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Archive for abril \30\UTC 2011

Como todas as boas histórias cativantes, começo…há muitos anos, quando era um rapazinho jovem com sonhos, tantos como a frequência das marés do oceano atlântico,  e estudava na Universidade de Lisboa, sem saber ao certo o que sairia deste melão que e’ a vida, se seria doce, amargo ou com sabor a pepino( há que abri-la, a vida, tal como o melão, para saber o que lá está dentro), vivi numa República.

Uma República, em termos de estudante universitário, é um “coisa” tipo lar residencial.  Mas não é um lar qualquer. Uma República era ( hoje já não o e’, mudam-se os tempos mudam-se as vontades) uma casa com espírito fortemente comunitário e altruísta. Éramos 21. Todos pagávamos mensalmente o mesmo. Havia uma mesada estipulada onde cada um dos 21 contribuía de acordo com as despesas da Republica do mês anterior. Com essa mesada pagávamos a água, luz, 3 empregadas ( algumas para todo o serviço), uma que cozinhava e fazia compras, outra que limpava os quartos, fazia as camas, e passava a nossa roupa a ferro,  e a outra dividia-se nas tarefas ajudando as outras duas. Todos os anos elegíamos um presidente, um  secretário e um tesoureiro. O presidente tinha varias funções, além de ser o moderador nas reuniões mensais, também servia  para ir a policia de vez em quando, um de nos ia enjaulado por umas horas devido a alta bebedeira e outras coisas parecidas. O secretario escrevia as actas das reuniões mensais e também tinha a ingrata missão de apaziguar os vizinhos e vizinhas, devido a barulheira… o tesoureiro, para controlar as despesas do economato. Todos os meses elegíamos dois ecónomos para controlarem as despesas das empregadas e decidirem o que se comia a hora do almoço e jantar. A responsabilidade do menu diário ( comíamos em casa e não nas cantinas universitárias) era tarefa dos economos.

Nesta república como acima referi, éramos 21, mas nunca mais de 3 de cada cidade para não haver gang nem máfia. Ou seja, 3 de Loule, era o máximo permitido, assim como 3 de Castelo Branco ou 3 de Portalegre, ou 3 de Coimbra e por aí fora.

Fui para esta república quando tinha 18 anos. A admissão era feita na base de recomendação de ex Republicanos, pois quando para lá entrávamos já sabíamos o que nos esperava. Assim não havia espaço para choque de culturas. Até ter entrado para este novo mundo, nunca tinha convivido com um moço da minha idade do Norte ou das ilhas. Quando lá cheguei, esta malta pareciam-me ovnis, pois nunca tinha visto gente tão rara e estranha, alguns inclusivamente rezavam antes das refeições, outros vestiam-se de casaco e gravata, outros nem sabiam o que era marisco, enfim, uma bar tipo Guerra das Estrelas..

Passei lá 5 anos, sem dúvida alguma os melhores anos da minha vida e os melhores anos da minha formação. Hoje sou o que sou, não só devido a educação recebida pelos meus pais e amigos, mas acima de tudo devido aos anos que passei na Republica. Foi um mundo que se abriu aos meus olhos. Foi lá que aprendi que quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. Aprendi que se pode dizer um monte de mentiras dizendo a verdade. Foi lá que aprendi a dizer às meninas que uma chave que abre varias fechaduras vale muito..mas elas respondia-me que uma fechadura que se deixa abrir com qualquer chave não vale nada…Conheci gente de todos os quadrantes e áreas, desde artistas a bêbados, desde intelectuais do melhor que jamais saboreei, atée as mentes mais perturbadas.

Num mundo destes, vindo eu da província com uma linguagem simples, réplica pronta, anticonformista, desassombrado, nunca obedecendo ao cliche do politicamente correcto…foi difícil adaptar-me a outras maneiras de ver o mundo. Nesta Republica aprendi a escrever e dominar a minha língua, aprendi que as palavras tem a leveza do vento e a força da tempestade quando bem utilizadas. Dos 21, havia de tudo, uns que estudavam para médicos, engenheiros, professores, cientistas, gestores, advogados, de tudo…Foi lá que aprendi que vocação e’ diferente de talento. Muitos dos meus colegas tinha vocação para ser médicos mas não tinha talento algum, pode-se ser chamado e não saber como ir.

No meio desta salada de gente, havia o Firme. Moçambicano, simples, aberto, genuíno e ria tanto, mas tanto….não tinha dinheiro, não tinha pais, os pais foram assassinados na guerra civil de Moçambique pós independência, e nós os outros 20 decidimos por solidariedade e não por caridade ( agora já me entendes melhor acerca dum post no teu blog…) pagar sempre que possível todas as suas despesas, todos os seus custos. Há poucos dias o Firme  morreu. Com ele aprendi, e não só eu, mas muitos de nós, daí esta onda de solidariedade,  porque o Firme era uma pessoa tão boa, que não parecia real. Aprendi eu e todos os outros, com ele, que não somos amados porque somos bons, mas que uma pessoa e’ boa porque e’ amada. Ele nunca limitou os horizontes, nunca foi um pelintra embora na sua vida fosse um pelintra aos olhos dos novos ricos. A felicidade dele não passava duma reconciliação consigo e para com os outros. Foi das poucas pessoas que conheci onde os bens materiais não o faziam feliz. Sempre foram as suas necessidades interiores que o faziam feliz. Quando apanhava uma grande bebedeira ele dizia que estar bêbado não era o prazer da ressaca, mas sim o sacrifico do prazer.

na foto a preto e branco estou com um pull over branco ao lado do Ben ( com bigode) o Ben ( Benjamim) também já cá não está..morreu há 3 meses…

O mais importante na vida é conhecer as pessoas.

na república

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Poucos dias atrás recebi um email de Jorge, meu amigo português, falando de sua experiência em uma república onde morou há anos, sua juventude, a terra, aprendizados,  nascedouro. E falava, igualmente, de uma perda, um amigo daqueles tempos. Tanta verdade ali, ocorreu-me dividir com você; ele permitiu. Antes, voltou uma idéia que venho mastigando há um tempão: guardar os domingos para quem quiser escrever a respeito do que tiver vontade. Aqui. Assim. Do jeito que vier.

Começaremos bem. Com Jorge, que é todo verdade. Amanhã.

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Desta vez o ‘dever de casa’ no curso de Escrita Criativa foi contar uma história conhecida, pelo prisma de um personagem coadjuvante – podia ser uma única cena. Pensei inicialmente em Madalena e Salomé (e a cabeça decapitada do João Batista), em Sansão e Dalila (olha os circos-teatro de minha infância), o Ébrio, pelo prisma do cotovelo (conhece cotovelo de ruela?). Olha onde fui parar:

‘Adianto que não nasci sapatinho de cristal, antes, um vaso de bom parecer. Longo e fino; elegante, porém imóvel, a pior sina. Meu destino é a rua, os logradouros, o usufruto do IPTU, foi cedo que descobri; igualmente cedo percebi que não havia com quem trocar figurinhas, e locomover-me, ai de mim!

Quem me comprou – em priscas eras – foi um homem bom e justo, porém omisso -homens deste tipo costumam produzir veadinhos os mais graciosos, alguém viu o bambi por aí? E sua viúva, ao lado das duas filhas, lobas em pele de cordeiro, ou por outra, biscas da melhor qualidade. Ele nem chegou a perceber, abalroado pelo excesso de cores e os perfumes demasiados – para não falar no tilintar dos brincos e pulseiras. As peruas funcionam numa tal velocidade que a tudo fazem calar e, assim, o mundo segue girando na ação vertiginosa de uma jogada destes cabelos lisos e loiros, por vezes fogo, outras tantas ébano, mas sempre eloquentes. Nestes arranjos familiares o motor do mundo segue o padrão das labirintites, argh!

A vantagem desta posição imóvel é que posso narrar os fatos do ponto de vista, digamos, oriental: o silêncio é poder concentrado.

Minha única companhia é a menina Cinderela, bela e só. Não fosse por ela jamais teria acolhido uma tulipa vermelha, uma rosa amarela, uma estrelícia então…A madrasta e suas filhas sempre preferiram flores de plástico que, além de durar mais, custam menos e não juntam mosquito, é mole? Detalhe: sou alérgico a estes sintéticos. É, não falei para ninguém que o paraíso era aqui, portanto, tirem as criancinhas da sala.

Cinderela, minha Cinde, é uma garota bastante interessante; tolinha, vez em quando, avoada, outras tantas, entretanto isso se deve mais à falta de oportunidades do que a defeito de fabricação. A madrasta não deixa a garota sequer descansar o cotovelo na janela – qual é a molecota que não aprecia esse programão?! – nem cruzar o batente da porta – e isso lá é vida?!

Assim, ficamos os dois, eu em cima da cristaleira, mudo como um sapo-rei,  e ela na namoradeira – tirem as vovozinhas do alpendre – enfiando peido no cordão. Somos ambos lindos e inalcançáveis. Ela, afeiçoada a mim, adquiriu o hábito de me levar consigo pelos ambientes do casarão, feito bilha.

But…sempre um but…o rei anunciou uma balada no Castelo Encantado, a fim de encontrar uma pretendente para o seu varão, prestes a dobrar o Cabo do Bojador e ainda solteiro, tamanha a esbórnia do dolce far niente. Isso vai bombar, pensei com meus botões, digo, com meus óxidos de chumbo, e procurei os olhinhos azul-piscina de Cinde, mas agora ela só tinha olhos para aqueles passarinhos, esquilos e até um ratinho pentelho, não falei que a fofa era meio nerd?

Mal rolou a notícia pela casa, foi um alvoroço, vocês sabem como as meninas farejam de longe uma testosterona, ainda mais da realeza. Cinde, que não tava morta nem nada, tentou bater sua rica plumagem, porém a madrasta foi definitiva: Gabô, você só vai a este baile se conseguir lustrar toda a prataria, encerar o chão, regar o jardim, preparar a ceia, desfazer os nós dos cadarços e calar a boca do Faustão.

Para quem não entendeu, Gabô é um jeito carinhoso de se referir à alcunha da Cinde: Gata Borralheira

A garota balbuciou: ‘mami, será que entendi direito?!’, e passou a mão pela cabeleira para se certificar da cor. ‘isso mesmo, chèrie, mas fica fria, que tá facinho, facinho’. A coruja de mármore resmungou, impassível, do aparador: ‘te vira nos trinta!’.

Resumindo porque temos pouco tempo: duas horas depois, a velhota e suas moçoilas desciam, empavonadas, a escadaria do casarão, enquanto Cinde tentava desfazer o segundo nó do cadarço, sentadinha no borralho.

Desistiu.

Vendo a menina enrodilhada no sofá, agora assistindo ao Zorra Total, o ratinho camarada comentou: ‘é, bebezão, uns têm dita, outros caganita’. A doce Cinde franziu os lábios e uma furtiva lágrima aflorou em seus olhos azuis, rolou prum lado, rolou pro outro, sem conseguir despencar, a gata não era, igualmente, um oceano de sensibilidade; nossa intimidade me mostrou.
Eis que, senão, quando, a madrinha gorducha da garota, que nunca havia dado as caras por aquele reino, resolveu dizer a que veio e, pluft, apareceu no meio da sala, como se nunca tivesse saído dali.

‘Fica fria, Cinderela, que a madrinha não é o He Man mas também tem a força’. E, vapt, transformou seu pijama de bolinhas em um belo vestido de baile, aplicou um laquê no cabelo e adornou com uma tiara de diamantes, pegou uma abóbora que estava guardada para um bobó e zoooom, transformou numa carruagem ma-ra-vi-lho-sa, rodopiou a varinha de condão e aqueles inúteis se tornaram cocheiro, segurança e manobrista, de gravatinha e tudo. Eu mal conseguia acompanhar a performance da gorda, tamanha a destreza. A coruja, de cima do aparador, arrotou: é, toda araruta tem seu dia de mingau; vai que é tua, tafarel! 

Foi quando o anão do jardim ao lado percebeu que a gatinha continuava usando a meia soquete puída no calcanhar, e todos levaram a mão à boca: ohhh, nããão, isso nããão. E, então – que soem as trombetas! – os olhos da gorducha se voltaram para mim e sssssss…….plaft…….truummm……lá estava eu nos pés de cinderela, prontinho para ganhar os espaços públicos e chegar ao castelo do rei. Juro que não acreditei, espreguicei inteiro, me belisquei, quase cheguei a trincar. Passada a euforia inicial, me ocorreu que um sapatinho de cristal não deveria ser a coisa mais confortável para aqueles pés que tanto aprecio, porém, quer saber, estamos em guerra, que vença el mejor!

Lá fomos nós. Nem vou contar tudo o que aconteceu a partir daí porque é de conhecimento público e já ultrapassei em várias laudas o espaço que me deram aqui. Em duas palavras: Cinderela arrebentou. Em três: foi, viu e venceu.

Finalizo afirmando que na via-sacra que durante dias realizei com o príncipe – hoje nosso Rei – sobrevivi a chulé, esporão, calo, micoses, rachaduras no calcanhar e otras cositas que convém suprimir para não melar a história que vinha tão bonitinha, contudo retornei belo e poderoso para os pés mais delicados de todo o reino.

Humm….Não é exatamente verdadeira esta última afirmação – experiência é posto –  entretanto não serei eu a macular a honra de…….bem, deixa pra lá que hoje é sábado de aleluia, vai rolar o maior bafão no Castelo Encantado e a madrasta malvada – diga-se de passagem, os pés mais bacanudos de todo o reino – ainda nem me lustrou.

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A partir de um comentário que ela deixou em outro post, cheguei ao blog de Martha Galrão, poeta baiana. Tem coisas muito bacanas ali, quer conferir?

mariamuadie.blogspot.com

Foi de lá que eu trouxe este poema; veja:

A NOITE

Daqui de casa
seguro a noite em meu peito.
Agarro a noite à unha
como um grande e velho touro negro.
Com um fio de voz
mantenho a lua suspensa (imensa).

Se eu dormir
a noite desmorona.

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Escorpianos, os irmãos. Dizem que escorpião é vingativo. Hoje a mais nova esclareceu: somos não, meu irmão; espalma a mão esquerda e, com o polegar da direita, vai batendo no centro da outra e repetindo devagar ‘aqui plantei um pé de cá-te-espero’.

E espera.

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Deixei Belém chovendo e cheirando à manga. Da janela do avião São Paulo esteve um Blade Runner.

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