, não costumam soprar a favor.

Então, uma ilha.

Foi depois do culto de domingo que ele a convidou para um café, logo ali na padaria. Ela tinha sugestão melhor:

– Vamos até em casa e eu preparo um café fresquinho pro irmão.

– Bondade sua, irmã Cheirosa.

E seguiram, conversando sobre as palavras do pastor. Cheirosa estava encantada com aquela liturgia. Jonas saiu vivo da barriga da baleia, isso é mesmo coisa de Deus, ponderou com humildade, toda em sustos.

O café estava bom, fraquinho e doce. Cheirosa é delicada, inevitável concluir. E conhecia a falecida, saberia valorizar-lhe o passe. Foi desde sempre bem cuidado, sua mulher lhe devotava respeito e honradez, Cheirosa é testemunha.

– Nunca perguntei o nome da irmã.

– Salustiana, mas é feio demais; chamam Cheirosa desde criança.

Ele aspirou a fragrância.

O encontro foi do agrado de todos. Apenas Dalila se manteve ausente. Estava acostumada a dividir a casa com a mãe desde a morte do pai, faz um par de anos. Dalila não gostava de pessoas, nem de novidade. Nunca teve homem, para quê conviver com este agora, todo estrangeiro, debaixo do mesmo teto? E se acontecesse de mamãe perder o controle da respiração e gemer novamente acima do tom? quando moleca, ela não subiu na cama do casal para salvar a mãe que o pai sufocava com o corpo inteiro?!

Não, isto não estava bem, pior ainda nessa idade; a mulher já havia passado dos setenta, que fogo é esse? Ela própria seria um zumbi no meio do casal. E se acontecer de ter a crise na presença do velho? Pouco sai de casa, para evitar o destempero de cair na rua, levantar a saia, enrolar a língua e babar na presença de estranhos, agora essa, ai, ai, ai…

Dois meses depois, o Pastor abençoou as alianças. A lua de mel foi um final de semana em Águas de Lindóia; sem esse nome melado, para não cair na língua do povo.

Voltaram em paz, de braços dados e serenos. Cheirosa não quis deixar a casa, a filha doente, foi ele quem mudou, depois de pintar a sala de branco, e nivelar o piso.

Em pouco tempo recuperou os quilos perdidos, e aquela ingênua alegria. Cheirosa passou a exibir no rosto duas maçãs de bom parecer.

A felicidade outra vez.

Dalila pelos cantos, enredando botes. Implicando, fiando, tecendo. Cada dia ficava mais difícil testemunhar aqueles dois. Na presença da mãe dissimulava, porém declarou guerra ao padrasto tão logo ficaram a sós.

– Padrasto uma ova, que não tenho pai na idade em que estou. Pensa que não me enxergo, seu velho gagá?

Ele paciente, tolerante, generoso. A epilepsia merece respeito, é coisa do demônio, e quem não sabe? Pena que Dalila não seja chegada às coisas de Deus; logo ela, a que mais necessita.

Na primeira vez, Cheirosa tinha ido a feira, ele descansava no sofá. Quando olhou para ela, Dalila revirava os olhos, começava a tremer. Veio cambaleando em sua direção até cair sobre ele e debater-se em seu colo. Dalila se contorcia, arquejava, se mexia inteira feito as possessas dos exorcistas na televisão. Agarrava-se no pescoço, enfiava a cabeça em sua nuca, babava seu ombro. Ele a amparou como pôde, e quando o vestido subiu perna acima, de imediato lhe devolveu o recato, e só deu com a mão no seio grande de Dalila porque no meio daquele terremoto ninguém era mesmo dono de ninguém.

Quando a tempestade passou, Dalila estava deitada em seu colo, as pernas fletidas, o dedo na boca.

– Que é que eu tô fazendo aqui, seu cafajeste? – ela se levantou de um salto, abaixando o vestido.

Ele ia explicar, quando Cheirosa chegou com a feira e então se encaminhou para recebê-la. Dalila, ainda em fogo, levou o dedo à boca exigindo silêncio e pegou a sacola da mãe; parece que piscou um olho. Parece; ele não tem certeza.

Na semana seguinte a coisa se repetiu. Estava sentado na cama calçando as meias para ir ao banco quando a mulher rumou em sua direção, tremulando. Caiu novamente sobre ele e o esmagou com os movimentos frementes. Não fora doente e involuntário se diria passista de escola de samba, tamanho o frenesi. As contorções agora concentradas no regaço provocaram uma ereção inesperada, ele tentou se levantar, não conseguiu, Dalila continuava em crise, a ereção se tornando maior, ele empurrou a doente para o lado da cama e conseguiu finalmente se erguer. Ela parou de tremer e o olhou com um olho de fera. Ele saiu do quarto com a rapidez que conseguiu, uma meia na mão, a outra no pé.

– Volta aqui, seu velho babão!

Ele lavou o rosto na pia da cozinha e bateu duas vezes a cabeça na parede em frente.

– Senhor, afasta de mim este cálice!

Pediu à mulher que evitasse se ausentar. Em sua presença não vinham as crises, e já não sabia o que fazer com a enteada. Noite destas chegou a sonhar que um terremoto abria uma cratera abissal em sua casa e o sugava com sofreguidão. Em pleno desespero ejaculou no pijama, que falta de modos, lavou-se, envergonhado, no meio da noite; felizmente Cheirosa tem o sono justo.

Redobrou as orações, a tentação é uma serpente que vigia. Acabou o sossego, e os pensamentos entraram em erupção como um maremoto que surpreende águas tranquilas. Instalou-se o caos em sua cabeça, ardência na carne, e entre as pernas um Lázaro que ressuscita. – Não é este o milagre que espero, Senhor – protestou, os olhos d´água.

Dalila não dava trégua. Sentou em seu colo, às batucadas, em pleno sofá, enquanto a mãe limpava um peixe logo ali no degrau dos fundos. Ele iria enlouquecer, necessário tomar uma atitude. Dalila o chamava, em silêncio, para a arena, mas de Sansão ele não possuía sequer o cabelo.

Perguntou-lhe se não era hora de voltar ao médico, as crises tão recorrentes; estava humilde, as forças parcas.

– Quem tá precisando de remédio aqui não sou eu, santinho do pau oco. Não te garantes não, é?

Foi então à farmácia, conversou com o Nestor, amigo desde os tempos da falecida. Graças a ele é que pôde abreviar as tormentas da mulher, definhando na cama a cada dia. Com os comprimidos de amido em lugar das drogas pesadas que o médico receitava sem fundamento, abriu a portinhola que a levaria ao paraíso e a deixou seguir sem os infindáveis vexames da decrepitude. Ela partiu conservando alguma dignidade, nada mais justo.

– Depois do que lhe contei, o irmão não acha que Dalila está precisando de uma nova avaliação? Esses remédios tão fraquinhos demais, é uma crise atrás da outra.

– Mas ela é tinhosa, não é mesmo? Por sorte tenho experiência nesse tipo de medicação. Se ela não aceita passar no especialista, eu mesmo faço o ajuste da dose e a gente livra a coitada dessa moléstia.

Na semana seguinte Cheirosa foi buscar a nova remessa da medicação.

Dalila tornou-se inesperadamente calma, até apática, dormitando pela casa. Murchou os olhos. Ele respirou, finalmente, e compreendeu que, muitas vezes, a vida precisa de um bom diretor, à despeito da qualidade do enredo. Há que se desviar o curso do rio, se for necessário; e se sentiu um arauto do Senhor.

Um pensamento nefasto, entretanto, interrompeu o idílio. Se a moça sossegara realmente com a medicação, era sinal que não estava fingindo quando convulsionava em seu colo. A suspeita lasciva, apenas floreio de uma cabeça em pecado, ele, então, o verdadeiro herege; levou as mãos à cabeça.

Agora foi ele a murchar. Acometeu-lhe uma tristeza que só nos primeiros tempos de viuvez conheceu. O pijama já não saía do corpo, a Bíblia fechada no criado mudo, cancelado o curso de Pastor. Cheirosa começou a se preocupar.

– Meu velho anda tão acabrunhado. – e deslizou a mão no rosto áspero.

Ele levantou a cabeça e espiou pela porta aberta: Dalila dormia na cama acolá; olhou em volta, e as paredes delimitavam uma melancolia branca.

– Você tem razão, minha velha. Entrei na sua vida pra ser um raio de sol, não uma nuvem carregada, não é mesmo?

Ela sorriu redondo, as maçãs tomando chegada.

Na caixa de Primeiros-Socorros encontrou as pílulas de amido que forneceu à esposa tempos atrás. Constatou o mesmo formato dos anticonvulsivantes, mestre é o Nestor. Quando Dalila pegou no sono pesado, foi até a gaveta e trocou a medicação.

– Cheirosa voltará a sorrir – pensou, em júbilo, e voltou para o lado da mulher; puxou as cobertas.

Na segunda manhã, nem bem Cheirosa saiu para a pregação da Palavra, Dalila se levantou da cama, espreguiçando, polvo de mil tentáculos. Fazia ruídos com a garganta, a fera no olho. Ele sentou na poltrona de embalar. Dalila estava imensamente linda quando começou a tremer. Ele sorriu e abriu as pernas cansadas.

Ela convulsionou em seu colo, um vulcão que arde. De olhos fechados ele aspirou cada lava cor de laranja e pecado, e uma bola de fogo alevantou na sala miúda.

Dalila, feérica, babou em seu ouvido:

– Velho tarado!

Trombetas no céu.

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roland barthes

Fascismo não é proibir de dizer; é OBRIGAR A DIZER.

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Desde moleque que me amarro em futebol, acontece que sempre fui o maior pé torto, era zagueiro mas tinha péssima pontaria. Com isso claro que era o último escolhido na hora de formar o time, mas botava maior banca.

Quando conheci a Mônica, ela quis me ver jogar na quadra municipal. Pra minha sorte a bola estava no pó da rabiola e eu pude passar um bom chaveco no meu velho, que topou patrocinar uma bola nova pro time. De véspera já mandei espalhar a notícia que eu tinha uma bola zerada, nem dormi de noite na maior excitação. Domingão logo cedo passei na casa da Mô e fomos direto pro campo (claro que eu tava na maior neura de mesmo assim não ser concovado, ou ser o último, ficar na reserva, esse tipo de coisa). Que nada!! Botei a bola embaixo do braço e mesmo sem ganhar no par ou ímpar fui o primeiro a ser chamado, e o melhor de tudo é que fiz o gol que decidiu a partida.

Diz meu amigo Marcelo (o goleiro do outro time) que   foi ele que deixou a bola entrar pra me dar moral. Não sei até hoje se é verdade, mas  convidei o goleiro pra padrinho do meu casamento com a Mônica, e até hoje eu e ela tamo batendo o maior bolão.

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jorge mautner

BELEZAS são coisas acesas por dentro;

  tristezas são BELEZAS apagadas pelo sofrimento…

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Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

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Escrevi um diálogo usando letras de canções; tomara que você conheça todas. Você pode fazer o mesmo, seguir de onde parei, ou começar outra narrativa e, se quiser, eu vou atrás; que tal?!

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Meu mundo caiu. Ela disse-me assim:

– tente outra vez

– o meu sangue ferve por você

– palavras, palavras, palavras…

Voltei à cavalgada, sem fantasia, com açúcar, com afeto, me agarrei em seus cabelos, sua boca quente pra não me afogar

– entra, podes entrar que a casa é tua

– solte suas feras!

– eu sou uma fera de pele macia

– eu quero me perder debaixo dessa tua saia

– alô alô responde!

– ando devagar porque já tive pressa

– alguém me disse que tu andas novamente…

– meu bem, você me dá água na boca

– não, isso não, me dá coceira…

– você é o fósforo e eu sou o pavio

– sou toda explosão!

– quente, quente, quente, como um dia de verão

– eu tenho febre, eu sei…

– só quero com você, só faço com você

– você já tá pra lá de marrakesh

– vem, vamos embora que esperar não é saber

– espere um pouco, um pouquinho mais

– não dá mais pra segurar…

– você é meu ébano, é tuuuudo de bom

– fogo, por favor!

– eu te darei o céu, meu bem (meu corpo é testemunha do bem que ele me faz)

– rio de janeiro?!

– bahia, terra da felicidade

– na baixa do sapateiro?

– uma tarde em itapoã

– biquíni de bolinha amarelinha?!

– camisa listrada

– teresinha, você? carolina? conceição? gabriela? amélia? geni?!

– eu sou stephany, e não queria ser mais uma em sua cama; tira as mãos de mim!

– já tive mulheres de todas as cores

– cálice! 

– só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio

– sua estupidez não lhe deixa ver

– eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas…senta aqui, pra quê toda essa pressa, senta aqui

– nem morta!

– só quero um xodó

– talvez no tempo da delicadeza

– eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim

– pedra que muito se muda não cria limo jamais

– quero te dar tudo que um homem dá pra uma mulher

– você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir; que queres tu de mim?

– a rosa pequenina

– olha, meu nego, eu quero te dizer…

– não, não digas nada; põe meia dúzia de brahma pra gelar

– apagaram-se as luzes, é o futuro que parte

– não se vá!

– mas foste tu mesmo o culpado…

– não me diga adeus, pense nos sofrimentos meus

– tenho a leve impressão de que já vou tarde

– um dia você vai voltar dizendo que foi muito burra em não atender ao chamado

– mesmo que a vida se torne cruel, se transforme em uma taça de fel, estes trapos tu não mais verás

– sei que você fez os seus castelos…

– eu digo que em mim ninguém monta, sou faca de ponta querendo espetar

– baiana boa!

– você mentiu, iludiu e me deixou por fora

– olha, você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim

– mentiras que calam na alma fazendo sofrer…

– por quê me olha desse jeito?

– tomei o calmante, o excitante e um bocado de gim

– rebola que eu quero ver!

– você precisa de um homem pra chamar de seu, se ajeite comigo e dê graças a deus!

– nunca, nem que o mundo caia sobre mim

– mulher é bicho esquisito

– me devolvo aos meus travesseiros…

– dá tua mão, olha pra mim, não faz assim, não vai lá não…

– eu bato o portão sem fazer alarde

– por quê me incendiaste de desejo quando eu estava bem morto de sono?

– porque foste na vida a última esperança

– vai chorar, vai sofrer e você não merece; quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar!

– tira as unhas do meu coração!

– eu cavalgava em você, não finja

– nada além de uma ilusão

– deixa eu te amar, faz de conta que sou o primeiro

– o primeiro me chegou como quem vem do florista

– menina, eu sou é homem

– iguais a você já apanhei mais de cem…

– você é doida demais!

– onde voas bem alto eu sou o chão

– eu quero que você me ame, que você me chame quando precisar

– eu quero é tocar fogo nesse apartamento

– eu te proponho…

– na tonga da mironga do kaburetê!

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