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Archive for setembro \28\UTC 2010

ÍNDIA/por aí

Quando desembarcamos em MOMBAY era madrugada e, ainda na esteira das malas, o cheiro de desinfetante e creolina indicava que estávamos, realmente, em outro universo. Qualquer coisa ali me lembrou de imediato a minha infância no interior, filmes de guerra no Cine Muiraquitã, meus soldados de chumbo, os índios apache. Guardas uniformizados por toda parte. E os cheiros fortes.

Enquanto esperava o traslado para o hotel, ao ar livre, uma garota de uns 12 anos grudou em mim e, em uma mistura de idiomas indecifrável, me pedia dinheiro, comida, talvez um anel, o que quisesse oferecer.  Quando digo ‘grudou’ não uso força de expressão, sou literal. Cheguei meio tenso, agora estava desconfortável. Moro em um país onde, lamentavelmente, crianças na rua podem nos ameaçar, veja que terrível. Ainda não conhecia as dali. Dei umas moedas em reais, ela riu um pouco, admirou, correu para mostrar às outras. Pouco depois eu estava cercado por elas que, nada tolas, pediam rupias, não reais. Nenhum plano de viajar ao Brasil. Eram pobres mas não eras tontas. E tão doces.

No caminho até o hotel, no centro da cidade, as ruas eram um grande dormitório a céu aberto. As pessoas dormiam na calçada, encostadas nos carros, embaixo de viadutos, formando um grande e inimaginável tapete humano. Mesmo para quem não está chegando da Suíça, a cena impressiona.

Nosso tempo no hotel seria curto. Breve descanso, um banho rápido, talvez, um telefonema para casa. Chegávamos de Joanesburg, quase dez horas de voo. Entramos na boate do hotel por curiosidade, onde a música alta fazia dançar poucos indianos e muitos turistas. – Corta para um Night Club em Nova York, gente descontraída e loura, século XX, contemporaneidade.

Cansaço da viagem? Quem falou? Um drinque sem álcool, excitação e lá se foi o sono. Os primeiros comentários entre nós. Tomar um fôlego.

Poucas horas depois voltamos ao aeroporto e pegamos o avião para UDAIPUR. O dia amanheceu. Desembarcamos na pista, o céu azul, tentei fazer as primeiras fotos, um guarda me proibiu, peremptório. Guardar câmera!

Achei a cidade feia, disforme, arquitetura acéfala, uma daquelas cidades descuidadas do nordeste brasileiro. Maioria absoluta de homens nas ruas, e, as mulheres com sáris coloridos, os mais vibrantes de toda a Índia – fiquei sabendo depois – estes desta região, o RAJESTÃO.

Cortamos a cidade e chegamos à beira de um lago, no meio do qual estava o nosso hotel: Lake Palace. Bela visão! Um antigo castelo de marajá, onde aportamos de barco depois de uma rápida travessia. Suntuoso. A suíte era enorme, poderíamos viver ali por um tempo. Pouco depois, do restaurante do hotel, avistei algumas mulheres lavando roupa e tomando banho no lago de águas escuras, não muito longe dali. E os urubus.

Eu estava na ÍNDIA. Experimentei uma felicidade cálida. Não era alegria. Não havia acinte. Uma brisa, talvez.

Passamos o dia na rua, ainda a aclimatação. Estava tomando chegada. Visitei alguns hotéis que Will precisava conhecer. Quase todos antigos palácios de marajás, alguns cheirando a mofo, outros aristocráticos, sobe e desce escadas. Depois os lagos, parques, o City Palace, e a cidade cresceu.

No dia seguinte, cedo, seguimos de carro para JODHPUR.

O trânsito em toda a Índia é um capítulo à parte. Muito carro, poeira, animais, buzina, buzina, buzina. E a mão inglesa. Nesta viagem até Jodhpur só me assustei nos primeiros dez minutos porque, quando percebi que não havia mesmo o que fazer, entreguei pra Shiva e, salve-se quem puder!

O motorista era um indiano simplório, de poucas palavras. Lá fora, 45 graus. Paisagem árida. Paramos em um templo fantástico no complexo jainista de RANAKPUR. O Templo de Adinath é impressionante. São quatro frentes, cada uma delas com uma entrada principal que dá para uma enorme sequência de colunas e numerosos salões e capelas. Vários religiosos em oração, meditantes. Cheiro abrasivo de incenso, velas, vibrante energia. Não entendo bem essa palavra tão desgastada, mas ali era quase palpável. Um oásis. Além disso, uma maravilha arqueológica. Poucas vezes um ambiente religioso me foi tão impactante. Perto, fomos à casa de uma família de tecelãs, depois uma outra família que trabalhava reunida em torno de um poço dágua; que faziam mesmo? Já não lembro. Almoçamos em um restaurante bem simples e aprazível. – Corta para Tocantinópolis, interior de Goiás, onde, criança, a água coletada em uma bacia amassada, para lavar as mãos. A torneira de madeira gasta.

Seguimos viagem. Algum tempo depois, em um destes grandes restaurantes/mercados de beira de estrada, fiz meu primeiro negócio. A ordem por ali é pechinchar, propor, rebater, negociar. Não tenho a menor paciência para essa brincadeira e, infelizmente, nenhum talento. Gostei de um camelo de madeira, mas nada que me fizesse avançar do segundo lance, o vendedor todo interessado. Não chegamos a um acordo, OK, Namaste, fui fazer um lanche. Tinha dado por terminada a peleja quando, de volta ao carro, o vendedor me chamou e propôs outra negociação. Já desinteressado, não arredei pé da pechincha; ‘quem desdenha quer comprar’? Nem sempre.  Acabei ficando com o camelo por um preço próximo do que havia proposto. Resolvi elevá-lo a categoria de amuleto, quem sabe faria de mim um negociante esperto

Anos depois posso dizer que o camelo continua comigo, entretanto sua função tem sido meramente me lembrar um episódio pitoresco, e colorir a estante. Continuo incapaz de vender água no deserto.

Chegamos às cinco da tarde em JODHPUR. Ficamos em um Hotel moderno e clean: Taj Hari Mahal. Malas no quarto, fomos direto para a piscina, lembra do calor? Um maravilhoso céu de estrelas. Cerveja gelada. A primeira cerveja desde a chegada. 

Estou me sentindo bem à vontade.

Jantamos em um restaurante de um outro hotel, que tinha uma comida deliciosa, à base de legumes, cremes, frango, e especiarias. Além de uma localização privilegiada, um elevado no meio do jardim, onde uma dançarina acompanhava o ritmo de uma música suave, dois músicos ali. Iluminação silenciosa.  Uma noite cálida.

A esta altura eu já estava habituado aos temperos picantes e à pimenta que nos acompanhava desde os lautos cafés da manhã. O indiano que nos ciceroneava chegou de surpresa com as fotografias que eu havia deixado para revelar, e essa foi apenas uma das inúmeras manifestações de gentileza daquela gente, sobre a qual falarei adiante. Um brinde, então!

O programa da manhã seguinte não recomendo a você. Um safári; quem teve essa idéia? Saímos de jeep e começamos a circular por estradas de barro em meio a uma paisagem inóspita, causticante, pobre de horizontes e de animais. Mas não era um safári, cadê os bichos? Talvez tenha avistado uma vaca lá ao fundo, quem sabe um veado. Eles também a procura do que fazer.

Em seguida o guia nos levou a uma residência típica (pau a pique, paredes de barro) para a ‘cerimônia do chá’. A Cerimônia do Chá consiste em se tirar o sapato, sentar no chão de barro à volta dos anfitriões e experimentar o ópio que o guia misturou em água e nos serviu, a todos, em sequência, na palma de sua mão. Em pé, mulheres recostadas nas paredes, uma delas com uma chupeta na boca, não me pergunte porquê. Da Cerimônia, apenas os homens participam. Comecei a suar e não era o calor; lembrei de tudo o que me haviam dito no Brasil sobre o saneamento básico do país. Nada a fazer. Novamente entreguei à Shiva, que não me abra esse terceiro olho, ainda preciso chegar ao Taj Mahal. Mas, cá entre nós, o programa é dispensável. E, pior, nem deu barato!!!

À tarde fomos ao Forte, grandioso. A cidade recebeu a alcunha de CIDADE AZUL porque no centro velho quase todas as casas são pintadas dessa cor. Diz a lenda que o azul espanta mosquitos. A vista de cima do Forte para a cidade azul é fantástica.

Falei no post que escrevi sobre VARANASI, que na India tudo é MUITO. Muita gente, muita cor, poluição, riqueza, pobreza, beleza, a esta altura já havia me dado conta disso, mas o filme dentro do qual me encontrava ainda não ia sequer pela metade.

Nesta mesma noite pegamos o avião para NOVA DELHI. Não tão rápido assim. Nos aeroportos a segurança é de guerra. Muitas revistas. Entramos no avião e ali permanecemos um bom tempo em terra, suando bicas. Mandaram-nos descer. Voltamos para a sala de espera, onde serviram sanduíches, doce de leite e refrigerantes. Depois de umas duas horas voltamos ao avião. Novas revistas. Necessário enfatizar a cortesia com que o fazem. Nada agressivo. Então, a bordo. De repente apagaram os motores e as luzes. De novo. Achei que anunciariam a Terceira Guerra Mundial. Nem tanto, Mestre, nem tanto.

Acenderam as luzes, ligaram novamente os motores, os comissários checaram os itens de praxe e decolamos de volta à JADPUR, apenas escala rumo a DELHI, onde chegamos em torno da meia-noite.

NOVA DELHI, a capital do país.

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MOTIVO/cecília meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— MAIS NADA.

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Acabo de perceber que não votarei nas próximas eleições. Estarei em Belém, no domingo, logo eu que gosto tanto de ir às urnas.

Há tempos me desinteressei de política partidária, entretanto sou dos que consideram VIVER um ato político por si. Acho que política a gente faz diariamente quando reivindica nossos direitos, cumpre obrigações, breca o carro para dar passagem, enfeita o cotidiano ou coloca a casca da tangerina no saquinho de lixo do automóvel.  Talvez, então, política se confunda com civilidade. Não me refiro a generosidade e outras contemplações superiores porque, também não é de hoje, baixei as expectativas com relação a nossa espécie. Nunca fui signatário do ‘Amai-vos uns aos outros’. ‘Respeitai-vos uns aos outros’ sempre esteve de bom tamanho, mísero eu.    

Desde jovem participo de todos os movimentos populares que considerei  adequados. Assim, estive nos comícios da Praça da Sé pelas DIRETAS JÁ, bati panelas na janela do apartamento da João Moura quando precisava despertar a democracia, fui à Paulista de preto quando aquele presidente convocou a passeata de branco, e gostei de ver um homem chegar ao Planalto defendendo uma ideologia popular e fazendo odes à honestidade, condição indispensável para a isonomia que deve caracterizar qualquer servidor da população. Que outra serventia, o cargo público?

Hoje, me dando conta que desta vez não estarei na cabine – e, pior, sem lamentar o fato – ocorreu-me este Castro Alves que, evocando um NAVIO NEGREIRO, mais de um século atrás, ainda é capaz de traduzir a minha estupefação. E alguma esperança.  

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura… se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 

Ó mar, por que não apagas 
Co’a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?… 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa… 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!… 

……………………………………………………………………..

        
Existe um povo que a bandeira empresta 
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!… 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria. 
Meu Deus! Meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto. 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança. 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha! 

Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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MÃOS DE AFETO

Desta vez eles foram ao Parque da Luz, no centro da cidade. Caminham devagar, de braços dados, a tarde seca. Ela mostra as mulheres que passam por ali à procura. Ou à espera.

– Não é sexo o que os homens vêm buscar. Eles sentam no banco com elas para conversar, falar da vida.

– Ainda bem, porque com esses corpinhos só restou mesmo a alma para oferecer – ele é zombeteiro e ambos sorriem, ela encostando a cabeça em seu ombro.

Há décadas eles se oferecem estas tardes. Gostam de sair a dois, a sós, vasculhar a cidade, caminhar no tempo. Ele tem esposa e filho, ela tem marido, filhos e netos. Juntos, entretanto, são apenas dois.

– Você costumava vir aqui quando era jovem? – ele quis saber.

– A primeira vez que saí de casa foi aqui que eu vim. Tinha uma foto, usava um gorrinho branco, ainda não tinha um ano. Minha mãe devia achar lindo esse parque, porque depois dessa vez houve várias outras. Mamãe gostava de percorrer os espaços públicos.

– Olha aquela lá, que você acha?

– Imagina! Com aquele decote e aquele fuzô apertado, você acha que ela veio aqui dar comida aos pombos?

Eles riem e agora sentados no banco se põem a esquadrinhar a praça e sugerir o que vieram fazer todas aquelas pessoas. Quatorze anos, gazetando aula.

– Aquele é funcionário público, deixou o paletó na cadeira e veio dizer para ela que está apaixonado pela filha da vizinha.

– Ou pelo filho.

Ela bate em seu ombro, belicosa.

– Lembra aquele casal que a gente encontrou no Museu de Arte Sacra àquela vez?

Ela lembra. Verão, véspera de Natal, foram ver os presépios. Pouca gente no museu. Um homem beirando os oitenta explicava cada peça para sua acompanhante, uma moça morena de cabelo escorrido, usando um vestido de florzinhas vermelhas e um batom igualmente rubro, uns vinte anos ou menos, talvez. Tão grande a diferença de idade e de lógica, eles começaram a elucubrar e escrever o roteiro.

– Um fazendeiro de Ribeirão dando uma escapadela com a filha do vaqueiro. – ele sugeriu.

– O bispo com a mocinha que chegou do interior para ser Filha de Maria.

– Minha querida, hoje em dia Maria tem, se muito, enteada. Das filhas não sobrou uma só.

– Você sempre cético…

– Vai dizer que a romântica agora é você?

– Claro que sou. Você é que não sabe… – e ela virou o rosto, aos treze anos de idade, quase enrubescendo, fingindo timidez.

Outra tarde foram dançar na Casa de Portugal. ‘As praias desertas continuam esperando por nós dois…’

– Você mudou de perfume? – ela perguntou, farejando a gola da camisa branca.

Ele sorriu e ofereceu a nuca. Ela aspirou com naturalidade.

– Sua mulher não está cuidando direito deste colarinho.

Muito tempo atrás foram parceiros em um curso de tango, mas não tinham o talento necessário; o casal de professores deslizava na pista e coreografava a beleza e a sensualidade com inalcançável desenvoltura. Recolheram ternos e saltos. Então, work shop de Fernando Pessoa na Casa do Saber. ‘Para onde vai minha vida e quem a leva? Por quê eu faço sempre o que não queria? Que destino contínuo se passa em mim na treva? Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?’

– Mas isso não é pura psicanálise? – ele indagou, curioso.

– Belíssimo conceito do Inconsciente. Sigmund e Fernando trabalhavam com o mesmo barro em olarias diversas, olha que interessante.

Sorriram os dois e foram tomar um sorvete em frente. Aos quinze aos no recreio do colégio.

– Você está envelhecendo – Ela falou com ternura, lambendo o sorvete.

– Você, ao contrário, cada vez mais jovem. Não me espantarei se um dia destes me convidar para dançar a valsa dos seus quinze anos.

Ela fez uma careta, a boca vermelha do morango. Ele apertou-lhe o nariz, e desceu o sol.

– Até qualquer dia!

E agora estão aqui, sentados no banco do Parque. Esta tarde também vai chegando ao fim e ainda tanto o que dizer, o que calar. Gostam de estar assim, a dois, para que possam ficar a sós, consigo mesmos, em conforto. Ela citou Lya Luft, outro dia.

– ‘A solidão é um terreno árido, que convém não atravessar sozinho’.

Ele não esqueceu.

Por quê, então, esta discreta angústia? Encontram-se e despedem-se há tanto tempo, de onde essa súbita nostalgia?

– Estamos envelhecendo – ela assentiu, o desenho da meia lua tentando vencer o céu de chumbo. – Não falo dos cabelos brancos, mas das saudades. E dos medos.

Ele segurou sua mão. E a beijou com todo o zelo.

Fizera o mesmo quando ela voltou do enterro da mãe, seu primeiro envelhecimento. Anos depois foram a Bebedouro para regar as violetas que ela plantou no cemitério. E comeram a melhor costela na brasa de que se têm notícia. Quando a costela chegou à mesa do restaurante, tão avassalador o aroma, que ele se pôs a cantar, aspirando a fumaça de sal grosso: ‘And now the end is near, and so I face the final curtain…I did it my way.’

Quando nasceu seu primeiro neto, ela lhe trouxe um caderno para anotações:

– Talvez agora você se disponha a escrever poesias.

Na primeira página ele anotou a data. Era outono e as folhas secas crepitavam no chão. No mesmo caderno anotou a receita de pato mais minimalista que tivera notícia. Ela ditou: Lambuze o pato inteiro no sal grosso e o leve ao forno aquecido. Simples assim.

– Não tenho a menor inveja do seu marido – ele gracejou.

Agora, a noite caiu e ainda caminham no Parque. De uma outra vez tiveram essa mesma angústia de alongar o tempo, estavam tomando chá na Fundação Oscar Americano, mas faz quinze anos e era primavera. Não havia névoa.

– Nada mais faz um ano ou dois. Começo a contar o tempo de dez anos para trás. Não é incrível?

Ele cita Pessoa para espairecer: ‘E ele sorri porque tudo é incrível. Ele ri dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios…’

– ‘Meu tempo é quando’ – ela arremata com Vinícius, os olhos no chão, chutando folhas.

– Quando se tem setenta anos, não é tão isolado este número. Ter setenta anos significa um fichário onde estão contidos os dez anos, os trinta, os quarenta, cinquenta, os dezoito. Quem foi mesmo que escreveu isso?

– Alguém otimista o suficiente para consigo mesma ou perigosamente  generosa com os seus leitores.

E ele, então, tirou do bolso da calça, e lhe entregou, o bilhete desbotado que ela escrevera, em outro aniversário, quarenta anos antes: ‘Você gostaria de ser meu amigo?’

Ela abriu os olhos e um sorriso cálido, toda espanto e graça. Aos trinta anos, ao final da reunião de professores no Colégio Municipal.

Abraçaram-se no meio do passeio. De corpo inteiro. Uma felicidade toda tenra.

– Feliz Aniversário! – ele falou quase em sigilo para que nenhum mal pudesse ouvir.

O vento de chuva começou a soprar, agitando galhos, saias, cabelos e levando para longe as folhas do chão.

Ela recostou o rosto em seu peito terno e achou melhor não dizer que no dia seguinte sairia em viagem com o marido rumo à Ilha Desconhecida. Do Saramago.

Bodas de ouro.

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UM ARTISTA?

A vida inteira desejou ser escritor mas, esta manhã, descobriu ser impossível. Justo agora quando se sentia íntimo de folhas e tela em branco, percebeu que necessita de respaldo, aprovação, julgamento. E um escritor deve escrever por coação interna, não para soar impactante, parecer inteligente ou ganhar a vida.  Aliás, é por não ter conhecimento da vida, que um escritor escreve, um escultor esculpe, e mesmo uma bailarina flutua, pássara, na ponta do pé. Alheia a respostas, toda ela perguntas e indagações. Vertigem.

Falou-se em técnica – ‘você progride a olhos vistos’ – mas ele às vezes toma vício por técnica, e então as falácias, o rei segue nu. Em um conto que se mostrava resolvido e sedutor ele percebeu os remendos, como se de um castelo enxergasse o reboco por trás das paredes lisas, e enrubesceu. Abaixou a cabeça. Os amigos não viram porque tomavam cerveja, e os bons pensamentos.

Tempos atrás, o pai comentou depois de ler sua primeira coletânea de artigos vários: Você não é jornalista, nem poeta, tampouco escritor, embora se assemelhe a todos. Nada pior para uma vocação do que ‘assemelhar-se’, peixe bicando o aquário inutilmente, sem jamais chegar ao mar. Jornalistas informam, poetas traduzem, escritores se expressam. Você passa por estas casas sem se deter em nenhuma. Vá caminhar.

Artista é aquela pessoa que não poderia ser outra coisa. Acreditou nisso desde sempre. Não por incapacidade de aprender, mas por necessidade imperiosa de conhecer-lhe o avesso, ao menos investigar, jogar uma luz, e só então se perder em todo o breu. O artista executa a arte para não enlouquecer, quem sabe, moldar em barro a loucura. Ou em palavras. Em telas. Ondas incoercíveis batendo vigorosas no rochedo. E a resistência.

Portanto não temos aí uma profissão, mas um jeito de estar vivo. O único possível.

– Romântico demais – disse um.  

– A arte tem a inutilidade de praticamente tudo – o outro.

– Sem a arte padeceríamos de uma enorme solidão espiritual. – alguém acudiu, lamparina na mão.

A vida inteira desejou ser escritor.

Errou de foco e de destino. Não se trilha um caminho para a escrita, não se vence etapas, não há graduação. Labuta-se em silêncio. Não será um escritor pelo motivo mais raso: porque não escreve. Porque espera. E alardeia. A arte é pó eternamente flutuando à contra-luz do sol, que necessita de um sopro para dar-lhe alguma função, mesmo que intocável; do contrário entra pelas ventas e faz tossir. Faz morrer. Onde o alquimista?

Ele deveria tentar ainda uma vez. Existe ali dentro, em perpétuo alvoroço, uma criatura que precisa – por favor – libertar-se dela. Dela própria. E perder-se, enfim.

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Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse teu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha pra contar…

Pavão misterioso
Nessa cauda
Aberta em leque
Me guarda moleque
De eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda
Quero olhar…

Pavão misterioso
Pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não…

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar…

                                                           Ednardo

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FUROR

Ele saiu do culto com a alma menos alvoroçada. Vestia a camisa de linho branco, as mangas compridas, para louvar ao Senhor. Aprendeu com a mãe – quanto tempo faz? – que se deve vestir com respeito quando se vai às visitas. É consideração.

Na calçada os irmãos se estendiam as mãos. Uma família. As saias até os joelhos, sapatos fechados. Pretos. Graves. Corretos.

Lembrou da falecida, a mãe dos seus filhos, avó de seus netos, que grande companheira. Nunca mais comeu galinha tão saborosa como aquelas que a mulher levava à mesa. Hoje não se usa cuminho o suficiente. Foram cinquenta anos comendo galinha de boa qualidade. Quando ela se foi, desolação e tédio. Onde havia vida por aí? Para quem trazer o pão, cortar a cebola, ler a Palavra? E a caderneta na farmácia, qual serventia, se ele, forte como um touro, não tomava sequer um Melhoral infantil?! Nulidade.

O primeiro mês consumiu se inteirando da pequena casa. Aqui as meias, ali as panelas, acolá as toalhas. Depois foi a filha caçula quem ensinou a fritar o ovo, lavar folhas verdes, coar o café. Às vezes vinha preparar a galinha mas, como aquelas, nunca mais.

Restaram a Igreja e os cultos. Quando percebeu que a irmã Mimosa, igualmente viúva, o olhava com delicada compaixão, uma fresta de luz penetrou em seu quarto. De costas, os olhos no teto, se pôs a pensar, refletir, fazer planos. Depois de consultar a falecida, evidente. Ela haveria de compreender que um homem sozinho, sem mulher, é como náufrago à deriva. A mercê dos ventos que, nesta idade, não costumam soprar a favor.

Então uma ilha.

Foi depois do culto de domingo que ele a convidou para um café, logo ali na padaria. Ela tinha sugestão melhor:

– Vamos até em casa e eu preparo um café fresquinho pro irmão.

– Bondade sua, irmã Mimosa.

E seguiram, conversando sobre as palavras do pastor. Mimosa estava encantada com aquela liturgia. Jonas saiu vivo da barriga da baleia, isso é mesmo coisa de Deus, ponderou com humildade. Toda em sustos.

O café estava bom. Fraquinho e doce. Mimosa é delicada, foi inevitável concluir. E conhecia a falecida, saberia valorizar-lhe o passe. Foi desde sempre bem cuidado. Respeitado. Honrado. Mimosa é testemunha.

O enlace foi do agrado de todos. Apenas Dalila não mostrava aceitação. Estava acostumada a dividir a casa com a mãe há tanto tempo, desde a morte do pai. Dalila não gostava muito de pessoas, nem de novidade. Nunca teve homem, para quê conviver com este agora debaixo do mesmo teto? E se acontecesse de mamãe perder o controle do respiro e gemer novamente acima do tom? Pois, quando moleca, ela não subiu na cama do casal para salvar a mãe que o pai sufocava com o corpo inteiro?!

Não, isto não estava bem. Pior ainda nessa idade. A mulher já havia passado dos setenta, que fogo é esse? Ela seria um zumbi no meio deste novo casal, isso é maldade. E se acontecer de ter a crise na presença do velho? Pouco sai de casa para evitar o destempero de cair na rua, levantar a saia, enrolar a língua na presença de estranhos, agora essa, ai, ai, ai…

Dois meses depois o Pastor abençoou as alianças. Final de semana em Águas de Lindóia, a lua de mel. Sem este nome, para não cair no ridículo, nem na língua do povo.

Voltaram em paz. De braços dados. Serenos. Mimosa não quis sair de casa, a filha doente. Ele quem mudou.

Foi em pouco tempo que recuperou os quilos perdidos. E aquela ingênua alegria. Mimosa passou a exibir no rosto dois morangos maduros.

A felicidade outra vez.

Dalila pelos cantos, enredando botes. Implicando. Tecendo. Cada dia ficava mais difícil testemunhar aqueles dois. Na presença da mãe dissimulava, mas declarou guerra ao padrasto tão logo ficaram a sós.

– Padrasto uma ova, que não tenho pai na idade em que estou. Pensa que não me enxergo, seu velho gagá?

Ele paciente. Tolerante. Generoso. A epilepsia merece respeito, é coisa do demônio, e quem não sabe disso? Pena que Dalila não seja chegada às coisas de Deus. Logo ela, a que mais precisa.

Na primeira vez, Mimosa tinha ido a feira. Ele descansava no sofá. Quando olhou para ela, Dalila revirava os olhos, começava a tremer. Veio em sua direção e o tremor a fez cair por cima dele e a debater-se em seu colo. Dalila se contorcia, arquejava, se mexia como cobra em areia quente. Segurava-lhe o pescoço, enfiava a cabeça em sua nuca, babava seu ombro. Ele a amparou como pôde. E quando o vestido subiu perna acima, ele respeitosamente lhe devolveu o recato, e só deu com a mão no seio grande de Dalila porque no meio daquele terremoto ninguém é mesmo dono de ninguém.

Quando a tempestade passou, Dalila estava deitada em seu colo, as pernas fletidas, o dedo na boca.

– Que é que eu tô fazendo aqui, seu cafajeste? – ela se levantou de um salto.

Ele ia começar a explicar quando Mimosa chegou com a feira e então se encaminhou para recebê-la. Dalila, ainda em fogo, levou o dedo à boca exigindo silêncio. E pegou a sacola da mãe, prestimosa. Parece que piscou um olho. Parece; ele não tem certeza.

Na semana seguinte a coisa se repetiu. Estava sentado na cama calçando as meias para ir ao culto quando a mulher rumou em sua direção, tremulando. Caiu novamente sobre ele e o esmagou com seus movimentos frementes. Não fora doente e involuntário se diria passista de escola de samba à frente da bateria, tal o frenesi. As contorções agora concentradas no regaço provocaram uma ereção inesperada, Deus nos salve, aleluila, aleluia, aleluia.

O homem é honrado e, mal percebeu a lascívia, empurrou a doente para o lado da cama e se levantou. Ela parou de tremer e o olhou com ares de fera. Ele saiu do quarto, uma meia no pé, a outra na mão.

– Volta aqui, seu velho babão.

Ele lavou o rosto na pia da cozinha e bateu duas vezes a cabeça na parede em frente.

– Senhor, afasta de mim este cálice! 

Pediu à mulher que não se ausentasse. Em sua presença não vinham as crises, e já não sabia o que fazer com a filha. Noite destas chegou a sonhar que um terremoto abria uma cratera abissal em sua casa e o sugava com sofreguidão. Em pleno desespero ejaculou no pijama, que falta de modos, polução a esta altura. E tão pouca. Lavou-se, envergonhado, no meio da noite.

Redobrou as orações, a tentação é uma serpente que vigia. Acabou o sossego, e os pensamentos entraram em erupção como um maremoto que surpreende águas calmas em noite de lua cheia. Instalou-se o caos em sua cabeça, ardência na carne, e entre as pernas um Lázaro que ressuscita. – Não é este o milagre que espero, Senhor – protestou, os olhos d´água.

Dalila não dava trégua. Sentou em seu colo, às batucadas, em pleno sofá, enquanto a mãe limpava um peixe logo ali no degrau dos fundos. Ele iria enlouquecer. Necessário tomar uma atitude. Dalila o chamava, em silêncio, para a arena, mas de Sansão ele não tinha sequer os cabelos.

Perguntou-lhe se não era hora de voltar ao médico, as crises tão recorrentes. Estava humilde.

– Quem tá precisando de remédio aqui não sou eu não, santinho do pau oco. Não te garantes não, é?

Ele foi à farmácia, conversou com o Nestor, amigo desde os tempos da falecida. Foi graças a ele que pôde abreviar as tormentas da mulher, definhando na cama à base de remédios. Com as balinhas de vento em lugar das drogas pesadas abriu a portinhola que a levaria ao paraíso e a deixou seguir sem os aviltamentos da decrepitude. Ela partiu conservando ainda alguma dignidade. Nada mais justo.

– Depois do que lhe contei, o irmão não acha que Dalila está precisando de uma nova avaliação? Esses remédios tão fraquinhos demais…

– Mas ela é tinhosa, não é mesmo? Por sorte tenho experiência nesse tipo de medicação. Se ela não aceita passar no especialista, eu mesmo faço o ajuste da dose e a gente livra a coitada desse vexame.

Na semana seguinte Mimosa chegou com as pílulas.

Dalila tornou-se inesperadamente calma. Até apática. Uma soneira sem fim. Murchou os olhos. Ele respirou, e compreendeu que a vida necessita, muitas vezes, de um bom diretor, à despeito da qualidade do enredo. Há que se desviar o curso do rio, se for necessário. E sentiu-se um verdadeiro enviado do Senhor. Um Seu arauto.

– Serei Pastor – conclusão inevitável. Dobrou o dízimo, elevou a voz, cantou louvores pela casa.

Um pensamento nefasto interrompeu o idílio. Se a moça sossegara realmente com a medicação, era sinal que não estava fingindo quando convulsionava em seu colo. A suspeita lasciva, apenas floreio de sua cabeça em pecado, ele, então, o verdadeiro herege. Levou as mãos à cabeça.

Agora foi ele a murchar. Acometeu-lhe uma tristeza que só nos primeiros tempos de viuvez experimentou. O pijama já não saía do corpo. A Bíblia fechada no criado mudo. Cancelado o curso de Pastor. Mimosa começou a se preocupar.

– Meu velho anda tão acabrunhado… – e deslizou-lhe a mão no rosto, triste e calma.

Levantou a cabeça e espiou, a porta aberta, Dalila deitada na cama acolá. Todo melancolia.

– Você tem razão, meu bem. Entrei na sua vida pra ser um raio de sol, não uma nuvem pesada, não é mesmo?

Ela sorriu redondo, os morangos querendo brotar.

Na caixa de Primeiros Socorros encontrou as pílulas de vento que forneceu à esposa tempos atrás. Constatou o mesmo formato dos anticonvulsivantes, mestre é o Nestor. Quando Dalila pegou no sono pesado, foi até a gaveta e trocou a medicação.

– Mimosa voltará a sorrir – pensou, em júbilo.

Poucos dias depois, mal Mimosa saiu para a pregação da Palavra, Dalila se levantou da cama, espreguiçando, polvo de mil tentáculos. Fazia ruídos com a voz, o olhar da serpente. Ele sentou na poltrona-do-papai. Dalila estava imensamente linda quando começou a tremer. Ele sorriu e abriu as pernas cansadas.

Ela convulsionou em seu colo, um vulcão que se alevanta. De olhos fechados ele aspirou cada lava cor de laranja e pecado. Uma bola de fogo na sala miúda.

Dalila, feérica, babou em seu ouvido:

– Velho tarado!

Trombetas no céu.

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