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Archive for novembro \30\UTC 2010

Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre. 

Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista

Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério

Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo

Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes

Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la.

Eu sou um que sabe.

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Houve um tempo, lá atrás, em que cogitei ser santo.

Isso mesmo, santo, não fiz por menos. (Aliás, outro dia, um amigo perspicaz comentou com precisão: Grande o pecado, maior a pena e as aspirações).

Quando criança, ia à missa, estudava em colégio religioso, colecionava aqueles santinhos de papel que vinham com as orações concernentes no verso (Meu Glorioso São José, pai e protetor das virgens, guarda fiel a quem Deus confiou…), era dos poucos que se emocionava já nas aulas de catecismo, e via na possibilidade de receber a hóstia a avalanche que lavaria todo e qualquer pensamento maldoso que pudesse acometer minha irrequieta cabeça grande e chata.

Palavras como mosteiro, genuflexório e turíbulo me arregalavam os olhos. A visão de um enorme crucifixo de madeira na parede do quarto de minha avó me encandeava. Igualmente inebriado ficava com o aroma do incenso nas missas de domingo. Realmente eu devia estar com o diabo no corpo. Na hora da Consagração, em que tocavam o sino, e a gente se ajoelhava, abaixava a cabeça e fechava os olhos,  ficava imaginando o que estaria acontecendo de extraordinário no palco, digo, no altar. E sentia redobrar os apelos do chamado.

Uma certa altura, um frade polonês pernoitou na fazenda em Goiás, noite que passei insone como se o próprio Nazareno estivesse dormindo no quarto ao lado. Hoje tenho dúvidas se a noite em claro se deveu realmente ao encantamento pelo hóspede ou aos roncos franciscanos que vazavam de um quarto para o outro, a casa sem forro, a noite silente.

Meu pai resolveu escavar o tronco de uma palmeira para assentar ali uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de nossa devoção; e quem se postou ao lado até aparecer o nicho? Quando foi cogitado construir uma gruta de pedra, próximo ao riacho, fiquei deslumbrado. A gruta não chegou a sair mas montei guarda no coqueiro e aguardei durante as férias inteiras a santinha chorar a lágrima que a mulher do vaqueiro jurou ter presenciado em situação semelhante, quando menina, lá em Bacabal. A santa nem lacrimejou, me desapontei um pouco, mas concluí que ela estava contente ali, tão bem assistida, não havia motivo para pranto. Eu estava, portanto, no caminho certo.

Certa vez, minha tia Elisa chegou da rua com uma novidade: havia encomendado uma santa que falava. E, na sequência, cantava. Rapaz, aí não foi uma noite apenas sem dormir, não; minha pobre tia, a partir deste momento, só teve sossego quando, dias depois, bateram à porta e entregaram o pacote. Foi enorme minha decepção ao perceber que a santa falava e cantava sem mover os lábios, sem abrir a boca; obedecia, isto sim, a um ajuste de cordas que se fazia no globo onde ela se sustentava. E, pior dos pecados, a corda quebrou pouco depois, o que me fez acreditar que, em minha blasfêmia, eu havia conseguido emudecer a santinha.

Desilusão parecida sofri quando ouvi dizer que em breve chegaria, também da capital, uma arca que meus pais haviam encomendado. Pus-me a pensar se teria tamanho suficiente para embarcar patos, carneiros e jumentos de verdade, ou serviria apenas para guardar miniaturas de bichos que eu mantinha embaixo da cama, o presépio. Quando a dita chegou e descobri que se tratava de um grande baú para o depósito de roupas e toalhas, comecei a desconfiar que este insensato mundo escondia inesperadas trapaças. E vislumbrei quão difícil seria cumprir minha vocação em cenário tão adverso.

Fui anjo de procissão numa idade um pouquinho acima do recomendável. Esta experiência vou pular porque ainda não me sinto de todo refeito. Direi apenas que, no percurso, algumas penas levantaram voo, e uma asa despencou-me das costas fazendo a alegria da molecada que, já àquela altura, não obedecia aos mesmos preceitos beatíficos que eu alimentava.

Em seguida tentei ser coroinha, mas não tive paciência de obedecer a hierarquia e esperar meu momento de auxiliar diretamente o sacerdote. Auxiliar de sacristão não preenchia exatamente meus desejos de elevação espiritual, e tentei, aproveitando o atraso do ajudante oficial em um domingo de chuva, usar seus paramentos e ir ao encontro do padre no altar. A cara de surpresa e de reprovação daquele Servo do Senhor não me deu condição, sequer, de aguardar o final da homilia. Abandonei a cena ainda no sermão e para lá nunca mais voltei.  

Se estava na fazenda por ocasião de festividades religiosas, promovia grandes celebrações. Na Semana Santa, por exemplo, fazia a procissão do calvário distribuindo papéis entre meus irmãos, os moradores e os filhos dos empregados. Você já imagina quem puxava as orações e balançava o incensário. Bingo! É necessário dizer que eu era um tanto rigoroso, não admitia dispersões, o que se tornava problemático porque, volto a repetir, jamais encontrei outro paroquiano que partilhasse comigo aquelas elevadas intenções. Diz minha querida irmã que eu era mesmo um chato de galochas metido a preceptor, mas eu sabia muito bem o papel que me cabia frente ao meu rebanho e não me deixava intimidar.

Depois dos sacrifícios da semana, chegava-se finalmente ao sábado e também a  ele, ao Judas. Não lembro bem de onde surgia, mas ele estava sempre ali. E íamos todos para o massacre. Vingando o Cristo traído e vingando todas as privações que havíamos passado naquela semana por conta de sua língua solta. Acho que foi esta a primeira catarse que vivi e presenciei. A primeira manifestação de histeria coletiva também.

Fui crescendo e nos mudamos para uma cidade maior. Os sacrifícios da Semana Santa encurtaram. Não se cobriam mais as imagens dos santos, se podia comer carne até a quarta-feira e já era permitido ouvir alguma música, desde que serena (convenhamos que no nordeste brasileiro permitir música serena é piada). Ingressei no Grêmio do colégio e passei a participar formalmente das liturgias. O lava-pés da quinta, a procissão da sexta, o sábado de reflexões e a missa da Páscoa, no domingo, o grande momento, quando se comemorava a ressurreição e a passagem para a vida eterna. Páscoa-Passagem. Mensagem que ainda hoje considero urgente e necessária.

Foi quando, então, descobri o Clube e o grande baile do Sábado de Aleluia. A festa começava depois da meia noite, virava carnaval, e ia até o dia amanhecer. Eu queria ser santo mas também gostava um bocado de carnaval. Troquei de fantasia. Judas, Pilatos e Madalenas deram lugar a Piratas, Pierrôs e Colombinas. E entrei no cordão.

No céu, os fogos de artifício.

Entre a noite de um sábado de aleluia e a madrugada de um domingo pascal, no meio do salão atirando serpentinas, eu percebi que, qual as penas daquele arcanjo na procissão, a minha infância inquebrantável se desmanchava no ar.

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Um PROGRAMA LEGAL é qualquer programa que a gente faz BEM ACOMPANHADO. As pessoas podem determinar a qualidade do PROGRAMA. Gosto muito de ir pro MOSQUEIRO com meus primos, me deitar na rede e esperar o PÔR DO SOL. 

PROGRAMA DE ÍNDIO é todo aquele que (NÃO) responde a seguinte questão: ONDE EU ESTAVA COM A CABEÇA QUANDO TOPEI PARTICIPAR DESSE EVENTO?!

Estive numa jangada, em Maceió, com LENI ANDRADE cantando boleros à capela, embaixo daquele céu azul maravilhoso. Estávamos rodando o nordeste com o Projeto Pixinguinha.

SÁBADO em sua casa, com você, Will e quem aparecer. Conversando, falando nada, ouvindo música, brincando…

Gosto de brincar de Queimado, Pique alto, Pega-Pega, boneca de vez em quando e  COM O MEU CACHORRO TUCO.

Quero cozinhar bem, tocar (melhor) um instrumento, escrever uma boa HISTÓRIA e ser mais PACIENTE

Não gosto quando me põem na parede, me cobram, me apontam o dedo. Perco as estribeiras, posso ficar agressivo e NÃO GOSTO DISSO.

Procuro ser tolerante com os DEFEITOS ALHEIOS, com os meus também. Alguns defeitos, porém, ainda considero lamentáveis: mentira desnecessária, falta de consideração, DE HIGIENE, e de amor próprio.

Três motivos para esquecer alguém? NUNCA, NUNCA, NUNCA. Esquecer JAMAIS.

Gostaria de não guardar tantas coisas dentro e fora de mim. EU ACUMULO DEMAIS.

Sou muito CRÍTICA, além da conta. Preciso parar com isso.

Uma parte do meu corpo? NÃO. ELE TODO.

É muito importante aproveitar cada MOMENTO. Eles não se repetem. Na vida não tem VALE A PENA VER DE NOVO. É tudo inédito.

A BELEZA SALVARÁ O MUNDO!

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ANATOLE FRANCE

 É uma grande tolice o «conhece-te a ti mesmo» da filosofia grega. Não conheceremos nunca nem a nós nem aos outros. Mas não se trata disso. Criar o mundo é menos impossível do que explicá-lo.

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Fiquei sabendo que o OITO DOIS QUATRO foi vendido – a casa de Pinheiros. Outra metamorfose. É da natureza deste endereço a diversidade; está em seu DNA.

A casa foi comprada décadas atrás por Seu Wilson e Dona Diva, que a habitaram por muito tempo. Criaram os filhos, acolheram pessoas, receberam outras, sofreram perdas, sempre acolhidos pelas paredes e assoalhos que chegaram a eles por trabalho e disciplina. Foi assim que a conheci, os dois à frente; e um sorriso.

Com o passar do tempo a casa se tornou grande e eles mudaram de lá, para a rua de trás. Seu Wilson deixou alguns passarinhos nas gaiolas e, a pretexto de cuidar deles, vinha sozinho, usufruir umas tardes; o quanto quis, até se despedir.

Em seguida nos mudamos para lá. Outras cores, então. O OITO DOIS QUATRO se adequa, não conhece rigidez, se movimenta para acompanhar o temperamento de quem o ocupa. E então ele se fez chacrinha, teatro, resort, boteco, divã, sem deixar um segundo sequer de cumprir sua vocação primordial: LAR; sabe aquele que não se compra, não se tem como adquirir? Um lar não admite fraudes.

Abrimos novamente as portas – e os braços. Por ali passaram grandes e pequenos, amarelos e azuis, gravatas e regatas, seda pura e chita fina. Foi terreiro de São João, salão de carnaval, palco de saraus e performances, ombro amigo, mão estendida, olho discreto e pernas sempre prontas para a dança; um corpo inteiro. Aos finais de semana, no entra e sai, de mamando a caducando, diria mamãe. Todos acolhidos e aceitos. Como eu mesmo havia sido, tempos atrás. O  OITO DOIS QUATRO respirando forte, insuflando, ventilando o quarteirão. Quanta música, quanta louvação! criamos cachorros, os vimos procriar, lambuzar o quintal e depois partir, os filhotes.

Os vizinhos da direita passavam sal e açúcar pelo muro. De lá vinha também o cheiro de churrasco que ninguém faz igual. E, vez em quando, um espeto fumegante. Se a música ia até mais tarde, no dia seguinte ao deparar com um deles na calçada, o comentário risonho:  ‘acordei de madrugada ouvindo o Roberto Carlos, Ivany adorou!’  ( estão juntos e vivem bem até hoje ).

À esquerda havia uma Igreja, cujos membros gritavam exaustivamente nos cultos, despertando o Senhor. – Vem, Senhor Jesus, Vem, Senhor Jesuuuus! – não acreditavam na saúde auditiva do Altíssimo; nada grave.

Certa vez fizemos uma reforma no quintal e, portanto, a inauguração. Nada mais natural, tudo ali conclamava à comemoração, ao festejo. Eliana trouxe a vela que colocou no centro do ladrilho hidráulico, original até a última pastilha. Rui chegou e ao se deparar com o muro branco, recém-pintado, voltou à sua casa e retornou com a SUPER 8 e o Projetor. Nos sentamos todos e, sob uma lua branca, assistimos a um filme em preto e branco, todo inverno. A Russia ali, no quintal de casa, um êxtase. Cinema Paradiso – para sempre.

Outra feita, um sábado, uma moça bonita e risonha, que ninguém viu chegar, dançou a noite inteira, brincou, bebeu, comeu, e desapareceu sem deixar sequer o sapatinho. Ninguém a conhecia. Durante dois anos nos indagamos a respeito, conjecturas várias; a mais inquietante: deliciosa alma penada?!

Certa noite, em um bar ali perto, uma simpática moça de chapéu veio falar comigo – era a própria. Ela morava no prédio em frente à casa e contou que há tempos paquerava aquela efusão que percebia  ali e, naquele sábado, se encheu de coragem, desceu o elevador, atravessou a rua e chegou para participar. Depois, envergonhada, partiu e se escondeu durante estes dois anos, porque, embora bonita e animada, a moça era tímida – coisas de Pinheiros. Não a vimos desde então. Sabemos que foi bailarina, é artista plástica e leciona inglês; foi o que disse nesta segunda vez – e fez um espacate na calçada. Não há provas quanto ao resto.

Aliás, as provas no que se refere ao OITO DOIS QUATRO estão apenas nas mentes e corações de quem circulou por ali; não deixamos vestígios.

Há pouco mais de três anos mudamos de lá. A casa virou uma Pizzaria das mais simpáticas. Derrubaram paredes, veio abaixo o alpendre – ela se adaptando à nova função. Ninguém mexeu no limoeiro lá atrás, isso não –  aliás, o mais elegante que já conheci. Limoeiro descendente de palmeiras, ao que parecia: magro e longilíneo como hoje as mulheres querem ser.

E então fiquei sabendo que ele foi chamado para nova função: vai dar lugar a um edifício de apartamentos.

Não pense que isso nos traga alguma melancolia; aprendemos ali que nada é para sempre. E que, quando estamos usufruindo o oitodoisquatro da vida, precisamos desfrutá-lo com alegria e zelo. Antes, reconhecê-lo, para não perder a oportunidade.

Podem derrubá-lo à vontade. Enquanto estivermos por aqui ele estará sempre conosco porque, como Paris, o OITO DOIS QUATRO é uma festa móvel.

‘este post é dedicado às divas, aos wilsons, às eurídices, magalis, silvias, cidas, olgas, miriams, sorayas, aos domingos, lauros, marcelos, budas, tonis, henriques, ricardos, élcios, tiagos, às elianas, nenas, veras, márcias, cláudias, anas, silvinhas, helenas, stelas, clariças, carlas, alessandras, danis, aos eduardos, fernandos, nilos, robertos, ruis, marrecas, jorges, marios, ewertons, álvaros, losas, teresinhas, roses, cristinas, gracielas, ledas, anas, brunas, julianas, ceres, santana, silvânias………………………….e àquela moça bonita que não deixou o sapatinho’.

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PAUL NO MORUMBI

Eu também fui ao show de Paul McCartney, no Morumbi. Muni-me de lenços de papel – estou resfriado –  vesti uma capa de chuva, acompanhei meus amigos e encarei a garoa que, vez em quando, virava chuva fina.

O estádio lotado. Gente madura, gente verde, gente ainda de vez. Não lembro de outro show de música com platéia tão diversificada, e me chamou a atenção o entusiasmo da galera mais jovem, a maior parte das canções na ponta da língua. Nos sessentões, um sorriso de primavera.

Nunca fui especialmente ligado aos Beatles, tampouco à carreira solo do cantor. Minha adolescência e juventude foi pós-Beatles e, ainda assim, suas canções pouco chegavam ao interior do nordeste, àquela época embalado por violões e sanfonas. Evidente que ninguém passa imune a torpedos como Let It Be, Something, Get Beck e, My Love, eu ouvia no final da infância, e sua delicadeza cheia de românticas promessas embalou aquela melancolia que acompanha a perspectiva das futuras paixões.

Tecnicamente o show foi perfeito. Som da melhor qualidade, imagens demolidoras. Paul, descontraído e empático, não permitiu que a parafernália o subjugasse e, ao contrário, promoveu um ambiente de congraçamento e festa genuína. Conseguiu que tudo soasse humano, quando poderia parecer mecânica.

Lá pelas tantas, quando anunciou uma homenagem a John Lennon, uma lua inesperada apareceu atrás de nuvens carregadas e desembarcou na arena. Houve quem visse olhos puxados no Jorge, cavaleiro audaz. E pequenos óculos redondos.

Ao final, fogos de artifício irromperam do chão e encheram de cores a madrugada. E a multidão saiu pelas ruas com a certeza de que uma flama está sempre pronta para arder no peito de quem acaricia suas memórias. Inclusive as que ainda em botão.  

Bonito de ver. E fazer parte.

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PAULO LEMINSKI

a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa

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